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Eles não usam
black tie na "Cidade de Deus"
Filme de Fernando Meirelles retrata
o resultado da falta de planejamento urbano e social em décadas
de descaso com a periferia.
Por Roberto
Romano*
EmCrise 05/09/2002
Existem obras
prenunciadoras e outras atestadoras. Algumas delas caem sobre a história
como selos incontestáveis da mudança dos ventos. Em 1968
Tom Jobim já tinha enfrentado o medo de avião e tocara no
Carneggie Hall, em Nova York, na noite da Bossa Nova, mas via-se, ao lado
de Chico Buarque, num embate histórico da múscia brasileira.
Sabiá desbancava Pra Não Dizer que Não Falei de Flores
do posto de campeão do Festival da Record daquele ano. O júri
fiou-se na desculpa de qualidade musical para o veredicto, mas o ambiente
político é que decidira o resultado da competição.
Não bastara intérpretes dizerem que Sabiá na verdade
referia-se aos exilados políticos do regime militar ao dizer "vou
voltar para o meu lugar". Os versos de Geraldo Vandré calavam
mais fundo no público e tinha um quê de universalidade que
colocava o Brasil em pé de iqualdade com os demais países
da América Latina que viviam sobre ditaduras. E ainda resgatava
uma dívida histórica das lutas brasileiras contra o poder
institucionalizado, com "a certeza na frente, a história na
mão".
Mas, dez anos antes, o ator e escritor nascido na Itália Gianfrancesco
Guarnieri já prenunciava temas que o restante do século
e ainda o seguite veriam tornar-se pétreos. Em Eles não
Usam Black Tie, a favela e o operariado eram o centro da discussão.
Não que fossem, a bem da verdade, assuntos novos, mas o molho em
que foram colocados dava o tempero exato do que seriam os movimentos sindicais
que se seguiriam décadas à frente, traçava um panorama
neo-realista das favelas brasileiras e apontava o cerne do abismo social
entre periferia e burguesia nos grandes centros brasileiros, fazendo crer
que a distância tinha mais a ver com caráter (ou a falta
dele) do que com fatalismo sócioeconômico.
E a favela de Guarnieri havia surgido pelo menos 50 anos antes da obra,
com a vinda dos ex-combatentes da Guerra de Canudos que voltavam do sertão
baiano e instalavam-se nos morros cariocas. A favela, até então,
nada mais era do que o assentamento dos mesmos soldados que anos antes
se atocaiavam no Morro da Favela, distante alguns metros do rio Vaza Barris,
que os separava da Igreja de Antônio Conselheiro. Dos combates entre
as tropas da República e dos seguidores de Conselheiro, poucas
dezenas de beatos sobreviveram. Dois batalhões do Exército
foram dizimados mas o terceiro, composto por soldados de quase todos os
Estados da federação, sobreviveu, e voltou para o Rio de
Janeiro.
Assim é marcado o relacionamento permissivo entre o centro e a
periferia. O presidente Fernando Henrique Cardoso, também um ex-auto-exilado
nos anos 60, participou dos movimentos sindicais nos anos 70 e 80 no ABC
paulista, mesmo movimento que apontou o presidenciável Luiz Inácio
Lula da Silva como líder dos trabalhadores nas negociações
com os empresários, empurrando-o para a vida política.
Mas de 1964 a 89, enquanto uma nova classe política se formava,
muita sujeira política ia sendo jogada para baixo do tapete, ou
para longe dos centros urbanos. Sob um regime de ordem moral, cívica
e religiosa militar o que incomodava o governo era descartado para fora
do País ou mesmo dentro dele, como Cidade de Deus, condomínio
popular erguido pelo governo na extrema periferia do Rio de Janeiro para
abrigar favelados desabrigados cariocas. Na Cidade de Deus, à época,
nem água, nem luz, nem condução chegavam.
Os responsáveis pela política habitacional do governo sabiam
que o regime militar não duraria para sempre e que portanto tal
solução, tirar dos olhos burgueses o que eles não
sentem, só poderia voltar-lhes como ameaça num futuro distante.
Mas a Cidade de Deus cresceu enormemente, assim com o assentamento de
ex-soldados de Canudos e assim como a cidade do Rio de Janeiro que numa
bela manhã de verão assistiu pela janela ou pela TV Globo
o arrastão de favelados nas praias cariocas.
Mas muito antes do pânico causado pelas imagens transmitidas em
rede nacional a violência já era regra na Cidade de Deus
e em outras favelas do País. E o filme que estréia nessa
sexta-feira em cem salas de cinema revela o desenrolar dessa violência.
Mas ao contrário do que anda dizendo parte da crítica, que
tenta reduzir a história a entretenimento burguês, o filme
Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, baseado na obra de Paulo Lins (que
por sua vez é baseado em fatos reais), é um retrato humanístico
do resultado da falta de planejamento urbano e social de décadas
de descaso com trabalhadores da periferia. Quem disser que o filme dilui
a violência para ser aceita pela classe média ou passou o
último ano no Afeganistão ou vê a realidade como pura
ficção.
Cidade de Deus não é maniqueísta. Mas valores pré-concebidos
do público podem levá-lo a repetir sentenças que
só reafirmam o abismo entre favelados e a classe média.
Nada no filme pode sustentar a hipótese de que o narrador teve
melhor futuro que os demais personagens. Mas deixa claro a dificuldade
que passou para poder "subir" de classe. O resto é preconceito
do público e da crítica.
Os moradores da Cidade de Deus, e de outras favelas, sofrem há
décadas o descaso dos homens públicos. Fernando Henrique
Cardoso, ex-perseguido, gaba-se de ter ampliado o número de pessoas
perseguidas pelo regime militar com direito a indenização
do governo. Recentemente ampliou o direito a trabalhadores que foram demitidos
por motivos políticos e para ex-aviadores da aeronáutica
que foram impedidos de trabalhar. Talvez chegue o dia em que os moradores
de conjuntos habitacionais construídos pelas administrações
públicas com fins eleitoreiros baratos ganhem o direito de receber
indenização por terem sido obrigados (econômica ou
judicialmente) a viver em condições precárias por
décadas e por terem tido dificultado ao máximo a possibilidade
de, querendo, mudar de classe social. Mas nem os descendentes de escravos
e tampouco os dos beatos do Conselheiro receberam alguma indenização
até hoje. Sobra a Responsabilidade Fiscal e falta a Social.
Cidade de Deus, o filme, foi apresentado pela primeira vez, ainda este
ano, no Festival de Cannes, na França. Lá, poucos jornalistas
brasileiros se interessaram pela história, preferiram entrevistar
Woody Allen, Cameron Diaz, Leonardo DiCaprio. A imprensa internacional
agendou cerca de cem entrevistas com o diretor Fernando Meirelles. Eles
Não Usam Black Tie, o filme de Leon Hirszman (1981), fez ainda
mais sucesso no mesmo festival, levou cinco prêmios, incluindo o
Leão de Ouro Especial do Júri. As críticas nacionais
a Cidade de Deus reduzem o filme a mero entretenimento que trata a violência
como objeto de consumo, assim como os piores filmes da indústria
dos Estados Unidos. Eles Não Usam Black Tie, por sua vez, é
objeto raro em quase todas as locadoras. Comprá-lo é impossível;
fora de catálogo. Mas a história prenunciadora, graças
a Guarnieri, recentemente voltou aos palcos, mais de 40 anos após
a primeira encenação pelo Teatro Arena.
E a saída para o atestador Cidade de Deus talvez seja mesmo, como
repetiu três vezes o maestro de Sabiá em pleno regime militar,
o Aeroporto Internacional Tom Jobim, ainda que cantando "Não
vai ser em vão que fiz tantos planos de me enganar...".
*Roberto
Romano é jornalista e colaborador do EmCrise.
O texto foi publicado originalmente na agência Estado.
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