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Besteirinhas
Ultimamente tenho me perguntado mais e mais a respeito do jornalismo, da ética e das questões técnicas que envolvem a produção de uma simples e qualquer reportagem - e olhe que eu nem trabalho na Folha. Resolvi escrever algumas dessas besteirinhas que me afligem, tanto para recordar daqui algum tempo que tipo de coisas ocupavam minha mente vaga ("a oficina do Diabo", de acordo com minha vó) e também para, quem sabe, compartilhar algumas dúvidas sobre a nossa profissão - verdadeiramente a mais antiga do mundo. "Qualquer
jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber
o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente
indefensável", diz a jornalista Janet Malcom na abertura do
seu livro O jornalista
e o assassino. No caso, ela trata exclusivamente do seguinte: tecnicamente
e teoricamente, uma reportagem precisa ter "o outro lado", ou
seja, tem que escutar o assassino e escutar a polícia, a mãe
da vítima ("como a senhora se sente?") e o pipoqueiro
que viu tudo. Só que o assassino, quando está conversando
com o jornalista, não sabe que ele vai ser o imbecil mentiroso
da história, aliás, pensa que o jornalista é um cara
legal que está querendo ajudar. E conta tudo. Depois, como diz
a própria Janet, o entrevistado sente-se como "uma mulher
que acorda e vê que seus pertences sumiram junto com o amante que
conhecera na noite anterior". Uns podem dizer "bem feito, o
cara é um assassino, tem mais é que se dar mal". Mas
e quando o entrevistado é um professor defendendo certa linha de
ensino e a matéria quer fazer crer que aquela linha é uma
idiotice? Nunca escutei
falar de ninguém que abra o jogo para o entrevistado e chegue falando
"olha, estou fazendo uma reportagem sobre como o seu método
não funciona, o senhor pode me explicar umas coisas?"
Para quem não é do ramo, pauta "é um roteiro mínimo fornecido ao repórter" para o cara fazer a reportagem. São dicas de pessoas que o cara deve entrevistar, a abordagem que o editor quer, lugares que seria bom ele visitar e coisas assim. Como fazer
quando o editor tem na cabeça uma pauta que não existe? E se, num mundo perfeito, a pauta fosse discutida antes e, logo após uma apuração mínima, discutida novamente, profundamente, em grupo (ou pelo menos com o editor)? Assim o editor não corre o risco de ter depois a matéria que não queria, o repórter não fica com cara de tacho porque se esforçou e deu o enfoque errado - e o leitor sai ganhando, porque foram várias as cabeças que pensaram sobre aquele assunto antes dele ser escrito. É muita loucura isso?
Qual é a separação entre um texto de jornalismo literário e aquilo que alguns chamam de "literatice", ou seja, um cara que não conseguiu (quem define?) fazer literatura no seu texto jornalístico? Por que um texto jornalístico tem que seguir as regras dos manuais de redação e estilo (e estilo!)? O texto não continua sendo jornalístico se é fiel à realidade que o repórter encontrou, se não tem invenções, mentiras e fantasias, se foi baseado em entrevistas, conversas e pesquisas? A defesa da literatura e do livre-pensar-criar. Acho terríveis as expressões "brega" e "cafona". 1. Diz-se
da pessoa que, com aparência ou pretensão de elegância,
foge ao que convencionalmente é de bom gosto; fajuto, farjuto,
jeca, miquelino. Mas o que diabos é "convencionalmente de bom gosto"? O cantor mais vendido do mundo (mais que os Beatles!) é o Roberto Carlos. É brega? As descrições do García Marquez e do Almodóvar sobre as mulheres são bonitas ou cafonas? E será que eles já saíram escrevendo assim ou foram chamados de bregas e continuaram mesmo assim, até o refino e o estilo que têm? Bah. Enfim. Andei pensando
outras besteirinhas também: em alguns casos, importa realmente
saber o nome da Maria da Conceição Tavares, que é
catadora de latinhas, ou importa mais o que ela disse? E se no meu texto
eu colocar o que ela disse entre aspas e não identificar quem falou?
Seria errado? Por quê? *André Deak é co-fundador do EmCrise, trabalha como free-lancer para muitos lugares, foi editor-assistente da revista Diálogos&Debates e tem sérias crises com a profissão a cada 15 minutos, mais ou menos. |