Postado em Apr 16, 2008

ENTREVISTA: LUIZ IRIA

Luiz Iria é o cara. Ganhou tantos prêmios de infografia pela Abril que não dá pra contar. É ele quem dá o curso sobre o tema para os jornalistas recém-formados que entram na editora – invariavelmente encantando os novatos; muitas vezes também encantando os mais experientes. (Aqui tem um vídeo dele explicando o passo a passo da coisa toda).

Abaixo, uma breve entrevista por e-mail com ele:

Primeiro, como você foi parar na infografia? Como é seu dia a dia hoje?
Comecei na revista Superinteressante em 1995. Naquela época o então diretor de redação Eugênio Bucci estava começando a implantar a infografia na revista e trouxe vários profissionais da Espanha e Estados Unidos para ministrarem palestras e workshops. Foi nesse momento que me apaixonei pela infografia e decidi seguir carreira na área.

Hoje sou Editor do Núcleo de Infografia da Abril e meu trabalho é o de levar o know how que desenvolvi em mais de dez anos para todas as publicações da Abril que tiverem interesse em trabalhar com infográficos.

“Ler muitos quadrinhos, assistir muitos filmes, curso de desenho (mangá pode ser bacana) e ter formação em jornalismo pois a informação é prioridade no mundo da infografia e por fim estar sintonozado com o que está acontecendo no Mundo.”

Como foi o desenvolvimento da infografia na Abril? Flávio Dieguez dizia que no começo tinha que ficar convencendo os jornalistas de que infografia não era um desenhozinho pra reportagem ficar mais bonita. Ou que não bastava colocar uma figurinha na tabela para criar um infográfico. Ainda há preconceito e falta de entendimento do assunto entre os jornalistas?
No começo foi muito difícil convencer os jornalistas a aceitarem a linguagem pois o texto sempre foi visto como o mais importante na área editorial. Na infografia as legendas devem ser curtas e se integrarem as imagens. Para editores com mais de 20 anos de profissão era inconcebível escrever tão pouco pois tinha a sensação de que seu trabalho estava sendo desvalorizado.

Hoje em dia a aceitação da infografia é muito grande no editorial e vários jornalistas aderiram e defendem essa linguagem visual inovadora.

Saiu na rede um texto polêmico, do Javier Errea, “Por que a infografia vai salvar o jornalismo“, que você deve ter visto. Concorda?
Na minha opinião a infografia tem um diferêncial muito importante chamado tempo. Ela consegue condensar informações integrando texto e imagem fazendo com que a leitura seja rápida e dinâmica. Hoje tudo está muito acelerado e as pessoas não tem mais tempo de ficar lendo matérias longas principalmente jornais que a cada ano vem caindo o número de leitores.

Olhando por esse prisma concordo que a infografia terá um papel fundamental no futuro da informação seja qual for a mídia.

Algumas experiências de vídeo estão sendo feitas na Mundo Estranho – é você ali fazendo embaixadinha? – , mas ainda sem explorar muito as novas possibilidades da internet, como a interatividade no vídeo (hipervídeo), georeferenciamento, interatividade multi-linear ou mesmo fotografias panorâmicas. Por que os sites brasileiros não exploram essas possibilidades?
Sim. Sou eu. O grande problema com a internet no Brasil em relação a infográficos animados é o custo. Dá muito trabalho fazer uma animação, custa caro e o retorno financeiro é praticamente zero. Temos um borderô bem pequeno e fazemos milagres para conceber esses infos animados.

The New York Times, El Pais, El Mundo, Washington Post são exemplos de redações que investem em equipes enormes de infografia – a ponto da mais conhecida e trabalhada infografia sobre o acidente da TAM não ser brasileira. Nas redações brasileiras falta dinheiro ou falta visão? Quando e como isso vai mudar?
Esses jornais são de primeiro Mundo e com certeza eles tem algo muito precioso que não temos:dinheiro. Eles investem nos profissionais algo bem difícil no Brasil hoje em dia.

Para mim o que falta no nosso país são profissinais que se dediquem e estudem a infografia como algo vital para suas publicações.

O jornalismo começa a desenvolver interfaces baseadas em videogames – o newsgaming. O que acha disso? É a evolução máxima da infografia online?
Acho difícil afirmar pois a cada dia aparece algo novo que nos surpreende. Acho o newsgaming bem bacana mas de certa forma ele acompanha um padrão fixo. Acredito que futuramente irão aparecer novas fórmulas que vão nos deixar de queixo caído.

Que recomenda para quem quer aprender a trabalhar com infográficos?
Ler muitos quadrinhos, assistir muitos filmes, curso de desenho (mangá pode ser bacana) e ter formação em jornalismo pois a informação é prioridade no mundo da infografia e por fim estar sintonozado com o que está acontecendo no Mundo.

IRIA RECOMENDA: Remind me, de Royksopp, pra ter uma idéia do que dá pra fazer com infografia.

Postado em Apr 15, 2008

BLOG DO FISL

Vou administrar o Fisl9.Blog durante os dias do Fórum Internacional Software Livre. Acabamos de criar o blog, que roda em xowiki – que eu não conhecia, mas funciona bem, aparentemente.

Qualquer um pode blogar, aliás. Basta se cadastrar no Portal do Software Público Brasileiro e entrar depois no endereço  http://www.softwarepublico.gov.br/fisl9. O link “nova notícia” cria um post. Estão todos convidados.

Vou tentar atualizar aqui e ali simultaneamente esses dias, direto de Porto Alegre. Vamos ver no que vai dar.

Postado em Apr 15, 2008

FISL 9.0 – FÓRUM INTERNACIONAL DE SOFTWARE LIVRE

Vou estar de novo no Fisl, em Porto Alegre, a partir de amanhã (16) até domingo (20). Espero postar aqui bastante coisa a respeito, sobretudo a respeito das tecnologias livres para produção multimídia.

Postado em Apr 14, 2008

FALA QUE EU NÃO TE ESCUTO

O texto que escrevi para o Observatório da Imprensa teve uns 30 comentários, a maioria me espinafrando por supostamente ser contra a participação do público – logo eu, que defendo totalmente isso, e que termino o texto dizendo que não deve haver nenhum controle sobre o que o público escreve na rede, a não ser o controle do próprio público.

Há boas análises ali também, como as que colocam que o espaço e o destaque para comentários é muito inferior ao espaço dado aos jornalistas – de fato. No OI, inclusive, o autor não recebe notificações sobre os comentários no seu texto, distanciando ainda mais público e autor.

Mas gostei especialmente dessa avaliação de Amanda Vieira:

(…) Pode soar meio autoritário para os que não estudam teorias de comunicação, mas na verdade é bem libertador. O artigo todo chama a atenção para a responsabilidade do leitor, e isso incomoda porque leva a uma outra pergunta incômoda: “que responsabilidade, cara pálida? quem é você pra me dizer o quanto sou ou deixo de ser responsável? Já não basta a tv entregar o lixo q eu vejo calado, nao posso externar minha raiva ao menos em comentários na internet?”. Acho louvável tocar nesse tema, porque de fato os leitores podem cometer violências. Só não se sabe que instrumentos podem coibir esse tipo de violência sem que se tire a liberdade de expressão das pessoas. É uma linha muito tênue. (…)

Postado em Apr 14, 2008

NEWSCAMP 2ª EDIÇÃO – EU FUI

Dei um pulo no Newscamp que aconteceu no Gafanhoto, em São Paulo, no último sábado (12).

Achei bastante interessante o fato de que alguns blogueiros que trabalham em agências de publicidade estavam lá, e comentaram principalmente duas coisas:

1. as agências ainda não enxergam a rede como alvo prioritário, nem os blogueiros

2. algumas agências já percebem que alguns conceitos e práticas muito utilizadas na rede serão muito úteis num futuro muito próximo. Há quem aposte que a blogosfera será dizimada neste 2008 por um movimento de mercado. Em outras palavras: o mercado irá descobrir o potencial de várias ferramentas da rede e fagocitar tudo e todos. Talvez uma prova disso sejá justamente a presença dessa turma da publicidade no newscamp

Me pareceu um consenso de que o modelo do newscamp, de desconferência, serve menos para chegar em algum lugar, mas para partir para algum lugar. Todo mundo fala um pouco, não se chega a conclusão nenhuma, mas é ótimo porque depois os grupos se dividem e você vai falar somente com quem te despertou algum interesse – e aí fala em profundidade, troca contato, evolui o assunto.

A Ceila fala mais sobre a discussão geral que rolou.

Postado em Apr 10, 2008

COMEÇOU A CAMPANHA

IstoÉ dessa semana. Para alguns, essas são as vantagens do jornalismo digital.

Interessante é ver o que diz o sujeito da revista.

Postado em Apr 8, 2008

INTERATIVIDADE ESTILO BEAVIS E BUTTHEAD

Talvez seja a hora de atualizar uma questão proposta por Platão há mais de 2 mil anos. Em suas discussões com Sócrates, chegaram a uma sociedade perfeita organizada sobre quatro categorias: trabalhadores, comerciantes, escravos e guardiões. Sócrates teria perguntado a ele então: “Quem vigia os vigilantes?”. Essa questão já foi bastante usada em outros sentidos: Quem fiscaliza a polícia? Quem fiscaliza os jornalistas? Para ambas as perguntas, costuma-se dar a mesma resposta: a sociedade.

Atualmente, entretanto, a situação pode ter se tornado mais complexa. Não apenas a polícia ou os jornalistas, agora, são capazes de cometer crimes impunemente (apesar de existirem ouvidorias e corregedorias de polícia para os primeiros e Lei de Imprensa e ombudsman para os segundos). Pessoas comuns, agora, podem usar a internet para caluniar ou difamar, sem medo algum de punição, inclusive. O que nos leva à atualização da questão platônica: quem vigia os vigilantes dos vigilantes?

Dezenas de leitores se indignaram com a sugestão do jornalista Eugênio Bucci de que deveria haver um código de ética para os leitores, assim como há um para os jornalistas, para que os leitores fossem mais responsáveis ao deixar comentários pela rede – comentários que, às vezes, se tornam ataques pessoais, apócrifos, inclusive [ver "Estereótipos e conspirações de leitores"].

Porta fica aberta

Dito assim, de supetão, pode parecer um argumento de jornalistas que não querem ouvir críticas de leitores, mas é um dos principais debates da rede hoje. Uma tradução para essa preocupação seria: é necessário moderação de comentários? Ou, indo mais além: é preciso criar alguma forma de identificar quem publica algo na rede para responsabilizar criminosos?

Hoje existem métodos que tornam quase impossível identificar alguém que resolva publicar anonimamente algo na internet. Não são métodos simples de serem aplicados, tanto que a organização Repórteres Sem Fronteiras criou uma cartilha explicando como fazer isso, alegando poder ser útil para escrever livremente em países onde o governo pode prender sem justificativa qualquer um que publica algo na internet. Como nos Estados Unidos, por exemplo, depois da lei chamada Patriot Act.

Se responsabilizar jornalistas por informações falsas é possível – apesar de que a lei, nesse caso, é usada menos para fazer justiça e mais para intimidar jornalistas –, o mesmo se torna muito mais complicado no caso dos usuários da internet, especialmente aqueles que fazem comentários maliciosos. A polícia até tem como descobrir um criminoso, já que é possível, na maior parte das vezes, localizar o endereço residencial de alguém a partir de uma publicação – como ocorre com a prisão de pedófilos. Mas é bem improvável que a polícia invista tempo localizando um comentarista de blog. Sem punição à vista, a porta fica aberta aos ataques.

Não há espaço para identificação

A Justiça, aliás, nem mesmo interpreta que a culpa por um comentário malicioso seja de quem escreveu – a culpa é de quem o publicou. Entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006, alguns dos autores do blog coletivo Direitos de Resposta (eu, inclusive) foram intimados em uma investigação policial que pretendia descobrir o proprietário do site. O inquérito, iniciado a pedido de João Kleber, provavelmente seria usado para processar os donos do veículo por calúnia e difamação – por conta, justamente, de comentários dos leitores. O blog tratava dos bastidores do programa de televisão que foi ao ar na RedeTV! por decisão judicial, a partir de um pedido de resposta de seis organizações civis e do Ministério Público Federal ao programa Tardes Quentes, do qual Kleber era apresentador.

As ONGs alegaram que uma parcela da sociedade foi ofendida pelo programa e exigiram reparação, concedida pela Justiça – o programa saiu do ar e no lugar dele, durante 30 dias, foi transmitido outro programa, feito pelas ONGs, chamado Direitos de Resposta. No blog deste programa, vários leitores deixaram alguns impropérios contra o apresentador. Segundo a Justiça, a responsabilidade dos comentários é de quem mantém o site. Os xingamentos saíram do ar, o processo não seguiu adiante, mas casos semelhantes se dão com certa freqüência. A responsabilidade, hoje, não está com quem escreve, mas com quem publica – o que modifica um pouco as coisas. Interpretações assim determinaram, por exemplo, que o YouTube fosse bloqueado no Brasil durante alguns dias.

A cultura atualmente desenvolvida pelos usuários da rede impediria qualquer tentativa de regular ou monitorar a participação das pessoas. Projetos como os do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que propõe que o usuário tenha um cadastro para entrar na internet e seus passos sejam monitorados – just in case, na base do “quem não deve não teme” – são fortemente combatidos pelos defensores do direito à privacidade. Não há espaço, aparentemente, para exigir que usuários da internet se identifiquem. Qual a saída então?

“Convenci e fui convencido”

A cultura desenvolvida pela televisão talvez seja mesmo culpada pela forma como muitas pessoas interagem hoje na internet. Bucci compara os comentários agressivos postados por alguns leitores com a atitude dos dois personagens da MTV dos anos 1990.

“Penso nas posturas habituais da dupla Beavis e Butthead diante da TV. Os dois se batem contra o monitor vomitando impropérios entre arrotos que parecem risadas e risadas que soam como arrotos. Imagino um sujeito grudado no sofá, berrando vulgaridades para a mocinha seminua que dá duro no programa de auditório e que, por certo, não pode escutá-lo. Ele não sabe que a insulta, ou, pior, supõe que a elogia. Em seu delírio, acredita que a rapariga, se o ouvisse, tomaria seu grunhido gutural por galanteio. A televisão adestrou o sujeito anônimo, diluído na multidão, a falar sozinho entre quatro paredes. Adestrou-o com a promessa de que ele jamais seria visto nem ouvido.”

É bem possível que as pessoas tenham se acostumado a uma participação pouco edificante diante da TV, com o passar das décadas no sofá. Qual seria a porcentagem de críticas construtivas que iriam ao ar em um sistema de comentários online, sem filtro, em tempo real, que acompanhasse uma transmissão de jogo narrada por Galvão Bueno?A interatividade cada vez mais simples, entretanto, e o hábito de participação no espaço público talvez sejam capazes de melhorar o nível dos comentários. Provocadores natos são banidos de listas de discussão e, por mais que voltem com outros nomes, são banidos novamente até que cessem as provocações; comentários criminosos são retirados do ar; comentários agressivos recebem também respostas agressivas quando são mantidos no ar – normalmente acabando com a discussão, mas ensinando que não dá para existir discussão assim.Filipe Fonseca escreveu um, entre as dezenas de comentários ao texto de Bucci, e creio que exemplifica esse raciocínio:

“Já tive discussões interessantes neste OI. Já convenci e já fui convencido, e isso só é possível se os envolvidos na discussão estiverem dispostos a discutir de fato. Também já errei. Já exagerei na crítica ou na agressividade, o que teve a serventia de me ensinar que não é possível travar um debate sem que se demonstre respeito pelo pensamento alheio.”

Mais participação
Steven Johnson, no livro Cultura da Interface, identifica Beavis e Butthead como um tipo de programa de uma fase de transição cultural. Ele chama de “formas parasitas” programas que surgem para dar sentido a outros dados, num mar de informação.

“As formas parasitas vicejam em situações em que a informação disponível excede em muito nossa capacidade de processá-la (…). Nesses climas, aparece todo tipo de metaforma: condensadores, satiristas, intérpretes, sampleadores, tradutores. Eles se alimentam do excesso de informação, da atordoante sobrecarga sensorial da mediasfera contemporânea.”"Podemos assistir ao vídeo musical diretamente da MTV, é claro, mas podemos também fazê-lo através dos filtros de Beavis e Butthead, com seus comentários staccato correndo como pano de fundo. Ou podemos ver o mesmo vídeo no Yak Live, da MTV, com um fluxo de comentários ao vivo rolando sob a imagem em tempo real, transmitidos diretamente de uma sala de conversa da AOL, como um cruzamento de texto de capa de disco com grafites de banheiro. Beavis e Butthead e Yak são metaformas, filtros; ainda assistimos ao próprio vídeo, mas a experiência é necessariamente transformada (se não sempre intensificada) pelo filtro que a transmite para nós.”

Os comentários de Beavis foram talvez o primeiro ensaio de interatividade – uma interatividade falsa, onde o próprio emissor (a MTV) comentava os seus próprios vídeos na pele de dois adolescentes (uma sátira ao seu próprio público, aliás). A evolução para o modelo Yak, que existe até hoje, é mais verdadeira: coloca o próprio telespectador comentando – assim como são as caixas de comentários.A internet semântica talvez resolva isso. No Overmundo, por exemplo, é possível votar não apenas nos textos – que sobem de lugar na edição da página se são julgados interessantes, ou vão para um limbo onde quase ninguém os lerá –, mas também se pode votar nos comentários. Ou seja: os leitores também decidem quais comentários são úteis ao debate e quais são nocivos, jogando os nocivos no fundo da rede.A solução contra os baderneiros da rede não precisa vir do controle sobre a participação, mas justamente do outro lado: mais participação. Se o leitor vigia o jornalista, quem vigia o leitor? Os vigilantes dos vigilantes serão vigiados por outros vigilantes: nós mesmos, os cidadãos. Inclusive nós, os jornalistas…

Este artigo também foi publicado no Observatório da Imprensa com o título “Quem vigia os vigilantes dos vigilantes?”.

Postado em Apr 7, 2008

EM BRASÍLIA, 19 HORAS

Esse é o livro de Eugênio Bucci, sobre o período em que presidiu a Radiobrás – tempo em que também estive lá, para meu orgulho, junto com ele e outros companheiros, na briga pelo fim do chapa-branquismo. Muito dessa luta está contada aí.

Os jornalões fizeram já suas resenhas, vale a leitura, compiladas todas pelo Observatório da Imprensa. Como alguém disse, o livro já sai com jeitão de clássico do jornalismo. Mas eu, claro, sou suspeito.

Postado em Apr 4, 2008

MARTIN LUTHER KING ASSASSINADO HÁ 40 ANOS

Uma breve busca hoje pela rede:

O discurso I Have a Dream, em todos os formatos possíveis (que é de arrepiar, aliás)

Fotos das manifestações nos EUA, pelo New York Times

Balas não matam sonhos. A Time entrevista quatro pessoas que estavam com ele no dia de seu assassinato e monta um especial multimídia

Quem indica mais coisas interessantes?

(…) I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. (…)

And when this happens, when we allow freedom ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God’s children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual:

Free at last! Free at last!

Thank God Almighty, we are free at last!

Postado em Apr 3, 2008

ENTREVISTA: MARINA MOTOMURA

Marina é editora-assistente da revista Mundo Estranho, umas das publicações que mais utiliza infografias na editora Abril e que levou prêmios por isso. Ela fala sobre o trabalho da equipe, a cultura da redação e dos jornalistas e, claro, infografia. Indicou dois endereços no Flickr, um onde salvou alguns dos infográficos feitos e/ou editados por ela, outro da editora de arte, com mais imagens.

Como é o seu trabalho na Mundo Estranho? Como foi parar aí e onde estava antes?
Sou editora-assistente da revista: edito textos dos repórteres, mas também escrevo alguns. Nossa rotina é semelhante à de qualquer revista mensal: temos reunião de pauta com os repórteres em uma semana, e, dependendo da complexidade da pauta, reunião de infográfico na semana seguinte. Na terceira semana, recebo os textos, e na quarta semana fechamos. Antes de ser contratada, eu já colaborava como freelancer para várias revistas da Abril, onde comecei através de contatos que eu tinha com amigos que vieram trabalhar aqui. Também já trabalhei na Folha, UOL e iG — mas não com infografia em nenhum deles.

Quantas pessoas trabalham com infografia na Mundo Estranho? Quem faz o quê?
Podemos dizer que todos da Mundo Estranho — os dois editores e o redator- chefe de texto, e as três pessoas da arte (2 designers e 1 editora de arte) — trabalham com infografia. Nas 76 páginas que temos, pelo menos umas 15 são infogradas todos os meses. O “quem faz o quê” não é muito fixo. Na reunião de pauta, participam também os designers. Isso é importante porque nem sempre os repórteres pensam visualmente a pauta. Esse “pensar visualmente” é pensar em como mostrar o assunto que está sendo abordado de maneira que o produto final seja realmente um infográfico, e não um penduricalho. Assim, na primeira reunião, os editores de texto orientam os repórteres sobre que aspectos devem ser aprofundados/melhorados na apuração, e os designers já começam a pensar que tipo de linguaguem (mais realista ou mais leve, por exemplo) deve seguir a ilustração da matéria. Na semana seguinte, na reunião de info, participam, além do repórter, do designer e do editor, também o ilustrador. O repórter geralmente traz referências visuais (pesquisadas em sites, livros, outras revistas…) sobre a pauta. Por exemplo, na edição de abril da ME que chega agora às bancas, editei uma pauta sobre aparelhos ortodônticos. Na reunião, o repórter trouxe fotos e até um videozinho que ele mesmo fez com sua câmera digital para ajudar a mostrar como eles funcionam. Outro repórter, que fez uma matéria sobre como funciona o chuveiro elétrico, desmontou o próprio chuveiro de casa e fotografou para ajudar a mostrá-lo por dentro.

(…) na edição de abril da ME que chega agora às bancas, editei uma pauta sobre aparelhos ortodônticos. Na reunião, o repórter trouxe fotos e até um videozinho que ele mesmo fez com sua câmera digital para ajudar a mostrar como eles funcionam. Outro repórter, que fez uma matéria sobre como funciona o chuveiro elétrico, desmontou o próprio chuveiro de casa e fotografou para ajudar a mostrá-lo por dentro.

As infografias são pensadas ao mesmo tempo para internet e para papel? Como se dá o processo de criação para as infografias interativas?
Isso varia de pauta para pauta. Temos uma seção no site de infográficos animados, que, na maioria, são criados especialmente para a web, nem chegam a ter versão impressa. Um exemplo recente é o info sobre o canal do Panamá. Mas há também adaptações do conteúdo impresso em um info interativo para o site, como houve na reportagem sobre as pessoas mais estranhas do mundo. Na revista, fizemos uma “ficha técnica” das pessoas estranhas, e explicamos, sob o ponto de vista científico, o que as fazia ser assim. No site, acrescentamos vídeos (do YouTube mesmo) que mostram que essas pessoas são reais, para quem ainda duvidava. A diferença dos infos pensados direto para o site é que eles geralmente são mais multimídia que os impressos adaptados. Nos infos do site, temos narração de um locutor, o que dispensa os bloquinhos de texto, por exemplo. Aqui, vale dizer que, além das 6 pessoas que citei que cuidam da revista, há mais três que cuidam do site: 1 de texto, 1 webdesigner e 1 webmaster. Mas ficamos todos na mesma redação, integrados.

Qual é o nível de interatividade pretendido com as infografias de vocês? E até onde poderíamos chegar?
Essa pergunta se refere aos infos do site, né? Humm, não sei se dá para cravar o “nível de interatividade”, mas seguimos no site o mesmo princípio dos infos da revista impressa: nada do que está ali no info, seja do texto (ou locução) ou da ilustração está ali por acaso. Cada pedaço da ilustração traz uma informação, que é complementada pelo texto. Cada vez que você clicar em algo, vai aparecer uma informação, e não um enfeitezinho. Acho que podemos dizer que nossos infos são bonitinhos, mas nunca ordinários.

Você disse que a integração texto-arte é uma das diretrizes da revista. Muitos jornalistas vêem a arte como ilustração, não como informação (e mesmo as fotografias em jornais muitas vezes são usadas assim). Pedidos como “coloca uma moeda de um real no fundo da tabela da inflação” são comuns ainda? Como você vê a utilização da arte no jornalismo hoje em dia, é bem feito no geral?
Eu já trabalhei em jornal, revista e internet, e posso dizer que aqui, na Mundo Estranho (e nem digo que isso aconteça nas revistas em geral), é onde eu vejo essa integração acontecer de fato. Mas tenho que confessar que somos um tanto quanto privilegiados: somos uma revista mensal, o que nos dá margem para trabalhar com um planejamento e com uma precisão (muitas vezes, até o texto final, a reportagem passa por 3 ou 4 versões) que seriam considerados luxo no jornalismo diário dos jornais e no jornalismo minuto-a-minuto da internet. Por outro lado, também é importante frisar que trabalhar com infografia não é apenas questão de tempo — o tempo extra ajuda, mas não é fundamental. O que falta ainda é uma cultura de o repórter pensar que a arte (ou a foto, ou qualquer outro elemento visual) não é a moedinha de 1 real na tabela de inflação — ela tem que informar também. Ok, os jornais e os portais de internet podem e devem colocar belas imagens em suas capas para capturar o olhar do leitor. Mas, no interior das matérias, a arte e as fotos têm quer ter relevância jornalística.

O que falta ainda é uma cultura de o repórter pensar que a arte (ou a foto, ou qualquer outro elemento visual) não é a moedinha de 1 real na tabela de inflação — ela tem que informar também. Ok, os jornais e os portais de internet podem e devem colocar belas imagens em suas capas para capturar o olhar do leitor. Mas, no interior das matérias, a arte e as fotos têm quer ter relevância jornalística.

E, correndo o risco de chover no molhado, temos que lembrar que, com a internet, informação é o que não falta – blogs, microblogs, twitters, podcasts, fóruns e comunidades de relacionamento estão aí para entupir o leitor/internauta de dados. O que falta é entregar a informação da melhor maneira para o leitor. Para o público da Mundo Estranho, formado por adolescentes, a maioria do sexo masculino, essa maneira ainda é o infográfico. Informação nosso leitor consegue em qualquer lugar — ele tem internet à vontade, tv a cabo, celular. Mas em poucos lugares ele consegue informação bem apurada, “mastigada”, dividida em pequenos blocos de textos, aliada a uma ilustração que também informa, e que não está apenas enfeitando a página. E, quando os nossos leitores postam em nossa comunidade no orkut que a ME é a única coisa que eles lêem, fora os livros da escola, ficamos orgulhosos. (Se quiser, leia o que nossa editora de arte, Alessandra Kalko, escreveu sobre isso ao blog Visualmente: http://visualmente.blogspot.com/2008/02/especial-infografia-vai-salvar-o.html)

O jornalista não tem, na faculdade, nenhum tipo de conhecimento sobre a infografia – já reconhecida como um gênero, tão importante quanto a fotografia ou a reportagem, por exemplo. Há espaço para aprender direto no mercado?
Infelizmente, na faculdade eu só tinha uma leve idéia do que era infografia. Quando caí no mercado, é claro que penei ao fazer meus primeiros infográficos para a Superinteressante ou para a Mundo Estranho. Logo eu, que sempre gostei tanto de escrever, tive que ver meus textos reduzidos a bloquinhos de 300 toques cada! Mas essa percepção que o picotamento do texto era para o mal durou pouquíssimo. Com textos menores, e divididos por blocos de informação, eu ganho mais leitores: quem quiser ler só 1 ou 2 blocos, já aprendeu alguma coisa ali, sem ter que ler um pesado textão de 3500 toques sem respiro. Nas revistas em que trabalhei, encontrei, sim, espaço para aprender a fazer infográficos. A maioria delas é formada por gente jovem, que gosta de ensinar. Também estamos sempre trocando e-mails com referências de trabalhos que achamos legais, vendo portfólios e, de vez em quando, rolam uns workshops de infografia na Abril — pena que a presença do pessoal de texto ainda é ínfima nesses eventos.

Infografias, como outras linguagens, também podem ser bastante subjetivas (uma infografia que fizemos mostrava como era composto o salário dos parlamentares: era basicamente um gráfico pizza, mas em vez de uma pizza era um cofrinho em forma de porquinho. Uma das leituras possíveis era a de que estávamos chamando os parlamentares de porcos…). Como alcançar a objetividade num infográfico?
Sinceramente, não sei se a objetividade é desejável no nosso caso — mesmo no jornalismo em geral, acho que esse mito está perdendo força. Isso não significa que a gente se afaste da realidade. Pelo contrário, tentamos ser sempre o mais fiéis possível ao assunto retratado, mas sem deixar o humor de lado — na ME, os trocadilhos e piadas são nosso feijão-com-arroz, nem tolhemos a veia artística dos ilustradores. Mas se a preocupação com a objetividade for excessiva, corremos o risco de cair na pasteurização dos gráficos de inflação com moedinha de 1 real. Vejo como desejável, sim, a informação correta, bem apurada, mas traduzida em uma linguagem leve, bem-humorada, embalada com um belo visual. É claro que isso não precisa ser padrão para todos os veículos – um jornal de economia como o Valor não precisa, nem deve, seguir essa fórmula. Mas é essa mistura que funciona, por enquanto, para a Mundo Estranho.

A infografia tem mais público, ou atrai público para o site e para a revista? Por quê?
Vou citar novamente o que a Alessandra Kalko disse ao Visualmente: “Em 2007, ano em que muitas revistas viram seus números de venda caírem, a Mundo Estranho apresentou algum crescimento nas vendas. Nossos leitores são jovens de 12 a 20 anos, imersos em sites de relacionamento, tv e games que são apaixonados pela revista. Muitos deles afirmam que a Mundo Estranho é o único meio impresso que lêem por vontade própria, quando não o único. (…) A infografia tem um apelo gráfico forte e sedutor com esse leitor jovem.” Além disso, o infográfico apresenta uma abordagem nova para assuntos aparentemente sem-graça e/ou batidos. Na edição de abril, para citar outro exemplo, fizemos um “dossiê” sobre males/benefícios dos videogames. Mas, em vez de atropelar o leitor com milhares de estatísticas e estudos acadêmicos, a matéria mostra um personagem passando por várias fases de um “game”, traduzindo no texto o que as várias pesquisas queriam dizer. No site, vale o mesmo raciocínio. Nem sempre saímos na frente pelo ineditismo da informação, mas ela é mais atrativa porque é bem contada.

Que técnicas é preciso saber para trabalhar com infografias?
Se você é designer, é claro que precisa dominar o Photoshop e os programas de diagramação. Mas, para a gente que é de texto, o mais importante é pensar como o texto vai ser editado: quais informações são importantes e quais são dispensáveis para o leitor entender o assunto? Como dividir o texto em blocos temáticos, que, sozinhos, façam sentido, independente do resto? Onde vai cada bloco? Que referências visuais eu preciso dar ao pessoal da arte? Enfim, mais que cortar o texto, o editor tem que pensar no produto final e, sempre, sempre, se colocar no lugar do leitor.

LEIA TAMBÉM: o post Por que a infografia salvará o jornalismo, com trechos de um artigo da editora da Mundo Estranho, Alessandra Kalko