Postado em Nov 9, 2008

JORNALISMO E VIDEO GAME

A Superinteressante tem uma área dedicada a jogos, ligada diretamente às reportagens que realiza. Em outubro publicou uma capa chamada Ciência contra o Crime, e no site publicou um jogo onde você é o investigador.

O jogo é bem feito, sem grandes recursos multimídia, mas alguma interatividade estilo clique-aqui e clique-ali que leva a descobrir as pistas. Montou junto um eficiente fórum de discussão, onde os leitores compartilham as pistas e as conclusões.

Trabalho muito bem feito para o que se propõe, realizado por uma equipe de várias pessoas:

História: André Sirangelo, Leandro Narloch, Tarso Araújo / Roteiro: André Sirangelo / Design: Fabiane Zambon, Júlia Blumenschein, Julia Cabral, Marco Moreira / Programação: CPC Informática / Fotos: Dulla, Marco Moreira / Efeitos especiais: Kapel Furman / Produção: Claudia Campos Ator: Rui Longo / Agradecimentos: Daniel Schneider, Fabricio Leotti, Julio Ponce, Leandro Cavalcante, Nina Weingrill, Pedro Barrera

Newsgames estão se tornando cada vez mais comuns, e cada vez melhores. Se jornalismo continua sendo uma maneira de contar histórias, em tempos de interatividade, os videogames têm muito a ensinar sobre isso. As novas narrativas talvez passem justamente por aí.

Fica uma questão: Um newsgame com as evidências reais de um crime, como o caso Nardoni, por exemplo, seria melhor que uma reportagem para fazer entender as conclusões que condenaram o casal? As evidências são públicas? A defesa dos advogados poderia ser ouvida, como se fôssemos os jurados?

É mais fácil, por enquanto, realizar jogos de ficção, mas certamente veremos jogos mais realistas em breve. O que levará a novos patamares as discussões de objetividade e de ética no jornalismo.

PS: Recebi essa dica de um estudante da USP, durante uma palestra que fui dar por lá a convite do Rodrigo Savazoni e do Eugênio Bucci.

Postado em Nov 4, 2008

DISCUSSÃO COM GARAPA

Os amigos do Garapa.org, grupo independente de jornalismo multimídia, produzem, entre outras coisas, vídeos que vão ao ar na MTV Pública. São vinhetinhas de 1 minuto pra fazer pensar. Esse vídeo acima surgiu quando eles viram um anúncio em inglês da Diesel no jornal, o que contraria normas do Código do Consumidor. Gerou essa boa discussão nos comments deles lá, que republico abaixo:

E qual o problema? se cada um tem sua própria relação de poder aquisitivo? se uma pessoa que ganha apenas 1 sal. não teria condições de comprar uma calça de 600 reais, e se alguém que ganha 20 vezes mais (ou vem mais) pode?
e se a pessoa, mesmo não ganhando tudo isso, quiser comprar?

Qual o problema? Cada um gasta da maneira que quiser, certo? E se a campanha está em inglês? qual o problema, se o público dirigido é específico? Acho pior, taaanto pior, essa forma de convencimento ao consumismo VELADO utilizado pela própria emissora em questão (MTV) Porque não falam disso? celulares, bonequinhos, quitutes, venda de estilos, e rigor de comportamento, para crianças que absorvem de tudo? Ora, ora…

e a resposta do autor:

O problema, ao meu ver, é claro. Enquanto criarmos a glamourização exacerbada de qualquer bem de consumo se sobrepondo a melhoria de condições básicas para um coletivo inteiro, estamos sim criando um grupo de marginalizados. Essa marginalização, aliada ao poder de persuasão da publicidade, criam os desejos de consumo em quem tem e também em quem não tem – o que vc mesmo citou: poder aquisitivo. Assim, querendo mas não tendo, rouba-se.

Não me lembro de qual sociólogo é a frase, mas parece que já saiu até em sorte do orkut: A sociedade prepara o crime, o criminoso apenas o pratica.

Quanto a publicidade em inglês, você foi categórico, ela é excludente. Excluir, ao invés de incluir é uma política de valorização capital. Quanto mais se reduz o grupo de consumo, mais algo se valoriza monetariamente – é o princípio de oferta e procura que regulamente mercados há anos. Mercados estes que estão quebrando, como podes ver em outro especial recém adicionado por nós.

Mas mais importante que a crise na bolsa é a crise moral que leva alguém a defender que o preço de uma peça de roupa é apenas uma etiqueta, um valor… ele é mais do que isso, meu caro Fabio, é a síntese de nossa sociedade criando seus próprios algozes – pensando antes em excluir do que em incluir – empurrar do que abraçar.

São escolhas, e como todas elas, têm suas consequências.
Cabe apenas lembrá-las no meio da Rebouças com um 38 encostado na nuca.

obs: e não esqueça também de que a maioria desses oásis de consumo exclusivos são produzidos em países sem leis trabalhistas definidas, onde uma criança é responsável pelo lindo adorno dos teus tênis.

Postado em Nov 3, 2008

50 PESSOAS, UMA QUESTÃO


Fifty People, One Question: New Orleans from Benjamin Reece on Vimeo.

O que você gostaria que acontecesse até o final do dia?

Grande exemplo de video-jornalismo para a internet. Ou para a TV.

De jornalismo, afinal. Ou poesia.

Postado em Nov 3, 2008

JORNALISMO E ENTRETENIMENTO

Depois do newsgame, ou infografia, ou quiz, inventado pelo USAToday, no ano passado, para as eleições dos EUA, vários outros portais e sites fizeram coisas semelhantes, em que o usuário diz o que pensa e o site apresenta o candidato com o pensamento mais similar ao dele.

Aí, recentemente, o G1 colocou no ar este quiz, bem parecido com os newsgames criados anteriormente, mas com uma diferença irritante: é completamente inútil.

Está alocado dentro de notícias/mundo, dando a entender que houve alguma pesquisa, que tem algum conteúdo jornalístico, apuração, etc. Entre perguntas sérias, como sobre a guerra do Iraque (algo como a favor ou contra), misturam-se “você preferia viajar para qual desses Estados (Illinois/Alabama)”; “você teria (ou tem) animais de estimação em casa?”e outras pertinentes questões que vão levá-lo a descobrir qual candidato norte-americano é mais parecido com você.

A interatividade ainda será bastante discutida (espero) em relação ao contrabando de entretenimento que ela permite inserir no jornalismo. Para não falar no contrabando de publicidade.

Postado em Nov 2, 2008

PROJETO PUBLICO.ORG

Aí está. Essa turma extremamente qualificada que eu tenho orgulho de freqüentar colocou o projeto Publico.Org entre as propostas para financiamento do Knights News Challenge, da Knight Foundation. O Publico.org é nossa aposta num modelo justo e inovador para produzir jornalismo cidadão.

Quem puder, cadastre-se lá no site e vote no projeto. O financiamento não está diretamente relacionado aos votos, mas assim ele ganha visibilidade.

Abaixo, a descrição que enviamos ao Knight Challenge:

Describe your project:
Publico.org é uma experiência jornalística de protagonismo jovem na periferia de São Paulo.

O projeto consiste em uma plataforma de publicação de conteúdos distribuída que vincula o processo do newsmaking aos princípios da economia solidária, constituindo-se como uma rede social de produção de informação de interesse público articulando estudantes, profissionais, blogueiros e ativistas da sociedade civil organizada.

O objetivo principal é construir, por meio da participação dos integrantes da rede social, uma abordagem dos principais problemas da periferia de São Paulo a partir da visão de seus cidadãos, com foco explícito nas dinâmicas que tocam os indivíduos no cotidiano.

O processo de produção da notícia do Publico.org considera dois aspectos como primordiais: a) o acesso e uso de uma plataforma tecnológica de publicação de conteúdos; b) a quantificação e qualificação de bens informacionais para buscar formas diferenciadas de valoração e recompensa dos processos produtivos.

Editorialmente, o Publico.org buscara se concentrar em assuntos concretos e objetivos, que geram mobilização e necessitam de respostas práticas dos poderes públicos.

Para realizar seus objetivos, o Publico.org pretende agir em comunidades geográficas excluídas do mapa informacional brasileiro por meio de estímulos à produção de informação nessas comunidades (a partir da associação com ONGs e grupos sociais que já executam trabalhos de conscientização midiática nesses locais), mas também oferecendo um conjunto de informações (porque produzidas por esses atores) que tratem dos temas a partir da perspectiva desses cidadãos que no início do século 21 ainda vivem em situações de pobreza incompatíveis com o nível de desenvolvimento planetário.

How will your project improve the way news and information are delivered to geographic communities?
Centro financeiro do Brasil, São Paulo é um exemplo da concentração de propriedade na mídia brasileira. As regiões periféricas nunca tiveram veículos de grande inserção, muito embora tenham um histórico de trabalhos alternativos voltados para as questões da comunidade. Neste momento, dois processos precisam ser levados em consideração: a constituição de uma rede de rádios comunitárias, com outorga do Ministério das Comunicações, e a conformação de uma rede de lan-houses (centros pagos de acesso coletivo à internet) e projetos de inclusão digital, que são redações jornalísticas em potencial.

O Publico.org pretende promover a publicação de conteúdos pelos moradores da periferia paulistana, bem como construir uma mecânica replicável e sustentável para a produção de informação em pequenos grupos e comunidades articuladas e descentralizadas que venha a inverter a lógica atual da produção jornalística centrada nas grandes empresas de comunicação.

Para atingir o público excluído digitalmente, cujo acesso à rede mundial de computadores é inexistente ou restrito, o projeto vai estimular a distribuição dos conteúdos por meios de outras plataformas, como rádios comunitárias, jornais murais, rádios poste, entre outros sistemas alternativos, aproveitando a malha de informação já existente.

How is your idea innovative? (new or different from what already exists)
O projeto Publico.org tem como objetivo tecnológico construir um software de publicação de informação colaborativa, a partir de experiências livres já existentes, cujo diferencial será o módulo Moitará – nome dado à troca de produtos realizada no Kuarup, festa indígena em homenagem aos mortos que ocorre no Parque do Xingu, na Amazônia – que associa ao processo de newsmaking os princípios da economia solidária. Isto é, que permite a materialização online de formas alternativas de valoração e recompensa dos processos produtivos que não apenas o monetário.

Esse modelo, que funciona com razoável sucesso na produção de bens tangíveis torna-se mais complexo quando o trazemos para a cena dos bens imateriais, sobretudo numa conjuntura de fim da escassez artificial. A proposta é construir uma plataforma inteligente que permita quantificar e qualificar esses bens através de mecanismos como mediação social, permitindo a identificação e atribuição de valor aos mesmos pela própria comunidade.

O Moitará funciona como um “Quantificador da Dádiva” e será desenvolvido como parte de CMS de publicação de notícias para pequenas comunidades, mas também como uma interface modular e uma API pública que permita sua inclusão em outros sistemas de produção e distribuição de notícias. O sistema também permitirá a construção de uma rede de atores associados que irão desempenhar diferentes papéis na dinâmica da troca de bens e serviços entre os membros da rede.

What experience do you or your organization have to successfully develop this project?
Nossa organização é composta por profissionais de comunicação e mídias sociais que estão à frente de várias experiências de sucesso na mídia eletrônica brasileira. A força desse grupo reside na multiplicidade de expertises e capacidade de realização profissional já comprovadas em suas trajetórias pessoais.

São eles: Rodrigo Savazoni (Editor de Novos Produtos na área de Conteúdo Digital de O Estado de S. Paulo e ex-Editor Chefe da agência pública de notícias Agência Brasil), André Deak (Editor Multimídia da Agência Brasil e Coordenador de Comunicação da CPFL Cultura), Pedro Markun (Editor do Jornal de Debates e Consultor em Mídias Sociais), Paulo Fehlauer (Criador do Coletivo Multimídia Garapa.org, que realiza trabalhos para a Folha de S. Paulo e MTV), Ceila Santos (Coordenadora do NewsCamp e criadora da rede social Desabafo de Mãe), Carla Schwingel (PhD in Cyberjournalism – UFBA, especialista em desenvolvimento de plataformas web para a produção de jornalismo), Francesco Cardi (experiência internacional em desenvolvimento de projetos).

Postado em Nov 1, 2008

BOUNCE RATE

Bounce rate é o termo de análise de tráfego em site que significa a taxa (em %) de pessoas que foram embora do site antes mesmo de terminar de carregar a primeira página. Os sites que conheço – e este, inclusive – têm bounce rates entre 50 e 70%. Ou seja: a maioria dos visitantes vai embora antes de carregar a primeira página.

O especialista em análise do Google Avinash Kaushik diz:

“É realmente difícil ter uma taxa de rejeição (a tradução de bounce rate por taxa de rejeição é minha, ok?) menor que 20%, qualquer coisa maior que 35% é bom prestar atenção, e 50% (ou mais) é preocupante.”

No caso de páginas de notícias, onde o sujeito encontra o quer talvez nos primeiros segundos e vai embora antes da página toda carregar, talvez  essa taxa cause distorções. Também nos casos em que a pessoa coloca o site como página inicial. Mas no geral é um dado significativo.

Este post surge de uma conversa breve que tive com o Pedro Markun: os sites vivem anunciando que têm não-sei-quantos milhares de pageviews, ou de usuários únicos, mas suspeito que com uma taxa de rejeição grande, caia pela metade esse valor.

Sei lá porque entrei nisso de falar de bounce rate.

Postado em Oct 30, 2008

GREVE DE JORNALISTAS NA EBC

[UPDATE] Greve suspensa após prorrogação do acordo coletivo

Acabo de conversar com um dos jornalistas em greve da Empresa Brasil de Comunicação. Parece que hoje (30) os funcionários poderão decidir negociar com a empresa separadamente o acordo coletivo de final de ano, que garante o reajuste inflacionário e alguns ganhos salariais, e o plano de cargos e salários, que serve para determinar, entre outras coisas, critérios para as promoções e descrição de atividades, inclusive dos jornalistas multimídia.

Os jornalistas decidiram a greve porque não tiveram nenhum retorno positivo da empresa. Dizem que ontem, por volta das 22h, a empresa publicou, na intranet, um plano de cargos e salários que deveria balizar as promoções e as tarefas dos funcionários nos próximos anos. Mas queria aprovar isso junto com as discussões salariais, que precisam ser definidas até amanhã (31). “Apresentaram hoje [o plano], temos três dias para negociar isso [dois, na verdade], um plano que vai durar anos. Esse plano precisa ser discutido por uma comissão dos empregados, uma comissão da empresa, outra da Fenaj, não dá pra discutir em três dias. Apresentaram ontem de noite, às 10 da noite. Havia uma promessa da Tereza [Cruvinel, presidente da EBC] de discutir o plano. Mas isso não vai acontecer”.

Segundo o jornalista, essa primeira greve em décadas acabou saindo por vários motivos e não é controlada pelos sindicatos dos radialistas e dos jornalistas. Ambos sindicatos fizeram discursos para terminar com a greve, do alto do caminhão de som, e tomaram vaias dos funcionários.

“Juntou tudo – a raiva do multimídia [sobreposição de tarefas, como gravar para o rádio e escrever para a agência online ao mesmo tempo, sem ganhar adicional por isso], a raiva da presidência ter dado aumento para os temporários [a medida provisória que criou a EBC permitiu contratar funcionários sem concurso por um prazo de dois anos. Os novos contratados ganham cerca de R$ 5 mil para realizar as mesmas tarefas que os funcionários antigos fazem, mas ganhando pouco mais de R$ 2 mil], e raiva da falta de critérios editoriais.”

O resultado da greve teve pouco impacto na TV Brasil, que funciona principalmente na estrutura do Rio de Janeiro. Dizem que a Rádio Nacional veiculou quase apenas música e que os estagiários da Agência Brasil estão trabalhando mais que nunca, no lugar dos grevistas. Matérias de gaveta foram ao ar no programa A Voz do Brasil e na Agência Brasil, que publicou uma nota informando que a programação da EBC está normal, apesar da paralisação.

“A Rádio Nacional está tocando música o dia inteiro. A Voz do Brasil foi apresentada por um dos chefes da empresa, só com matéria de gaveta. A TV Brasil não parou, porque a operação está no Rio. E como a maioria dos funcionários é de temporários, há o medo de entrar em greve e ser demitido.”

Mais notícias no decorrer do período.

Deu nos blogs:
Noblat – Greve na EBC é abafada, mas ameaça continuar
Jamildo – TV Lula faz sua primeira greve

Postado em Oct 24, 2008

CONVITE

“Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão” – Artigo XIX

Na próxima segunda-feira, dia 27 de outubro, duas premiações especiais acontecerão no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o TUCA: a entrega do 30º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e do Troféu Especial de Imprensa ONU/60 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos/Prêmios Vladimir Herzog. As cerimônias acontecem a partir das 19 horas, no auditório do teatro.

(na foto: Ivo Herzog e o criador do Troféu Especial, Elifas Andreato, com o “Vlado Vitorioso” nas mãos)

O Troféu Especial será entregue a cinco jornalistas que foram escolhidos entre os ganhadores das 29 edições do Vladimir Herzog. Seus nomes – Caco Barcellos, Henfil (in memoriam), José Hamilton Ribeiro, Ricardo Kotscho e Zuenir Ventura – foram divulgados no dia 7 de outubro, numa pequena cerimônia realizada no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Na ocasião, Ivan de Souza receberá a homenagem (in memoriam) pelo pai, o cartunista Henfil.

O prêmio é uma iniciativa do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC-Rio) e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH). Do total de 553 jornalistas que já ganharam o Prêmio Vladimir Herzog, 437 foram localizados e 326 votaram em até cinco jornalistas de sua livre escolha. No resultado da votação, 365 comunicadores receberam pelo menos um voto.

TUCA
Rua Monte Alegre 1024
Perdizes
São Paulo, SP

PS: Vamos estar lá eu, Rodrigo Savazoni, Aloisio Milani, Juliana Nunes, Jefferson e Andre do Catarse e mais uma penca de gente para receber o prêmio Herzog na categoria internet, pelo documentário interativo Nação Palmares. Depois vai ter bebemoração, certamente. Apareça.

Saiba Mais: OBORÉ – Projetos Especiais em Comunicações e Artes.

Postado em Oct 21, 2008

JORNALISMO MULTIMÍDIA, ONLINE, 2.0, JORNALISMO DIGITAL ETC

Professores, alunos e jornalistas espalhados pelas redações ainda estão longe de um consenso sobre o jornalismo multimídia, a começar pela definição do termo. Percebi isso mais claramente em Brasília, quando participei do II Encontro de Professores de Jornalismo DF-GO-TO, mas isso acontece sempre que presencio ou participo de uma discussão sobre o tema. Vale a pena destrinchar um pouco o assunto, a começar dizendo do que não se trata o jornalismo multimídia.

Em primeiro lugar cabe dizer que jornalismo multimídia não é sinônimo daquele modelo de jornalista-faz-tudo, homem-orquestra, backpack-journalist e outros nomes que são usados para definir o jornalista que realiza uma reportagem e tira fotos, filma, grava o áudio, escreve o texto e ainda produz um blog e um podcast com o que não foi usado – e faz três pautas por dia. Substituir uma equipe por um único jornalista não dá certo. Isso já foi testado em vários países e já foi abandonado. Há pelo menos um par de anos essa discussão está extinta: esse modelo não funciona, não será usado, produz jornalismo de má qualidade, superficial, descontextualizado. No Brasil, há quem ainda aposte nesse sistema, mas apenas por uma das duas razões abaixo:

1. cegueira;
2. faz questão de produzir jornalismo de má qualidade, superficial e descontextualizado.

Jornalismo multimídia também não é necessariamente sinônimo de jornalismo em tempo real. Muitos jornalistas, novos e velhos, professores e estudantes, ainda têm a mania de utilizar o termo como sinônimo, ou em frases como “o jornalismo multimídia nunca terá crédito porque prefere a velocidade do que a qualidade”. Aliás, o jornalismo em tempo real nem começou com a internet, mas com o rádio – e também muita gente usa “jornalismo em tempo real” para se referir unicamente à internet. Mas esse é outro problema.

Jornalismo multimídia também não é sinônimo de exploração. Pode ser, mas não necessariamente é. Não dá para ser contra o jornalismo multimídia, pura e simplesmente. Fazer isso seria o mesmo que, há alguns anos, ser contra o computador. O jornalismo feito e distribuído para várias plataformas ao mesmo tempo (várias mídias) chegou para ficar, não adianta espernear. A briga precisa ser sobre COMO será feito esse tipo de jornalismo, e não SE ele será feito.

Ninguém será obrigado a trabalhar para todas as mídias, a saber produzir e editar para TV e rádio e também escrever um texto para o jornal impresso (ou pelo menos não deveria, mas sei de lugares que estão obrigando. Mas esse também é outro problema). As pessoas seguirão tendo capacidades específicas, sempre haverá o especialista em suas áreas. Mas, a partir de agora, cada vez mais haverá gente, dentro e fora das redações, capacitada para fazer um pouco de tudo isso.

O que assusta os sindicatos e jornalistas é que se um repórter é capaz de tirar um foto, o patrão o obrigará a fazer isso e demitirá o fotógrafo. Isso pode, é claro, acontecer. Mas vejamos:

1. Se o fotógrafo é incapaz de tirar uma foto melhor do que um repórter que não é fotógrafo (ou um cidadão comum), talvez realmente ele não seja necessário;

2. Se o fotógrafo for bom e mesmo assim o dono do veículo optar por colocar uma foto amadora para economizar, perderá qualidade. Se qualidade não faz diferença para o consumidor, então realmente estamos perdidos e o problema é bem maior

3. Seja lá como for a qualidade do fotógrafo, ele poderá aprender a filmar, por exemplo, e encontrar outros espaços na redação multimídia.

Esses quadros são todos reais e exemplos do que já acontecem nas redações por aí.

Mas afinal, um jornalista multimídia, portanto, seria o quê? Se é capaz de trabalhar com mais de uma mídia, me parece que já podemos considerar esse jornalista de um profissional multimídia. O nível de qualidade técnica em cada mídia – e na integração delas – será definido de acordo com quem usa o termo. Para alguns, pode ser simplesmente quem trabalha com rádio e texto para impresso. Para outros, pode ser o cara que sabe usar flash, HTML, entende de vídeo, edita no Audacity, filma e tem um blog. Mas há um vasto campo cinza entre os dois casos, e todos eles poderiam ser chamados de jornalistas multimídia.

As definições são várias, mas talvez valha a pena esse esboço, abaixo, para tentar arregimentar umas tipologias. Quem puder dar algum auxílio para melhorar essas definições, por favor se manifeste.

Jornalismo multimídia: se utiliza mais de uma mídia (vídeo, áudio, texto, foto), é multimídia. Multi (várias) + Mídia. Vale ver a definição da palavra multimídia na Wikipedia

Jornalismo online: é o jornalismo feito na internet, em rede, mas o Meira da Rocha tem várias boas definições acadêmicas.

Jornalismo digital: qualquer jornalismo que não utilize mais meios analógicos é jornalismo digital, seja vídeo, áudio ou texto

Jornalismo 2.0: o termo 2.0 surgiu associado à web 2.0, com vários significados, mas que acabou virando mais ou menos sinônimo de “jornalismo de redes sociais”. Jornalismo 2.0 pode ser associado portanto ao jornalismo que utiliza essas redes de alguma maneira, normalmente de modo colaborativo

Jornalismo colaborativo (ou participativo): veja acima e abaixo.

Jornalismo cidadão (citizen journalism): jornalismo produzido por pessoas que não são jornalistas profissionais, que não trabalham com isso no dia-a-dia. Associado ao jornalismo colaborativo ou participativo. Veja a definição da Wikipedia

Jornalismo cívico (civic journalism, ou public journalism às vezes): O jornalismo cívico é um jornalismo engajado com a comunidade, que tenta transformar o veículo num fórum de discussão daquele grupo. Tem parentesco próximo com o jornalismo comunitário. Veja a definição da Wikipedia

Jornalismo comunitário: jornalismo feito para a comunidade, pela comunidade. Há quem diga que é um, há quem diga que é o outro, e quem sustente que se não for os dois juntos não é. Veja a definição da Wikipedia

Postado em Oct 16, 2008

NAÇÃO PALMARES LEVA O VLADIMIR HERZOG

 

Parabéns para todo mundo!

Essa é a equipe que realizou o Nação Palmares, documentário interativo que ganhou o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos na categoria internet. Trabalho árduo, esforço de integração de mídias, experimentações tecnológicas. Maior orgulho. Resultado não só do trabalho do pessoal aí embaixo, mas de todo mundo que trabalhou em nome do jornalismo público na Radiobrás.

André Deak
Juliana Nunes
Rodrigo Savazoni
Spensy Pimentel
André de Oliveira
Jefferson Pinheiro
Fausto José
Yasodara Cordova
Mario Marco
Robson Moura
Valter Campanato
Wilson Dias
José Cruz
Marcello Casal Jr.

MAIS:
Aqui, o link para o documentário interativo, na Agência Brasil
E aqui o making of, num post que escrevi no ano passado
E o belo texto A Genealogia do Nação Palmares, do Savazoni, que conta o início, o fim e o meio do processo