Postado em Jul 15, 2008

ENTREVISTA: DANIEL FLORÊNCIO

Daniel Florêncio é mineiro, mora em Londres, filmmaker, documentarista, promo videomaker, music videomaker, faz animações, shows para TV, filmes para celular, experimentações com novas mídias e, nas horas vagas, denuncia a censura no Brasil.

Nas últimas semanas, foi alvo de críticas do governo mineiro por conta de sua vídeo reportagem Gagged in Brazil (Censurado no Brasil, numa tradução livre), que circulou o mundo primeiro pela Current TV, depois por toda a internet. O vídeo gerou fortes reações do governo de Aécio Neves e vídeos-resposta no YouTube, assinados pela Juventude PSDB-MG. O assunto rendeu ainda réplica do autor, tréplica da superintendência de imprensa de Minas Gerais e deve seguir quente.

Abaixo, a entrevista respondida por e-mail pelo Daniel:

Como você foi parar no mundo de filmes, documentários, vídeos pra celular…? Como virou produtor independente?
Então… Sou formado em Rádio e Televisão pela UFMG. No Brasil sempre trabalhei com TV, filmes publicitários, videoclipes, e quando vim pra Londres pra fazer meu Mestrado em Art and Media Practice, eu ia desenvolver um filme experimental com telefones celulares / webcam. Ia ser uma coisa brincando com os meios que acabou não acontecendo. Acabei desenvolvendo um projeto de um documentário que tinha a ver com o que estava se passando comigo quando mudei pra cá, tinha migrado para o Reino Unido, virei um imigrante, e esse projeto para o Mestrado culminou no “A Brazilian Immigrant”, que rodou os festivais por aqui, foi pra Raindance, etc e tal.. Foi assim que entrei no mundo dos documentários. Virei produtor independente tambem de uma hora pra outra. Estava terminando de editar uma producao pra BBC, o desenho “The Secret Show” e me ligaram da Current TV em Sao Francisco perguntando se eu não queria produzir conteúdo pra eles pro lançamento do canal no Reino Unido. Eu ia escolher os temas e os desenvolver em conjunto com um Commissioning Editor do canal. A liberdade que eles me deram era tamanha que acabei experimentando produzir com celular alguns dos pods que fiz para eles. O proprio “Gagged” tem imagens feitas com celular…

Você diz no seu site que continua produzindo para a Current TV. Como é essa relação?
Na verdade o site esta um pouco desatualizado… O último filme que produzi para a Current TV foi o “Young, British, Illegal”, sobre um inglês que mora ilegalmente no Brasil, que produzi na mesma época do “Gagged in Brazil”. Depois me ocupei com outros projetos e acabei nao produzindo mais nada… Mas minha relação com eles é bem bacana. Estou sempre em contato com a equipe de Londres e de São Francisco e fiz bons amigos lá dentro. Alguns ainda trabalham lá e outros estão envolvidos em outros projetos.

Você foi premiado com o Bronze Telly Awards 08 pelo vídeo The Battle for Rio. Conta um pouco disso.
Foi bem bacana e eu nem sabia que eu estava concorrendo. Certo dia chego no trabalho e recebo um email da minha Commissioning Editor da Current TV, a Lina Prestwood, me dando os parabéns pelo prêmio. A equipe da Current havia selecionado algumas peças produzidas pra eles e as inscreveram no prêmio por conta própria. Por sorte, a minha acabou sendo premiada.

Você esteve na FilMobile conference, encontrou muita gente que discute produção audiovisual pelo celular… Como anda esse mercado e quais as perspectivas? O futuro é um celular na mão e uma idéia na cabeça?
Estive envolvido com o FilMobile desde a primeira conferência. Max Schleser, o organizador do evento, era meu colega de mestrado com quem eu sempre conversava sobre o assunto. Ele acabou indo fazer um PHD sobre o assunto enquanto eu produzia meus filmes com câmeras de celular. Estou envolvido com ele e um outro amigo em outro projeto de mídias móveis. Nao sei se o futuro é um celular na mão e uma idéia na cabeca, mas certamente o fato de termos em nossas mãos uma mídia que é ao mesmo tempo produtora e receptora de conteudo está provocando mudanças em como nos relacionamos com o espaço físico e com o que acontece ao noso redor, bem como modificando as relações entre emissor/receptor que vemos na midia tradicional. É uma mídia revolucionária.

Bom, falemos do incômodo que causou ao governo mineiro… Como foi a produção do Gagged in Brazil? Ele foi produzido pensando na Current TV ou foi parar lá depois?
O filme foi produzido PARA a Current TV. Ele era um dos filmes que eu deveria produzir dentro do “pacote” do meu último contrato com eles. Por meses o enfoque e a linha do filme foi discutido com a Lina Prestwood, pois, apesar de o tema mídia ser do interesse do canal, eles pensavam: “porque diabos o público da Current iria querer saber sobre Aecio Neves, o governador de um estado brasileiro?”. Daí tivemos que sair um pouco de exemplos muito pontuais e partir pra um quadro mais geral da coisa. Uma perspectiva mais internacional, a relevância da TV Globo e o fato de que Aecio é cotado para ser candidato a presidente do Brasil em 2010.

Depois da coleta de material, entrevistas, pesquisa, etc, o filme ainda demorou bastante tempo pra ser montado, pois com todo o material que eu tinha foi dificil estruturar tudo dentro dos 7 minutos que o canal tinha me disponibilizado. O filme ia e voltava da Current, com sugestões da Lina e modificações do editor. Muito foi deixado de fora, e mesmo assim, o filme acabou ficando com 8 minutos. Depois disso o filme ainda demorou bastante tempo pra passar pelo departamento jurídico, pois dada a sensibilidade do tema, o canal queria ter certeza de que não haviam brechas legais para um processo ou algo do tipo.

Teu post “Mercenário” é uma boa resposta ou quer acrescentar algo?
Uma resposta oficial aos vídeos deles foi publicada no Observatório da Imprensa da semana passada, e a minha tréplica à réplica da Superintendencia de Imprensa do Governo de Minas vai sair lá essa semana.

Cinema, TV, celular ou web?
Todos. Mas um de cada vez.

Postado em Jul 9, 2008

O “ARREVISTAMENTO” DOS JORNAIS

Eugênio Esber, diretor de redação da revista Amanhã, que trata de economia, gestão e negócios, esteve no seminário promovido pela Associação dos Diários do Interior do RS para apontar alguns caminhos a esses jornais. Causou alguns calafrios com suas idéias sobre como deverão evoluir esses diários para não desaparecerem. Abaixo, alguns pontos que ele levantou:

Não é possível que os jornais dêem apenas “pílulas” de notícias – releases, matérias que não agreguem inteligência ao assunto. O jornal não pode dar tudo, nem de tudo um pouquinho. Para que gastar papel com isso? Já está tudo na internet.

N.E.: Lá eu soube que o preço da tonelada de papel subiu, no último ano, de US$ 600 para US$ 900.

Esber diz que os jornalistas não podem ter medo de se fazer algumas perguntas. E ele faz:

Será que precisamos imprimir jornais todos os dias? Sábado e domingo, por exemplo? Se o jornal vai ser mais analítico, precisa ter ênfase na reportagem. Matérias curtas, com uma fonte só, geralmente oficial, ou releases, isso tudo está na internet. No jornal de 2011 não vejo nenhum release.

Ele chama isso de “arrevistamento” dos jornais. Ou seja, os jornais irão tomar o espaço das revistas. Na visão dele, os jornais têm um problema nas mãos com o desenvolvimento das notícias rápidas da rede em várias plataformas. Mas as revistas têm outro, muito mais complicado.

Postado em Jul 7, 2008

ENTREVISTA: DANIELA RAMOS – PARTE 2

Leia a segunda parte da entrevista concedida pela professora Daniela Ramos, pesquisadora de ciberjornalismo:

Todos falam em novos modelos de financiamento. O conteúdo fechado, pago, já é coisa do século passado? Quais modelos interessantes você conhece?

Modelo interessante e que funciona hoje (e que pode não funcionar amanhã) pode o da Prisacom: vender serviços digitais – ringtones, por exemplo. Ninguém paga mais por notícia (estas de última hora), isso é certo. Talvez pague-se por informação exclusiva e especializadada (como na área econômica), mas isso é outra coisa – são informações produzidas com mais tempo, profundidade e exclusividade, para quem pague por isso.

Outra coisa que parece interessante é cobrar micro quantias, como no na Coréia do Sul: R$ 0,05 para que seu avatar seja X e não Y, R$ 0,04 para adicionar uma música exclusiva e assim por diante… Aquele portal famoso que integra todo mundo na Coréia do Sul funciona assim, CyWorld. Este parece um modelo sustentável. Outra coisa também que é na Coréia quase não existe mais indústria fonográfica, as pessoas pagam por música digital. Sim, elas pagam por isso! Não são só as empresas de comunicação que estão crise, convém lembrar, mas todas implicadas na circulação de bens culturais imateriais.

Não é minha especialidade modelos de negócio, mas o que vejo também é que todo mundo pensa que vai ganhar dinheiro tranportando um modelo de negócio de um meio para outro, e isso absolutamente não funciona – jornal em papel ainda vende, jornal na internet não. E não necessariamente a internet vai ser um meio de ganhar dinheiro com jornalismo…

A quantas anda o ensino de jornalismo e novas tecnologias? Primeiro muda a cultura do leitor, depois mudam as redações, e por fim as universidades, ou a ordem das mudanças é outra?

Parece ser esta a ordem, sim, mas ouso dizer que dentro da universidade ainda temos a liberdade de pensar e experimentar online antes das redações, que ainda são muito caretas e limitadas em termos de repensar a relação com a audiência. Mas o fato é que enquanto TV e Rádio nas Universidades tem estúdios e técnicos para o desenvolvimento de trabalho prático, os cursos de Online não têm. Parece que o professor precisa ser desde programador de Action Script e outras linguagens, designer, flasheiro, desenvolvedor, técnido de internet e…jornalista! Ou seja, é impossível ensinar Ciberjornalismo sem ter laboratórios adequados (que poucas Universiades ou Faculdades têm), com wi-fi ou sem internet na sala de aula e em laboratórios equipados todos com data show.

É preciso ter pelo menos um técnico programador/flasheiro para ajudar a desenvolver projetos mais interativos com os alunos, em conjunto com a orientação do professor.

Outra coisa é a produção que deveria envolver Rádio, TV e internet: poucos professores destas áreas se dispõem a tentar desenvolver algum projeto em conjunto. Cito a professora e jornalista Regina Soler, da área de Tele, da Faculdade Cásper Líbero, que tem uma visão pioneira no desenvolvimento de linguagem audiovisual para celular e internet como uma parceira; a professora Egle Spinelli, da Universidade Anhembi Morumbi, que também tenta integrar e fazer esta ponte. Mas na área de Rádio ainda não encontrei nenhum professor disposto a fazer algo em conjunto entre disciplinas, por exemplo. É muito difiícil pensar e ensinar jornalismo na internet como algo separado de todo o resto do curso! E essa é a visão que acaba predominando, infelizmente, entre professores e alunos.

Uma disciplina de online em um curso de 4 anos não dá conta. Ficamos parecendo baratas tontas – toda semana falamos de um assunto que aparentemente é “desconectado” de todo o resto (mas que no fundo têm relação com a rede). Essa é a principal crítica dos alunos da Cásper Líbero: o curso de Novas Tecnologias parece não ter uma “unidade temática”, porque tentamos dar conta de muitas áreas: planejamento e manutenção de sites, métrica, cultura digital, jornalismo participativo, weblogs, aula prática, linguagem multimídia, convergência, produção para celular… Precisamos ter uma disciplina a mais no currículo da área digital para focar mais e definir melhor áreas de interesse. Queremos dar conta de tudo que vemos, ouvimos, acompanhamos, estudamos, só que nós que trabalhamos e pesquisamos a área somos geeks malucos que acham que tudo está interconectado, acreditamos nisso, mas não é essa a visão/experiência que todos têm. Além disso é preciso integrar mais a prática com a teoria, pelo menos onde dou aula, na Cásper Líbero, isso é fundamental.

Qual o perfil do novo jornalista? Quem sai da universidade precisa saber o quê?

Fundamental é o novo jornalista não ter medo do seu público, como atualmemente parece que os jornalistas têm. O público comentou, criou blogs, fez fotos e …. que medo!!! Vamos perder a profissão! Só nós que cursamos Jornalismo podemos fazer fotos, escrever e noticiar?! Isso não é verdade. Precisamos conhecer e tratar o público como aliado e não como inimigo.

É claro que na próxima tragédia por negligência e descaso público no Brasil o passante que estiver com o celular vai fotografar o próximo acidente na construção do metrô, a próxima arquibancada que desaba na cabeça de torcedores, e assim por diante. O público sempre vai chegar antes do jornalista, mas o jornalista precisa ir e apurar – em pronfundidade! Dar repostas, fazer relações entre fatos, pensar.

Quem sai da Universidade precisa saber relacionar fatos, estabelecer conexões, pensar em profundidade. Em abril deste ano assisti a uma palestra do Professor José Luis Orihuela, do blog e-Cuaderno, no III Congreso Internacional de Ciberperiodismo – Madrid. Veja o que ele fala sobre isso, é bem interessante, ele fala em “competências do jornalista na era digital”:

Buscar, selecionar e misturar, otimizar e produzir informações novas, em áudio, vídeo, foto e texto, e de forma integrada;

Desenhar: saber explicar visualmente a organização da informação, bem como a arquitetura de um meio digital para distintas audiências e plataformas;

Expor e argumentar em público sobre suas idéias;

Refinar a informação, e aqui está um diferencial, pois este ponto determinará o valor da informação, e se as pessoas vão pagar por ela ou não;

Representar a informação de forma visual, pois é a forma mais eficaz de comunicação de nossas idéias com outras áreas de conhecimento, como programação e design;

Aprender a cooperar, pois o que acontece hoje é somente uma simulação. “Mande-nos” fotos, SMS… mas como se gestiona eficazmente a colaboração?

Mudar sempre, redefinir e repensar nossa identidade profissional muitas vezes na vida;

Empreender, pois o horizonte do estudante era conseguir um emprego, e agora há muito mais empreendedorismo do que antes; levar a sério a formação empresarial da nossa profissão;

Inovar, e passar sempre do discurso para a ação.

Competências essenciais:

Ler, no sentido amplo. Aprender a decodificar a informação a partir de ligações e links;

Pensar de forma nova os novos paradigmas;

Escrever, no sentido amplo também, em várias plataformas, texto, áudio, vídeo, textos flutuantes, hipertextos, escrita em cooperação;

Comunicar, a base da profissão, de forma eficaz e em diversas plataformas;

Aprender a aprender, de forma autônoma e independente, durante toda a vida. A formação do jornalista será sempre permanente.

Postado em Jul 6, 2008

ENTREVISTA: DANIELA RAMOS – PARTE 1

Daniela Osvald Ramos cursou Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fez mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, onde também cursa o doutorado. Agora está em Santiago de Compostela. Trabalha com internet desde 1995 e pesquisa linguagens digitais, weblogs e formatos de informação na web para o campo do Webjornalismo.

Comecei a me envolver com internet quando estudava Jornalismo na Universidadade Federal do Rio Grande do Sul. Todos podíamos ter uma conta de email e ir ao CPD da Universidade para acessá-lo, na época que imprimiam emails e deixavam num escaninho do usuário… Neste mesmo ano a Zero Hora tinha colocado no ar o site do ZH Informática. Quem fez isso foi o Caíque Severo, hoje no IG, que também era da Fabico/UFRGS. Então, deu uma luz: com todo mundo falando mal de impresso, rádio e TV, mercado saturado, poucas possibilidades de usar a criatividade, pensei em começar a entender mais de internet e HTML para conseguir um emprego nesta área nova que estava surgindo. E em junho de 1996 entrei na Zero Hora para atualizar o site do ZH Informática, que na época era todo “feito à mão”. HTMLSite, FTP, programação de códigos… Fazíamos só o site do caderno, eu e o Marco Ribeiro, ficavámos em horários diferentes. Em dezembro de 1996 nos chamaram e ampliaram a equipe para colocarmos no ar o jornal inteiro, o projeto ZH Digital. Aí chegou um programador de PERL que montou o software de publicação. A equipe, liderada pelo Luis Fernando Gracioli, definiu os templates do jornal inteiro e construímos os templates de código para o publicador. A partir de janeiro de 1997 o trabalho era colocar o jornal inteiro no publicador, todo dia, e atualizarmos o serviço de últimas notícias ZH Agora. E em julho de 1997 mudei para São Paulo para integrar o então núcleo de internet da Editora Abril, Abril Online, pós-BOL e pós fusão com o UOL, um núcleo que sobreviveu a tudo isso, do qual agora a Fabiana Zanni, que na época era editora, hoje é diretora de Mídia Digital da Editora Abril.

Aqui você lê alguns artigos dela , aqui está ela no Twitter, e abaixo uma entrevista que respondeu por email enquanto está na Espanha:

Jornalismo digital, jornalismo online, jornalismo multimídia, jornalismo em rede… Com qual termo você trabalha, e por quê?
Uso o termo Ciberjornalismo pois abarca todos estes outros termos, é um conceito mais amplo.

Pelas andanças no mundo e conversas que você vem tendo, dá para apontar quais as tendências para o jornalismo? Vídeo online? Participação do leitor? Tudo junto e mais outras coisas?

O video online é sim uma tendência para os sites de jornais. Mais uso e combinação de texto e vídeo, que chama-se de multimídia por justaposição, um conceito do Professor Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra. Justapor mídias e não integrá-las é um caminho, mas também produzir multimídia por integração, como o Clarín.com faz e El Mundo e El País nos infográficos “interativos” (uso aspas pois são chamados assim, mas é uma interatividade técnica e não social).Só para citar dois meios, NY Times e vários americanos também fazem infografias animadas com informação de banco de dados.

A única tendência que parece acertada para o jornalismo é: o modo como ele tem sido feito até hoje precisa mudar.

A tendência é a mudança. Sem dúvida é necessário refletir sobre o papel do Jornalismo na sociedade atual. Para que serve? Como se continuar a remunerar jornalistas se as vendas caem tanto? Qual é o modelo de negócio que sustentará essa indústria? As pessoas ainda pagam – e pagarão – por notícias? Por que elas continuarão ou não a comprar hoje notícias impressas de ontem? As pessoas pagam para baixar ringtones para celular, mas não pagam uma assinatura de jornal online. Por que? O que muda então? Qual é o negócio de uma empresa de comunicação? Informação, mas que tipo de informação. Estou respondendo a tua pergunta com mais perguntas, mas vejo poucos jornalistas se perguntando por isso no Brasil.

Um dos pontos é também repensar a relação com a audiência. A audiência está mais presente do que nunca e isso não necessariamente é uma desvantagem, mas na hora em que a empresa de comunicação deixa de ser a única protagonista da comunicação, isso causa uma crise de papéis. É preciso redefinir o papel da empresa de comunicação neste novo cenário, e qual o lugar do jornalismo nela, e da relação que a redação terá com a audiência; obviamente não poderá mais ignorá-la e fingir que, uma vez publicada uma matéria, reportagem, notícia, o processo acaba aí. Pelo contrário: é aí que começa o processo todo. Mas até então, para os jornalistas, publicar era um ponto final no trabalho. Não é mais. Precisam dar conta do desencadeamento da conversa pública que é gerada a partir desta informação que eles mesmos publicaram… Isso não me parece ruim. Por que seria? Temos que repensar uma rotina jornalística, e isso é ótimo!

O jornalismo, e por isso está em crise, de uns tempos para cá virou “piloto automático”. Não se pensa para fazer jornalismo.

As empresas não pensam. Por exemplo, A Folha de S. Paulo acabou de lançar uma nova versão do Guia da Folha – oh! Agora sem as limitações do papel! Ótimo, mas ao que parece a equipe não entendeu que, por ser online, podem incluir, por exemplo, Literatura nas opções de lazer e cultura da cidade. Há vários saraus acontecendo em São Paulo, movimentos novos de poesia e literatura em geral, e uma das maiores empresas de comunicação do país não aproveita um novo projeto online para dar conta de mais este público – sim, público consumidor. E aí o que acontece? Este público vai se informar nos blogs referência sobre o assunto. E aí, por que eu preciso ver esse site se ele não me interessa, supondo que eu sou este público potencial não conteplado? Não vou ver, não vou dar audiência, não me interessa absolutamente.

E aliás, um projeto desses não contempla também – veja bem, não estou defendendo que não deva haver hierarquia e apuração profissional, é por isso que o Guia é uma referência – uma seção participativa (e moderada por jornalistas) na qual poderíamos ter mais acesso às experiência de outros que podem compartilhar informações efetivas. Por quê? Porque não pensa em Jornalismo no século XXI, mas pensam Jornalismo como no século XIX.

Como você define e como você vê a convergência de mídias no jornalismo?

A convergência é um tema complexo. Até agora pesquisas e estudos apontam quatro níveis de convergência:

  • Integrated production – Produção Integrada
  • Multiskilled professionals – Jornalista Polivalente
  • Multiplataform delivery – Entrega multiplataforma / sob demanda
  • Active audience – Audiência ativa

Isto está no artigo “Four dimensions of Journalistic Convergence: A preliminary approach to current media trends at Spain”, disponível online. São conceitos que nós, pesquisadores da área, estamos usando atualmente.

Há a questão das redações integradas (impresso que junta com Tv, rádio, internet – várias combinações), que é um tema e uma área de estudo; a questão da formação e da atuação do jornalista multimídia/polivalente, que é outra área de estudo; a entrega de conteúdos em várias plataformas, celular, internet, TV, impresso – outra conseqüência e demanda de uma produção de conteúdos multimídia; e a questão da audiência ativa, também está dentro desta área de pesquisa da convergência.

Além disso, Salaverría, já citado, já escreveu sobre as “quatro dimentões”: empresarial, tecnológico, profissional e comunicativo”. A referência está aqui.

A convergência entre mídias, que pode gerar novas linguagens digitais aplicáveis ao jornalismo, pode surgir a partir da integração de diferentes mídias em uma redação.

Um outro grande problema dos meios hoje é pensar em “media centric” e não na “audience centric”.

Uma empresa não pode mais pensar em produtos, mas em informação. A Folha não faz só jornal, ela produz informação. Mas pensam como se estivessem fazendo papel e não internet. Precisam pensar mais na audiência, ela que mantém os meios. Senão, bem se vê onde estamos: numa crise das empresas de comunicação que vendem menos em todo mundo. Por que será? Será porque não pensam nos seus consumidores?

Postado em Jul 4, 2008

NEWSCAMP 3 – SÃO PAULO DIA 19

Os encontros de jornalistas que trabalham ou se interessam pelo mundo digital estão ficando cada vez mais frequentes. E o NewsCamp já está ficando tradicional, e acontece de novo no próximo dia 19, no espaço Gafanhoto, em SP.

Dessa vez, eu, junto com Fabiana Zanni e Caru Schwinger seremos responsáveis pela a turma da sala 1 para falar sobre Integração de Redação. Fabiana trabalha na Abril e viajou por diversos países para conhecer as redações colaborativas. Caru faz parte do grupo GJol e pesquisa sobre o tema no Brasil. Boa companhia só pode gerar um bom bate-papo.

Para entender o que é o Newscamp, uma desconferência, clique aqui.

E aos interessados no programa completo, sugiro uma visita ao blog oficial.

Postado em Jul 1, 2008

O TWITTER COMO COMPLEMENTO

Na sexta-feira passada (27) aconteceu uma experiência de utilização do Twitter em um evento ao vivo. Tiago Doria e Pedro Markun responderam a um convite meu para vir a Campinas twittar durante a palestra do engenheiro Silvio Meira sobre “O que pode a tecnologia”. Foi a última de uma série organizada pela filósofa Viviane Mosé na CPFL Cultura .

A experiência foi inspirada no que a TV Cultura fez no Roda Viva: uma bancada twittando ao vivo enquanto os jornalistas entrevistavam Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Em Campinas, a transmissão ao vivo aconteceu pela internet, também em teste, e não se tratava de entrevista, mas de bate-papo com o público que depois é editado e se tranforma num programa que vai ao ar na TV Cultura, o Café Filosófico.

Qual é a graça de usar o twitter num evento como esse? Há pelo menos duas aplicações interessantes, experimentais. Primeiro, o twitter pode ser um complemento à reportagem que será escrita, mais completa. O Twitter mostra alguns bastidores, algumas informações de rodapé que não entrarão num texto final. Outra é que o twitter acaba sendo aquela conversinha do fundão, aqueles comentários que o pessoal mais engraçadinho faz no cinema, num discurso ou numa palestra. A grande diferença é que não é em voz alta, mas escrito.

O resultado dessa conversa, como disse o Pedro Markun, não é apenas instantâneo, mas pode ser revisitado depois. Há vários serviços que agregam mensagens do Twitter, como o Summize, ou o Tweme, que recupera todo o histórico da discussão, contanto que se combine, antes, que todos vão usar a mesma “senha”. No caso, foi #CPFLcultura.

Markun contou uma coisa interessante também: ele segue mais de 600 pessoas – o que, a princípio, desvirtua totalmente a idéia inicial do Twitter. Para que serve ter um fluxo contínuo do que 600 pessoas estão escrevendo? Segundo ele, que instala um programa que roda na tela esse fluxo, é como observar uma espécie de fluxo de consciência coletiva. Quando algo que o interessa passa na tela, ele entra no fluxo. Esqueci qual era o programa que ele usava (se estiver lendo aí, Markun, me diz).

Uma das grandes dificuldades sobre o Twitter é explicá-lo. Não há nada parecido, nem nenhuma metáfora que sirva para facilitar seu entendimento por quem não o utiliza. Novos usos ainda estão sendo testados. Qual será o próximo?

Mais:
O Tiago Doria fala sobre a experiência Silvio Meira + Twitter + CPFL
Pedro Markun fala do Twitter como nova camada de informação

Postado em Jun 25, 2008

HACKERS CUBANOS

Poucos sabem que um dos maiores investimentos de Cuba atualmente é na formação de hackers. A Universidad de las Ciencias Informáticas é uma espécie de Universidade de São Paulo (USP) de um curso só. São mais de 10 mil estudantes espalhados em dezenas de prédios numa área cercada de 270 hectares. São cinco anos de estudo e em 2007 foi formada a primeira turma: 1.334 graduados. Um dos prédios de salas de aula funciona totalmente em software livre.

A história da UCI remonta à história da tecnologia em Cuba. Vários dos prédios mais antigos eram usados pela URSS, durante a guerra fria, para decodificar mensagens inimigas – leia-se dos EUA. Pouco antes da queda do muro de Berlin, do fim da união soviética e da crise cubana, em 1987, surgiu o Programa Jovem Club de Informática, em 600 escolas no país, que ensinava a mexer em computador. Até então o computador era aquele trambolho esquisito que não fazia muita coisa.

Em 1990, enquanto o mundo começava a descobrir o mundo pela internet discada, chega o primeiro e-mail em Cuba. Só em 1992 acontece o primeiro acesso à internet, pelo programa Jovem Club. Uma década de crise se seguiu, chamada de período especial – sem os subsídios soviéticos, sem indústria desenvolvida, sem apoio internacional, com um bloqueio econômico imposto pelos EUA.

Em 1998 Cuba decide se abrir para o turismo e começa a recuperação econômica. Desde 2001 o acesso à internet pelo Jovem Club é grátis. “O Jovem Club é o nosso cibercafé, com a diferença que é grátis”, diz o assessor do reitor da UCI, Tomás López Jiménez. Mas existe outra grande diferença: a  internet do Jovem Club, na verdade, só acessa a intranet da ilha. Veremos mais adiante o que é a intranet.

A internet comunista é assunto polêmico. Cuba é sempre citada ao lado da China como um dos países que pratica a censura. Pouco ou nada se escuta das razões de Cuba – o outro lado, como dizem, não costuma ter muito espaço.

O professor de Teleinformática (ou internet) da UCI, Yohandri Ril Gil, dá o outro lado: o governo dos EUA bloqueia o acesso à internet da ilha. O bloqueio econômico impede que as companhias telefônicas negociem um acesso maior com o governo cubano, sob pena de sofrerem sansões. Em 1996, resultado de um movimento de uma ONG e da OEA, o Congresso americano aprovou um provedor de internet para Cuba (ADSL). “O que nós fazemos aqui é trabalhar para que esse padacito de banda seja de interesse social. Procuramos um modelo diferente de uso da internet do modelo neoliberal”.

Eles explicam que não poderiam liberar o acesso geral e irrestrito porque, primeiro, não são todos os que podem ter computador. Se apenas aqueles que têm [acesso a um PC] usarem a pequena banda da ilha para acessar pornografia, por exemplo, estariam dificultando o uso da rede por aqueles que precisam, como médicos, jornalistas e comerciantes. “Por isso não permitimos que as pessoas tenham acesso individual, a não ser em casos específicos. Porque o acesso de um pode prejudicar o acesso de todos.”

Mas o que há na intranet de Cuba? Uma busca no Google.com.cu por .cu mostra tudo. Não entenda mal: todo site cubano tem a terminação .cu, assim como os sites brasileiros são .br. Além dos sites, todo cidadão tem direito a um email cubano, oferecido pelo governo. “Quando [o tamanho da banda] é limitado, tem que otimizar. Por isso temos três tipos de acesso: o acesso ao e-mail (um servidor de e-mail), acesso à intranet e acesso pleno”, justifica o professor de internet. O governo alega que se abrisse os servidores para o Gmail, por exemplo, o tráfego sem controle de informação pesada acabaria com a banda da ilha. Os dissidentes dizem que é claro que o governo diz isso, mas que na verdade o que querem é controlar a informação.

Segundo a UCI, hoje existem mais de 300 mil contas de intranet, mais de 700 mil contas de correio e 700 mil computadores na ilha, contando os pessoais, de escolas, empresas, etc. Cuba tem 11 milhões de habitantes, e Havana, sozinha, dois milhões. “Mas quando se diz que em Cuba há um certo número de contas de intranet, não se sabe ao certo quantas são, porque as pessoas são solidárias. Compartilham o acesso, emprestam para os vizinhos usarem com a senha deles. Não dá para saber se é preciso multiplicar o número de contas por dois, três ou quatro.”

Se os EUA liberassem o acesso pleno, se Cuba pudesse ter banda larga, liberaria o acesso irrestrito para todas as pessoas? Alguns garantem que sim, outros têm certeza que não. Cuba tem um backbone nacional e mil quilômetros de fibra ótica esperando um possível cabo submarino que seria  construído em 2009 desde a Venezuela. Aí veremos.

Até 1995, todas as centrais telefônicas cubanas eram da década de 30. Nessa época, a densidade telefônica – linhas fixas por 100 habitantes – era de 5. Antes de liberarem a compra de celulares era 10%. Querem chegar a 25% ou 35% nos próximos anos. No Brasil, em 2002 já era de quase 30 telefones fixos por 100 habitantes.

Cuba tem 100% de ensino de computação. “Ensinar que existe um computador no qual é possível escutar música, fazer edição multimídia, escrever, seja no Windows ou no Linux, é algo que poucos países no mundo podem dizer que oferecem a todos”, vangloria-se o assessor do reitor. “Toda escola de Cuba tem uma TV com vídeo e um computador. Mesmo escolas distantes tem isso. Muitas têm intranet.”

Na UCI é diferente. Os alunos do primeiro ano têm acesso à intranet, e os dos outros, do segundo ao quinto, tem acesso pleno. Mas todos têm uma cota de Mb, que vai de 100 Mb/mês até 850Mb/mês, mais ou menos. “Isso tudo para não congestionar a rede”, justifica o professor.

Eles garantem que Cuba está tentando encontrar um jeito diferente de usar a rede mundial de computadores. “Não usamos a internet como uma ferramenta de acesso a coisas boas e ruins. Fazemos um uso útil da rede. Para ter acesso pleno, por exemplo, o aluno da UCI precisa se comprometer a não acessar sites de pornografia, promover o spam ou visitar sites terroristas. É um código de ética. Há sansões, de leves a mais pesadas, para quem quebra o código.”

Sendo uma universidade de ciências da informática, num país com o qual a Microsoft, a Adobe, a Sun e várias outras empresas não negociam, como ensinar os estudantes a usar programas básicos como o Windows, o PhotoShop e o Java? “Não nos vendem programas (por causa do bloqueio), então precisamos crackear. Até queríamos pagar as licenças, mas não podemos”, zomba o assessor do reitor.

Assim como os mecânicos de Cuba fazem milagres para rodar aqueles velhos Buicks com peças inventadas, tiradas até de liquidificadores, os programadores cubanos estão aprendendo a criar códigos num ambiente totalmente insalubre, sem peças, crackeando até os mais básicos programas e desenvolvendo sobre barreiras sólidas de um bloqueio norte-americano. Que ninguém se surpreenda se em alguns anos os maiores hackers do mundo forem cubanos.

ERRATA: o artigo foi modificado para corrigir o cargo e a grafia do nome de Tomás López Jiménez

Postado em Jun 17, 2008

AMBULANTES NO TREM: TCC MULTIMÍDIA

Um grupo de cinco estudantes do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi fez uma reportagem multimídia como poucas redações brasileiras são capazes de fazer. Apresentado como trabalho de conclusão de curso (TCC) – já aprovado -, é uma grande investigação sobre os ambulantes que trabalham nos trens de São Paulo.

Com a palavra, Fausto Sposito, um dos jornalistas:

No início, a idéia era fazer um documentário sobre os vendedores ambulantes, mas logo percebemos que 95% dos Trabalhos de Conclusão de Curso eram documentário ou livro-reportagem. Daí, surgiu a idéia de fazer uma Grande Reportagem Multimídia, ou Web-documentário, não sabemos direito ainda.

Nos 6 primeiros meses, fizemos um pré-projeto, com um levantamento teórico do tema e do produto. Buscamos textos de diversos autores (André Deak, Ramon Salaverria, Pollyana Ferrari, etc…) para embasar o produto.

Sob a orientação do professor Fabio Cardoso, da Universidade Anhembi Morumbi, estudamos muita coisa sobre discursos multimídia e narrativas não-lineares. Era preciso evitar jogar um monte de conteúdo que não dialogasse entre si. Nos baseamos nos especiais do jornal argentino Clarin e nas Grandes Reportagens da Agência Brasil.

Nos 6 meses seguintes, nosso grupo, composto por 5 pessoas, partiu para as linhas da CPTM. Procuramos atuar como repórteres multimídia. Cada um com sua máquina fotográfica, registrando imagens mais subjetivas, um responsável pela filmagem, outro responsável pela captação de áudio e os demais coletando informações para a produção dos textos. Editamos vídeos e áudios, tratamos fotos, tudo em equipamento amador. “Contratamos” o colega Alessandro Piemonte, do curso de design, para a programação em Flash, mas acompanhamos todo o processo de criação artística da matéria.

Na banca, o professor André de Abreu fez diversos elogios, mas levantou pontos pertinentes, como a falta de crédito e o o excesso de pop-ups, que deverão ser corrigidos ainda esta semana. Desde a banca, na última quarta-feira, a repercussão tem sido positiva, mas ainda queremos acrescentar conteúdos relevantes que acabaram não entrando pela falta de tempo (fotos no mapa informativo, mais fotos na galeria, etc…).

A apresentação está muitíssimo bem feita, mas, como Fausto me pediu, aponto alguns probleminhas:

- O principal é que a navegação não é completamente intuitiva, e só numa segunda entrada é que fui perceber que há uma quantidade enorme de informação em outros vagões do trem. Eu pensei que tudo estava ali, na abertura, mas ao mover o mouse nos cantos da tela percebi que havia muito mais. Umas flechas de cada lado da tela resolvem isso.

-  Ainda há muito texto, daria ainda para editar bastante.

- o player escolhido para o fala povo é interessante, mas confunde. É preciso avisar que está sendo carregado o buffer, senão parece que está com defeito.

A turma está de parabéns, ainda é raro ver trabalhos assim no Brasil. Espero que com a entrada dessa nova geração no mercado, isso seja cada vez mais comum nas redações.

Postado em Jun 13, 2008

MISTURA EXPLOSIVA: TSE, INTERNET E ELEIÇÕES

Até este exato momento, o Technorati registrava apenas 39 resultados em blogs para a busca Resolução nº 22.718. Mas isso deve mudar bastante, porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou esses dias a resolução que disciplina o uso da internet na campanha eleitoral deste ano – justamente a de número 22.718.

O Global Voices acompanhou alguns blos que comentaram a discussão para explicar o problema: Juízes confundem YouTube com U2

[O] juiz blogueiro, George Marmelstein, assistiu à sessão do TSE em Brasília pessoalmente. Veja abaixo suas impressões:

Na medida em que eu ia vendo as argumentações apresentadas, ficava cada vez mais surpreso ante o despreparo dos ministros para entenderem o que é a internet. Parecia – e essa impressão foi muito forte – que eles não sabiam do que estavam falando. Para se ter uma idéia, Youtube virou U2.

No entanto, merece destaque o posicionamento do Min. Carlos Ayres Brito nesse assunto. Ele disse algo que eu já defendi: em matéria de liberdade de expressão, o Judiciário não deveria tentar regulamentar a internet sem saber do que se trata. Querer igualar a internet com as demais mídias é um grave equívoco. A internet, ao contrário da imprensa tradicional, não tem dona e a informação é livre e gratuita.

No final das contas, a solução foi uma amostra clara de que eles não sabiam direito o que estavam decidindo naquele momento. Ficou decidido que à medida em que os problemas surgissem, a solução seria dada caso a caso. Tanto melhor para os advogados e tanto pior para os eleitores, que ficam com uma espada de Dâmocles em suas cabeças sem saber direito o que podem e o que não podem fazer.

A Justiça já fez vítimas – Pedro Doria foi obrigado a retirar um banner de apoio ao Gabeira (para entender, vale ler O Biscoito Fino). É bom ficar de olho, porque esse debate vai começar a pegar fogo e a Justiça está armada com galões de gasolina.

Postado em Jun 3, 2008

HISTÓRIA DAS COISAS: DOCUMENTÁRIO INTERATIVO

Até hoje eu dizia que não conhecia, no mundo todo, uma experiência de documentário interativo online tão avançada quanto a experiência do Nação Palmares, que fizemos na Agência Brasil e que apresentei aqui há alguns meses. Agora terei que mudar o discurso.

Conheci hoje o Story of Stuff, um vídeo bastante complexo, onde se pode clicar em elementos da tela e acessar outros vídeos ou textos com mais informação a respeito. Muitíssimo bem feito. Curiosamente, o tema é o mesmo que trabalhamos no primeiro teste de vídeos interativos, há mais de um ano: consumo consciente. Diz o site deles:

From its extraction through sale, use and disposal, all the stuff in our lives affects communities at home and abroad, yet most of this is hidden from view. The Story of Stuff is a 20-minute, fast-paced, fact-filled look at the underside of our production and consumption patterns. The Story of Stuff exposes the connections between a huge number of environmental and social issues, and calls us together to create a more sustainable and just world. It’ll teach you something, it’ll make you laugh, and it just may change the way you look at all the stuff in your life forever.

O projeto é financiado pela Tides Foundation e por um grupo que defende a produção e o consumo sustentável. Segundo o site, mais de 2 milhões já assistiram. Foi executado por uma equipe de umas 20 pessoas, da empresa Free Range Studios – e já ganhou um prêmio nos EUA, da South By Southwest (SXSW) Interactive Conference, como melhor website educacional. A Free Range é a mesma empresa que fez os famosos The Meatrix e Grocery Store Wars.

O hipervídeo é interessante como experiência, mas é ainda menos revolucionário que o hipertexto. Basicamente, porque ao clicar num objeto do vídeo, a fala do apresentador é interrompida, e ao retornar ao vídeo principal, não dá para lembrar as primeiras palavras da frase, prejudicando o entendimento. No hipertexto, basta ler as frases anteriores e o contexto está de volta. No vídeo não é assim.

Talvez se encontre uma maneira simples de usar o hipervídeo – e essa é a experiência mais avançada que já tive notícia. Certamente com a chegada da TV digital e o avanço da banda larga na internet veremos e faremos muito mais coisas assim.

Veja mais:
Making of de Nação Palmares
A origem deste post: Intermezzo