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Morre a reportagem. ...E a
culpa não é dos movimentos sociais. Por Solange
Cavalcante A morte do fotógrafo Luís Antônio da Costa, no último 23 de julho, num terreno ocupado pelos sem-teto do MTST, em São Bernardo, parece representar, também, a morte da reportagem. Lacosta, como era conhecido, estava trabalhando como free lancer da revista Época. A propósito disso, pouco ou nada se falou, na imprensa, sobre a precariedade das relações entre o profissional e o veículo para que trabalhava. A Época promoveu quatro cortes de pessoal em pouco mais de um ano, e a coisa não parou por aí. A política de redução de custos na revista provocou mais 13 demissões em junho, editores incluídos. Isso mantém, por exemplo, situações como a da Editoria Mundo, cuja cobertura vem sendo feita há tempos por apenas um profissional. As lacunas e o acúmulo de tarefas têm sido contornados com a contratação de estagiários. Trezentos reais, informa uma editora, quando precisa contratar alguém. Ela não esclarece aos estudantes de Jornalismo que a jornada pode chegar a 12 horas. Não temos dinheiro para pagar salário. Em outubro do ano passado, a Globopar, holding da qual fazem parte a prestadora de serviços de internet, a gráfica e também a publicação das revistas da Editora Globo, pediu moratória das dívidas. O prejuízo teria sido gerado, entre outras coisas, pelo gasto com cabeamento com fibra óptica para recepção de televisão a cabo. Alguém ignorou, nessa empreitada, que o brasileiro não poderia pagar por esse produto. O resultado é que as dívidas das empresas Globo chegam, hoje, a um bilhão de dólares. Essa crise parece explicar por que a redação da Época está sempre cheia, apesar das demissões. Ninguém sai. A cobertura por telefone e pela internet tem sido uma alternativa para reduzir os gastos com equipes de reportagem. Época fez o assassinato do fotógrafo Luís Antônio da Costa parecer uma cruzada contra a imprensa, sem que nada realmente fosse evidência disso. Se dependesse de Época, mesmo que essa guerra existisse, não haveria suficientes vítimas. Ter um repórter na rua, com a reportagem quase em extinção na revista, foi mero acaso. Na mesma semana do ocorrido, mais dois fatos marcaram, de forma emblemática, o tipo de cobertura ora praticado em grande parte da imprensa no Brasil, na Época em especial. Um avião particular cai sobre quatro casas em Sorocaba, em 24 de julho. Morre o piloto e ficam feridos o co-piloto e o dono do avião. É descartada uma cobertura mais ampla, porque não há verbas para destacar repórteres para o local. Uma estagiária deve redigir uma nota de mil caracteres sobre o número de aviões particulares no país. Sobre as casas destruídas e seus moradores, nada. Não há nenhuma recomendação extra para a checagem dos fatos, além de que ela seja feita por telefone e pela internet. Na assessoria de imprensa do DAC, no Rio de Janeiro, num dos contatos feitos, um jornalista entediado informa à repórter: Tudo o que você quiser saber está na página do DAC, na internet. Instado a dar uma declaração, pelo menos, ele encerra a conversa: A gente já põe na internet que é pra não dar trabalho. Você abre nossa página e pega o que quiser. Se tiver alguma dúvida, liga de novo. No mesmo dia, Paulo Roberto Rocha, é assassinado o coordenador dos presídios de Bangu, no Rio de Janeiro. Tem que dar, determina o editor. A reação é automática, literalmente. Uma repórter escolhe, de forma aleatória, três sítios na internet para a checagem da informação. Neles não há acordo nem quanto à hora do crime nem a onde o tiro acertou. Entre as informações que indicam a nuca e as costas, 20h30 e 23h, é uma estagiaria quem escolhe: Rocha foi assassinado às 23h com um tiro nas costas. Nenhum contato com a polícia do Rio, com o necrotério, com repórteres locais por acaso, da mesma empresa jornalística , nada.
*Texto publicado na revista diálogos&debates, setembro de 2003. A versão EmCrise é mais virulenta. |