O Full English, tradicional café da manhã inglês

Full English

Por André Deak
EmCrise – 3/08/2003

LONDRES - Eu, que já experimentei grilos fritos no México, que já encarei um hot-dog feito com uma salsicha azul esverdeada em Cuba e que já comi uma coxinha de rodoviária em São Paulo tão velha que estava ficando preta, não pude deixar de conferir o típico café da manhã do povo inglês.

Feijão sem gosto acompanhado de um molho de tomate tão saboroso quanto ketchup; uma salsicha meio azeda meio doce, que seria uma lingüiça pela aparência - mas que, por dentro, é mesmo uma salsicha; um bacon tão gorduroso que deve ir entupindo todas as veias por onde passa; torradas amanteigadas para se comer com o feijão; um ovo frito. Esse é o famoso café da manhã inglês chamado Full English, com pequenas variações como acrescentar cogumelos ou algo que eles chamam de black pudding e não tive coragem de saber o que era.

É esse, exatamente, o sabor mais admirado em Londres. Pior: não apenas no café da manhã, mas também no almoço e no jantar. Não que a mesma pessoa coma isso três vezes por dia (talvez algum hooligan até seja capaz), mas todos pedem a qualquer hora e os restaurantes e pubs servem dia e noite. Depois, é até irônico: qualquer produto vendido no supermercado vem com a inscrição "Low fat". Se você quiser, por acaso, um "Very fat", não vai encontrar. Tudo é "Low fat". Passam o dia comendo esse Full-English-Gordura e depois, buscando redenção, só compram produtos com baixo colesterol.

E por falar em supermercado, esses produtos "Low fat" daqui deveriam vir com outro aviso: "Pouco/Quase nenhum sabor". Incrível como todos eles tem um horrível sabor parecido. Mesmo com litros de corantes e aromatizantes, continuam com um mesmo aspecto de papelão depois da chuva. Fatias de frango? Papelão molhado. Presunto? Papelão velho. O que dá mais raiva é que, na embalagem, abusam de adjetivos como "defumado", "grelhado" ou "saboroso". Aí você compra, abre o pacotinho e, primeiro, desencanta-se com a cor, que já dá a entender que o gosto é ruim. Depois você pensa "ok, talvez seja birra, melhor provar" - e aí você prova. Pfut. Papelão.

Tudo isso não seria tão irritante para o brasileiro, possuidor de um país cuja fartura de sabores é incomparável, se não fosse por uma única coisa: não existe maneira de se explicar para um inglês que a comida deles é tão ruim. Nunca viram feijões gostosos, frutas enormes e coloridas, temperos tropicais, tomates enormes e suculentos. É como tentar explicar o que é o azul para um cego de nascença. Quando você diz que uma das comidas típicas do dia-a-dia brasileiro é aquele arroz-feijão-fritas-salada com um belo bife, o inglês só entende o que são as batatas fritas. A comida que ele imagina é assim: feijão com gosto de ketchup, arroz empapado e salada de repolho picada (como as que se vê por aqui). Bife, bife mesmo, suculento, nem sei se existe por estas bandas. O mercado só vende carne de carneiro - que tem gosto de papelão sujo. Alguns açougues indianos ainda vendem boa carne de carneiro, até mesmo com cheiro bom.

Mas, em geral, o melhor negócio por aqui é entrar na fila dos vegetarianos. Triste sina para um glutão: conhecer tantas melancias, lasanhas, filés, pizzas mil, e agora viver entre tantos dissabores.

Algum estudante de sociologia gastronômica poderia até, talvez, estabelecer um paralelo entre a frieza inglesa e o gosto ruim de seu café da manhã versus o calor dos latino-americanos e suas refeições afrodisíacas. O que ninguém explica, entretanto, é como o povo inglês sobreviveu tanto tempo comendo tão mal. Nem por quê.