Posted on Feb 2, 2010

JORNALISMO E INTERATIVIDADE

Essa é uma apresentação utilizando o software húngaro Prezi, que costumo utilizar em aulas por aí. Ela se modifica com o tempo, conforme vou tirando ou acrescentando conteúdos interessantes.

No mínimo, é um resumão de links que julgo bacanas sobre jornalismo interativo. Tem algum pra recomendar?

Apresentei hoje isso na aula do curso de jornalismo online do Eugênio Bucci na USP. As outras aulas estão neste site aqui: www.jornalismodigital.org

Posted on Dec 26, 2009

NEWSGAMES: ENTREVISTA COM FRED DI GIACOMO

Conheci Fred Di Giacomo numa mesa que participamos juntos em Florianópolis, na Semana de Jornalismo Digital da UFSC (e que teve também a argentina Maria Arce). Fred é um dos principais caras que fazem os newsgames da Abril – pelo menos na Superinteressante, na Mundo Estranho e no núcleo Abril Jovem. Já escrevi algumas vezes sobre os newsgames da Super, que produziu alguns dos melhores que já vi no Brasil.

Abaixo, umas perguntas que ele me respondeu por email.

Como é que você foi parar na área de newsgames? Qual sua formação? E como, quando e por que a Abril resolveu começar a desenvolver newsgames?

Eu sou formado em jornalismo pela Unesp – Bauru, mas sempre puxei para a área de multimídia. Meu estágio foi em Rádio e TV, e na faculdade eu desenvolvi vários projetos de audiovisual, além de fazer o site do meu fanzine na raça, usando Front Page e html basicão. Quando passei no Curso Abril (2006), caí num grupo que deveria desenvolver uma revista digital para a Capricho. De lá fui contratado para o site da Mundo Estranho, no qual criamos jogos, testes, vídeos e podcasts.

Quando voltei a trabalhar no Internet Núcleo Jovem (novembro/2008), o Rafael Kenski era o editor e estava começando a produzir newsgames. Ele nem conhecia esse termo. Achávamos que estávamos criando os “jogos jornalísticos”, com a experiência que o núcleo já tinha em infográficos online. Foi aí que eu me envolvi com esse formato e foi aí que a a Abril começou a desenvolvê-lo. Não foi uma iniciativa corporativa, foram iniciativas pessoais.

Como é seu dia-a-dia?

Hoje eu sou o editor da Internet Núcleo Jovem, então acumulo algumas funções mais burocráticas, além de tocar esses projetos especiais, como os newsgames. Eu chego no trabalho por volta de 11h e fico até umas 20h30. Coordeno uma equipe de mais 6 pessoas que cuidam dos sites da Mundo Estranho, Superinteressante, Guia do Estudante e Aventuras na História. Abro o dia me atualizando com as notícias, via Twitter, RSS e portais. Faço algumas reuniões. Temos reuniões de pautas semanais no Núcleo e também faço reuniões semanais com os editores das revistas. Geralmente tocamos uma produção multimídia por mês e atualizamos os sites diariamente com notícias, blogs, enquetes e um pouco de conteúdo ligado às edições impressas. Reuniões com TI, fornecedores, marketing e publicidade também fazem parte da rotina.

As equipes dos newsgames da Abril costumam ser grandes – roteiro, apuração, programação, design… Com quantas pessoas trabalham normalmente? O que faz cada um?

As equipes de newsgames incluem gente da nossa equipe fixa (que também toca todos os sites) trabalhando com  frilas. São no mínimo 5 pessoas por produção (editor, repórter, designer, programdor e ilustrador). Às vezes aproveitamos uma apuração que o repórter tenha feito para uma matéria da revista, em outras pagamos alguém pela apuração. O editor coordena a parte de texto do newsgame e muitas vezes também é responsável por desenvolver o roteiro e a mecânica do jogo. O designer cuida do layout e coordena o trabalho do ilustrador e do programador.

O que você acha necessário que um jornalista saiba para trabalhar com newsgames? Quais os pré-requisitos?
É importante que o jornalista tenha alguma experiência como gamer, para ter referências de mecânicas e também de estética, de jogabilidade. Conhecimento de infográficos online e outras narrativas multimídias (vídeos, slide shows, etc) também são bem-vindas. E,claro, a pessoa precisa ser criativa.

Games são entretenimento. Jornalismo trabalha com notícia. Como fica essa mistura? Não há risco de cair muito para o entretenimento e acabar esquecendo “qual é o lead” do game? Como vocês trabalham esta questão?

Essa é uma das principais discusões que temos na equipe. Como aliar a diversão e a informação de uma forma equilibrada? Não existe uma fórmula, newsgames são uma linguagem nova. O Rafal Kenski tinha uma ideia legal sobre isso. Quando você estiver com a ideia do jogo pronta pergunte: “ele diverte? ele informa?”. Se cumprirmos essas duas missões, estamos no caminho certo. Sem informar, o newsgame é só game.

Games, infografias interativas… Esse é um futuro para o jornalismo? Por onde vamos?

Acho que o jornalismo tradicional sempre vai existir. Demora bastante pra produzir um newsgame, não dá pra noticiar a morte de um presidente só quando o infográfico ficar pronto. Mas esses serão os “cadernos especiais, as grandes reportagens do século XXI”. Acho que só estamos começando a explorar, de verdade,  as linguagens multimídia agora. Temos muito caminho para desbravar no universo do jornalismo online.

Posted on Oct 21, 2009

ARGENTINA VENCEDORA DO FNPI: ENTREVISTA COM MARIA ARCE, DO CLARÍN

Conheci Maria Arce, a jornalista argentina do Clarín, vencedora do Prêmio da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano 2009 em Santa Catarina, por conta da VIII Semana de Jornalismo da UFSC.

Eles venceram na categoria internet com o especial Ruta 66. Percorreram o trajeto de 4 mil km nos EUA entrevistando pessoas sobre as eleições norte-americanas, e reportando dia-a-dia. Maria Arce foi a produtora, fez entrevistas, gravou vídeos  e tirou fotos durante o trajeto.

Abaixo, uma breve entrevista com ela.

Como foi o processo de pauta? Como surgiu a ideia?

A ideia foi de Paula Lugones, em 2004, enquanto cobria as eleições nos EUA. Ela visitou vários estados, mas não havia conexão entre eles (noticiosA). Ela procurou algo que os unisse. Aí ocorreu a ela cobrir as eleições de 2008 pela rota 66. Mas em 2004 a internet era jovem ainda e ela não havia pensado o projeto para web. No começo de 2008 fizemos uma reunião para ver como poderíamos realizar uma cobertura multimídia. Me dei conta de que a forma tradicional de especiais multimídia do Clarín.com não era viável [apurar e, depois de algumas semanas de edição e programação, publicar]. Não podíamos viajar, gravar e voltar para processar tudo. Então surgiu o maior desafio de todos: um multimídia em tempo real, feito do exterior. Foi o primeiro na história da Argentina e, até onde sabemos, de toda América Latina pelo menos.

E a execução? Um mês na estrada, literalmente? Como foi?

Paula Lugones e eu estivemos na rota 66 por 40 dias. Mandávamos material todos os dias. Trabalhamos até 20 horas por dia em alguns dias. O material enviado podia ser notas, vídeos, galerias de fotos, áudios ou posts. do nosso blog. Tudo editado nos Estados Unidos.

Quantas pessoas fizeram o especial? O que fez cada uma?

Basicamente o trabalho todo fizemos eu e Paula. Paula se dedicou a escrever as notas publicadas na edição impressa do Clarín, que depois iam ao Clarín.com. A equipe do Clarin.com em Buenos Aires – umas 15 pessoas alternadamente – publicava na home nosso material. Uma outra fez a infografia animada e outras cinco fizeram a plataforma em flash do especial.

Tem ideia do investimento, em dinheiro, feito pelo Clarín? O Clarín é um dos poucos jornais na América Latina que faz investimentos em multimídia. Por quê?

Clarín.com sempre quis estar na vanguarda e isso significa apostar no multimídia. Sempre fez isso. Clarin.com sempre busca novos formatos narrativos, experimentamos, arriscamos e provamos, assim, que é possível fazer jornalismo digital. O custo da cobertura poderíamos dizer que foi de uns US$ 25 mil aproximadamente, entre passagens, hospedagem, custos gerais, etc.

Que equipamento levou? O que levaria se fosse fazer a viagem hoje?

Viajei com uma maleta cheia, laptop, câmera de video HD, tripé, máquina fotográfica, Ipod, 120 cassettes, fones de ouvido, 3 celulares (um da Argentina, um dos EUA e um capaz de transmitir vídeos ao vivo, 3G), um modem 3G. Transformadores, cabos USB, carregadores para cada um dos equipamentos, e adaptadores para carregar baterias no carro. Duas baterías para a câmera de vídeo.

Hoje eu levaria um netbook, uma câmera flip e uma de fotos. Sem cabos, carregadores, nada. Um quinto do equipamento, e tudo caberia no meu bolso.

O que um jornalista precisa saber para realizar isso? Qual a formação necessária?

Saber editar vídeos e fotos, ter um blog, produzir e gravar. Pensando sempre em qual formato é melhor para cada conteúdo. Não adianta publicar fotos por publicar. As imagens têm sua razão. Todo formato é assim. Isto é ser um verdadeiro jornalista multimídia: ter a capacidade de pensar uma cobertura em todos os formatos.

Posted on Aug 21, 2009

ESPECIAL MULTIMÍDIA RAUL SEIXAS

O Estadão fez um especial multimídia interessante sobre os 20 anos da morte de Raul Seixas. Tem uma boa concepção de design, mas uma navegabilidade um pouco ruim – em alguns casos, com a janela de texto aberta, fica difícil clicar nos nós da rede.

Interessante a concepção um pouco caótica de apresentação da história, mas talvez fosse mais objetivo organizar de alguma maneira os personagens e as histórias – a única maneira de saber o que tem num nó é passar o mouse sobre ele, e ninguém vai passar sobre todos…

De qualquer forma, achei bacana. Especialmente algo que não se vê muito por aí, menos ainda no Estadão – links, dentro do especial, que levam para fora do portal: para vídeos no YouTube relacionados aos assuntos da vida de Raul. Belo trabalho de pesquisa.

Sinto falta em muitas infografias que vejo de um link para “equipe” . Neste tem a assinatura do ilustrador, Baptistão. Mas quem são os jornalistas que realizaram? Jelin?

Posted on May 23, 2009

JOGOS, INTERATIVIDADE E JORNALISMO: NEWSGAMES

Você é um jornalista que investiga maquilladoras no México – fábricas que exploram trabalhadores, poluem o meio ambiente, normalmente vinculadas a multinacionais que procuram mão-de-obra barata. Irá entrevistar membros da comunidade, trabalhadores, sindicalistas, fiscais, visitar locais perigosos e juntar argumentos para a entrevista final: o dono da fábrica. Se tiver entrevistado as pessoas certas, e se tiver feito as perguntas certas, poderá usar os melhores argumentos na entrevista final e provocar respostas espontâneas que lhe darão, afinal, a prova do crime.

Este é o mote de Global Conflicts: Latin America. Jogo da empresa Serious Games, especializada nos chamados newsgames. Fez também Palestine, mas apenas o Latin America pode ser testado online.

Newsgames estão ficando mais complexos, mais interessantes e mais comuns. São difíceis de fazer, envolvem jogabilidade, design e jornalismo, campos que antes não se misturavam, mas que vão sendo engolidos pelas fronteiras cada vez mais líquidas do jornalismo (Bauman, Santaella).

A educação tenta utilizar “jogos educativos” há tempos, mas parece que é no jornalismo online que eles estão se desenvolvendo melhor.  Quem conhecer casos interessantes, por favor comente.

Casos Made in Brazil

Nem todo jogo é um newsgame: há quem faça confusão, com produções bem estranhas em jornais por aí, como o PacMan Eleitoral (O Povo Online), abaixo:

Há também quem simplesmente copie boas idéias, inclusive no formato. A revista Veja reproduziu exatamente o modelo Candidate Match Game, do USA Today (abaixo):

Aqui o modelo original (foi atualizado para o segundo turno nos EUA):

A idéia do jogo é boa: inverte o foco, que normalmente está nos políticos, e faz perguntas ao usuário para indicar o candidato cujas respostas são mais próximas. Mas poderiam ser criadas versões mais criativas, sem utilizar a linguagem visual desenvolvida pelo USA Today. E não foi só a Veja: também o pessoal do portal UAI “reutilizou” o modelo norte-americano.

[E também vimos recentemente, no caso de especiais multimídia, a mesma linguagem usada pelo New York Times no  8 in a Million, servir de "inspiração" para a Revista Brasileiros.]Ou seja: as experiências que estão ocorrendo lá fora vão chegando ao Brasil, mas muitas vezes sem nenhuma “reciclagem”. Na semana que vem publico uma entrevista com quem está realmente criando newsgames brasileiros: Daniel Jelin, Editor de Especiais do Estadão.

MAIS:
Consumer Consequences

Jogo da Máfia

Jornalismo e Video Games

Posted on Apr 29, 2009

NEWSGAME: CONSUMER CONSEQUENCES

Consumer Consequences é um jogo da família dos chamados newsgames dos mais interessantes que já vi. Poderia ser chamado também de uma infografia de banco de dados, talvez. Apresentado de outra maneira, poderia ser, também, o que um dia foi uma grande reportagem. Mas quem sabe dê pra chamar de jornalismo video game.

Basicamente, o jogo é uma calculadora de impacto ambiental individual. Ou seja: você responde um questionário e, com base em uma apuração rigorosa, que está no banco de dados, o sistema calcula o quanto você faz mal ao planeta. Mais diretamente, aponta quantos planetas como a Terra seriam necessários se todos no mundo tivessem o mesmo padrão de vida que você leva.

Sabe-se, por exemplo, quantos metros quadrados são necessários para produzir X de alimentos; quantos acres são precisos para gerar X de energia elétrica não-renovável; quantos hectares são utilizados para  despejar tal quantidade de lixo.

Com base nisso, você insere seus dados no sistema e ele calcula: se todos fossem como você, precisaríamos de 4 planetas – ou 2, ou 5, ou 9, como alguns resultados apontam. (Talvez um apenas para morar em casas de 200 metros quadrados, outro para despejar lixo, outro para produzir alimentos – que são desperdiçados, aliás, e vão para o lixo e um para gerar energia. Isso o programa não diz, mas outros já disseram.)

Mais interessante: você compara seus resultados com a média do norte-americano e com todos os outros que responderam o quiz e informaram idade, profissão, faixa salarial (e quem ganha mais polui mais, aliás), sexo, etc.

O fato é que este método de apresentação de informação é muitíssimo mais eficaz do que um texto. Ou um vídeo-reportagem, ou um documentário, ou um programa de rádio. Aliás: o jogo foi produzido pela American Public Media,  uma organização não-lucrativa que opera rádios públicas nos EUA. De novo: rádios públicas. Que produzem um jogo online.

Alguns dizem que este pode ser o futuro do jornalismo científico. Acho que pode ser, independente de qualquer outra coisa, um belo modelo para apresentação de dados complexos de maneira interativa, leve e interessante. No mínimo.

PS: Alguém quer tentar realizar algo similar por aqui? Vamos?

MAIS: 

OJB sobre newsgames

Are newsrooms ready for games?

Tensões e oportunidades para jogos no jornalismo

Posted on Apr 11, 2009

SONDAS NO UNIVERSO / MALOFIEJ 17

sondassuper.jpg

A revista Superinteressante levou medalha de prata, categoria online, no Malofiej, o principal prêmio de infografia do mundo, com o trabalho Sondas no Universo, aí acima. (O New York Times ficou com quase todos os ouros.)

O resultado é obra de uma parceria da Abril com Alberto Cairo (e Luiz Iria, outro colecionador de prêmios, e Douglas Kawazu, Fabiane Zambon, Daniel Schneider e Rafael Kenski). E Cairo explica em sua página:

Además de elementos en 3D y vídeos, la presentación incluye un muy interesante tour virtual interactivo por el Sistema Solar (“sondas no universo”), idea que se nos ocurrió en las reuniones preliminares: por medio del teclado, el lector puede navegar por el espacio como si estuviese a los mandos de una nave. En esta escena, además, el usuario tiene la opción de ver todas las sondas o sólo aquéllas que fueron lanzadas en un período determinado. De nuevo, interacción.

Minha avaliação: grande experiência interativa, em que realmente se tem essa impressão – de navegar no espaço. Gosto particularmente destes trabalhos com conteúdo “enciclopédico”, que você provavelmente não verá por completo, mas percebe que há um trabalho enorme de pesquisa e apuração por trás. É justamente isso que permite tantos caminhos, tantas opções de navegação – uma narrativa multi-linear, enfim.

Achei apenas o sistema de navegação um pouco confuso – muitos botões no teclado, sem o uso do mouse… Mas nada que atrapalhasse a exploração. Um botão clique-para-ver-em-tela-cheia também cairia bem, já que a tela de navegação não comporta o sistema solar todo e dificulta a visualização de todas as sondas.

Devo dizer que gosto muito de infografias, e acho este um grande nicho, pouquíssimo explorado pelas faculdades de jornalismo e mesmo pelos veículos em geral. Trabalhos como este podem ensinar mais sobre este gênero (é um gênero? creio que sim) do que a maioria das faculdades ensina…

MAIS:
Sobre os premiados no Malofiej 17

Sobre os brasileiros que levaram medalhas no Malofiej 17

Posted on Apr 8, 2009

NEWSGAMES: JOGO DA MÁFIA

A revista Superinteressante volta com outro jogo que acompanha as reportagens de capa. Desta vez, para explicar a máfia mundial, você é um policial infiltrado que age como traficante, e o jogo explica quais regiões do mundo traficam o quê – ou quem (escravos, mulheres).

Os chamados newsgames ainda estão em desenvolvimento, são poucas as revistas ou jornais que os utilizam. Mas fazem parte do pequeno grupo o New York Times, por exemplo, que experimenta usar recursos do entretenimento para passar informações jornalísticas.

Newsgames não funcionam muito para as notícias chamadas quentes, que tem um tempo de vida curto, já que o tempo de desenvolvimento precisa ser longo – ou o jogo não fica bem feito. Aí acerta a Superinteressante, que oferece jogos com informação real, apurada por jornalistas, mas sobre assuntos mais frios – o funcionamento da máfia mundial, no caso.

Os jogos ainda estão em estágios mais simples, seguindo mais ou menos a evolução que os videogames tiveram ao longo das décadas anteriores. Não é simples criar jogos envolventes, e a escolha inicial parece ser trabalhar mais com o conceito do que propriamente com a “jogabilidade”. Tanto o NYT quanto a Super contam histórias relativamente longas – o que podemos chamar de reportagem – como pano de fundo para um jogo simples.

Penso se não seria o caso de traballhar com jogos mais complexos, senão nos gráficos – o que é difícil e de caro desenvolvimento -, nas possibilidades narrativas. Mas ou menos como ocorria nos primórdios do videogame, como em Fuga de Alcatraz (do MSX!) .

Janet Murray conta, no ótimo livro Hamlet no Holodeck, como a história (plot) importa mais que o gráfico.

Ou seja: No modo como foi construído, o jogo da Máfia faz com que, talvez, a maioria dos jorgadores decore que é um bom negócio para mafiosos comprar escravos na África para vendê-los na Itália, ou comprar remédios falsos na China para vender na África (descontando também algumas generalizações bem pouco jornalísticas – a África é bem grande…). Além desse conhecimento e alguma matemática, pode-se chegar ao final do jogo.

Melhor seria, talvez, um jogo onde fosse necessário aprender como trabalha a máfia, da mesma forma como era necessário aprender a construir sua fuga de Alcatraz – passo a passo, num processo demorado, mas que será lembrado mesmo décadas depois.

Mesmo no modelo do jogo anterior da Super (CSI – Ciência contra o crime, que mostra como funcionam métodos de investigação), as opções eram mais abertas, e havia um grau maior de dificuldade que obrigava os jogadores a compartilharem experiências no fórum. Isso também é uma vantagem do anterior em relação ao Jogo da Máfia. (A dificuldade neste último resume-se a um número limitado de viagens para conseguir dinheiro. A solução é matemática, sem forçar o entendimento da máfia em si).

Newsgames não são simples. Neste caso, mobilizou uma equipe de seis pessoas. (Edição: Fred di Giacomo, Rafael Kenski, André Sirangelo e Alexandre Versignassi. Reportagem: Maurício Horta. Desenvolvimento e design: Douglas Kawazu). Parabéns para todos e espero que outros jogos venham por aí.

Posted on Mar 31, 2009

INFOGRAFIA NYT: HOW DO YOU FEEL ABOUT THE CRISIS?

Como você se sente em relação à crise é o mote deste infográfico do New York Times. As pessoas digitam palavras e ele gera uma nuvem, ao estilo Tag Cloud.

Achei curioso por alguns motivos:

- É de fato interativo (o campo de palavras é aberto, com algumas sugestões, o que facilita a formação da nuvem. Mas ao mesmo tempo vicia a formação da nuvem. Seria este um modelo de folksonomia híbrida?)

-  É uma Tag Cloud viva, em movimento e com cores. Interessante. Me lembrou um projeto do Rodrigo Savazoni que já está pronto mas ainda não foi ao ar.

No mais, daria para chamar de jornalismo? Eu, particularmente, acho que está mais no campo do entretenimento… A amostragem dos que respondem não pode servir como pesquisa séria. É quase um fala-povo online.

Mas que ficou bonito, ficou.

Posted on Mar 21, 2009

MAKING OF: CRÔNICA DE UMA CATÁSTROFE AMBIENTAL

Saiu em março de 2009 a edição da Revista Fórum com a reportagem Crônica de uma catástrofe ambiental. Realizada por mim e por Paulo Fehlauer, foi apresentada tanto na revista impressa quanto na internet, em um site especial feito por nós (com participação especial de Rodrigo Savazoni, dando ideias de edição e de layout).

A ideia do projeto surgiu a partir de um convite de Renato Rovai, editor da Fórum. Inicialmente, seria apenas uma investigação comum, com entrega do material em texto. Mas numa reunião entre o Rovai, nós três (Savazoni, Fehlauer e eu) e Anselmo Massad, editor do site da Fórum, decidimos que poderíamos aproveitar para testar um novo modelo de apresentação de reportagens, mais completo. Como diz Rovai no editorial da edição 72 da revista:

Neste mês estamos lançando uma nova fórmula de grandes reportagens. Ela é uma ação multimídia que pode ser conferida na matéria sobre o caso da catástrofe ambiental no Rio Paraíba do Sul (aliás, assunto ignorado pela mídia tradicional) . A reportagem ficaria incompleta se publicada apenas no papel, inclusive por conta dos custos e das limitações do meio. Ao mesmo tempo, poderia ficar menos visível se apenas divulgada em nosso site. A utilização dos dois meios de forma complementar visa a construir uma nova opção para este tipo de reportagem. E o leitor poderá conferir aqui [na revista impressa] e na página eletrônica o que achou da solução.

Paulo Fehlauer foi quem realizou a programação do site – na verdade, uma adaptação de um template do WordPress, com vários plugins instalados. Ele conta:

Para contar essa história, resolvemos utilizar de todos os recursos e formatos que tínhamos à mão, o que resultou no site-reportagem cuja primeira página pode ser vista na imagem acima. Trata-se de um cruzamento de texto, fotos, áudio, vídeo, mapas que só é possível na web. Quer mais? Exceto pelos softwares de edição de vídeo e imagem, todo o trabalho foi feito com ferramentas gratuitas disponíveis para quem quiser/souber mixá-las: WordPress + plugins, Blip.tv, Umapper, entre outras.

JORNALISMO DE CÓDIGO ABERTO

Outra novidade desta experiência é a página de Journalismo de Código Aberto. Quase todo o conteúdo da apuração (áudio, fotos, vídeos, transcrição das entrevistas) está disponível. Isso permite mais transparência, já que todos podem checar a edição a partir das íntegras. Mas também permite que outras edições sejam feitas e que a reportagem possa continuar, mesmo que através de outras mãos.

A questão do “open source journalism” gera uma discussão interessante. Seria possível, inclusive, gravar toda a navegação online realizada durante a apuração, mostrando todo o caminho e o raciocínio que levou à edição final apresentada. Apresentar as anotações feitas no bloco de notas. Mas talvez não seja possível capturar e oferecer toda a subjetividade que envolve a apuração (“não confio no que ele está dizendo, me pareceu que aí tem algo estranho”). Subjetividade essa que, afinal, também é parte do processo de captura da realidade pelo filtro do repórter, e que acaba presente na edição.

Decidimos, por exemplo, não colocar a íntegra de duas entrevistas que realizamos, mas que não foram utilizadas em nenhuma parte. A de um barqueiro, que disse coisas contraditórias (disse, por exemplo, que saíram 5 caminhões de 20 toneladas cheios de peixes mortos. Depois disse que foram 80 toneladas de peixes mortos. Como o áudio da gravação ficou ruim, pois acabamos não usando). E não usamos, também, a fala do deputado André do PV, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, que não nos pareceu acrescentar nada. Estes vídeos, mesmo de má qualidade (técnica ou de conteúdo) deveriam estar disponíveis, de acordo com os preceitos do open source journalism? Não sei.

(Tendo a crer que sim. Transparência total. No entanto, é um trabalho – converter o vídeo, editar fotos, upload, trasncrição – que pode gerar apenas ruído, uma vez que o conteúdo é considerado de baixa qualidade. Mas, sendo radical no pensamento do open source, quem define o que é de qualidade, portanto, não é apenas o jornalista, mas o leitor…)

TEMPO DE PRODUÇÃO

Ficamos uma semana no estado do Rio de Janeiro, em Barra Mansa, Resende, Volta Redonda, Niterói e na capital. Dois jornalistas, munidos de gravador digital, câmera digital, uma câmera de vídeo mini-DV e dois notebooks com internet 3G. Na volta, fiz um relatório com a transcrição de todas as entrevistas e produzi um texto base, que seria depois lapidado na reportagem. Fizemos algumas conversas sobre como seria o layout do site da reportagem, e decidimos que seria mais parecido com a paginação de uma revista (o abre em página dupla, e a reportagem apresentada depois). O abre cumpre a função de introdução, e poderia ser em flash, se tivéssemos tempo e recursos pra isso.

Sendo multimídia, discutimos se apresentaríamos o conteúdo dividido por mídia ou por assunto. Isso se traduz em, por exemplo, colocar no menu uma divisão como “vídeos, fotos, áudios e texto”, ou por temas. Optamos pela segunda opção – o formato é secundário em relação à história. A história é o mais importante, e ela deve ser apresentada da melhor forma. A únicas divisões que existem, portanto, são “A História” e “Os Envolvidos“. Na página principal, os boxes da revista foram transformados em posts (e a própria reportagem impressa virou uma série de posts). Cada personagem ganhou uma página específica, com fotos, transcrição da entrevista, áudio e vídeo na íntegra.

A reportagem toda poderia ter sido totalmente realizada em três semanas, inclusive com a edição do site, mas levou um pouco mais porque estávamos trabalhando em projetos paralelos no meio disso. Fomos para o Rio no final de janeiro, e só agora, quase 60 dias depois, pequenos detalhes foram resolvidos.

O FUTURO

Acreditamos que esse modelo de apresentação de reportagem pode ser reutilizado muitas vezes, sem muita dificuldade e sem muito custo de produção. Nos EUA e na Espanha – e mesmo em países vizinhos como Argentina e Colômbia – esse modelo de apresentação já é bastante utilizado. No Brasil, creio que é a primeira vez que acontece.

Não falo de uma apresentação onde a soma das linguagens ocorra, porque isso é normal (há vários sites e portais que apresentam o modelo “veja o vídeo, oução o áudio, leia o texto”).  Mas de uma apresentação da soma dessas linguagens de uma maneira mais trabalhada, cuidadosa. Não um empilhamento de formatos, mas uma oferta de maneira mais organizada. Esperamos que esse trabalho cumpra esse papel. Mas esperamos mostrar também que, ainda que com poucos recursos e pouco tempo, uma reportagem multimídia é perfeitamente possível.

Por que então os jornais, as revistas, os portais e mesmo os sites brasileiros não fazem isso? Com a palavra, você.

ATUALIZAÇÃO: O Fehlauer também escreveu um Making Of