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Arte em ritmo de jornalismo Comunicando-se
com velocidade de beija-flor - se tivéssemos asas, elas bateriam
70 vezes por segundo - o homem não tem mais tempo para refletir.
Não consegue olhar com serenidade uma obra de arte, precisa esgotá-la
por completo antes que acabe o intervalo de almoço Por Vanessa
Barbara* A televisão ligada mostra peixes num aquário, nadando ao som de violinos. O encarte do jornal de ontem traz textos com mais de 4.000 caracteres. Um homem sentado na cama conversa silenciosamente com sua insônia. São as únicas manifestações de calma sensibilidade que o dia conhecerá: em algumas horas há de amanhecer, o jornal chegará com 413 fatos-relâmpago, a televisão irá tagarelar durante 17 minutos sobre o novo vestido bombom de Vera Fischer e cada um se movimentará com certo grau de pressa, dando bom-dia-com-licença-obrigado, mecanicamente esperando a tarde terminar. "Mundo" tornou-se uma palavra muito grande para denominar o palco de nossas experiências. Alguém deve encontrar, rápido, uma boa abreviação, antes que o texto termine. O que já não é feito com superficialidade frenética - filmes, músicas, livros, arte, paixões - é resumido de forma a caber em meia página (deve-se dar espaço aos anúncios). Tudo que é sólido se desmancha no ar, e Marx acrescentaria: o que não é colorido será fragmentado, e, ao som de uma música do momento, vai virar vinheta da próxima novela. Comunicando-se com velocidade de beija-flor - se tivéssemos asas, elas bateriam 70 vezes por segundo - o homem não tem mais tempo para refletir. Não consegue olhar com serenidade uma obra de arte, precisa esgotá-la por completo antes que acabe o intervalo de almoço. A arte adquire utilidades: serve para passar o tempo, para consolar deprimidos, para provocar o riso, para dar uma efêmera sensação de vida que logo se transformará em sono, fome ou excitação, cerca de treze segundos depois. É o que os especialistas diriam, pois a arte de hoje precisa de números. 150 pessoas estão se apaixonando nesse momento, é o que esclareceriam os técnicos do Instituto Gallup sobre a repercussão da nova novela das oito. Os sentimentos se coisificam, as coisas se sentimentalizam, e muitos acabam tentando fazer arte de uma vaga sensação de coceira que os especialistas dizem ser amor. A mídia, lambendo os bigodes, propagandeia fragmentos de espetáculos que pretendem fazer do sujeito um mero espectador, que o incita a tirar os sapatos, esquecer da vida e relaxar. Guerras assépticas, melodramas artificiais, confrontos maniqueístas: a realidade é duplicada e apresentada vertiginosamente, repleta de ilusões e final feliz. Quando acaba o consumo, basta abrir novamente os olhos com a sensação de ter dormindo tranqüilamente. A vida reduziu-se a uma página aberta do jornal (também se reduziu a analogias vazias, comparações insólitas ou simplificações vagas, contanto que o leitor possa entender melhor). Milhares de fatos a esmo, sem conexão aparente, a compor um cuscuz de restos de notícias, tragédias desconexas, muitas fofocas, poucas alegrias. Quase nada de opinião. Nenhuma análise, e muitas figuras coloridas. A diversão é uma página de quadrinhos, misticismo e palavras cruzadas. A arte, mera diagramação. |