Archive for March, 2010

ENTREVISTA: JAMIE KING, STEAL THIS FILM E VODO.NET

// March 9th, 2010 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, CulturaDigitalBR, ENTREVISTAS, JORNALISMO

O idealizador do documentário “Steal this Film” (”Roube este Filme”, em português) e criador da rede Vodo.net, Jamie King, defende a liberdade de compartilhamento livre na rede e ajuda produtores a usarem sistemas P2P para a distribuição de suas criações. Em “Steal this Film” ele descreve como funciona a cultura de distribuição de conteúdo peer-to-peer e mostra as consequências disso para os criadores de conteúdo, para cineastas e artistas em geral.

Convidado a contar a sua experiência na mesa de discussão sobre comunicação no Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital, em novembro de 2009, Jamie falou um pouco mais sobre o seu trabalho nesta entrevista.

>>> Depois do Steal This Film, o que está fazendo agora?
Recentemente, estive envolvido em um projeto para ajudar produtores de conteúdo a usar o compartilhamento de arquivos, usar grandes serviços de distribuição pirata para espalhar seu trabalho pelo mundo todo. Enfim, mostra como o peer-to-peer pode ser útil para todos os tipos de artistas a cineastas principiantes.

>>> O projeto “Steal this Film” levou dois anos para ser realizado, certo?
Ele começou em 2006. Nós fizemos a Parte Um em 2006 e um outro grupo fez a Parte Dois em 2007. E a parte 2.5 foi lançada este ano (2009).

>>> O que emergiu deste projeto?
Uma das coisas excitantes sobre “Steal this Film” para nós foi que, sem ter uma infraestrutura tradicional de distribuição, fomos capazes de engajar uma audiência mundial e realmente fazer parte do debate crescente sobre o compartilhamento de arquivos e P2P. Este é um momento importante para apresentar um retrato do que significa o compartilhar arquivos, fazer download, compartilhar mídia. Especialmente fazer isso a partir do nosso ponto de vista, do produtor, pra quem isso é absolutamente normal. Eu queria fazer parte desta conversa, ter o direito de dizer como construir esse futuro em potencial.

>>> Você disse que se se tivesse apelado para o processo tradicional de distribuição, não teria dinheiro para pagar pelo documentário. O modelo tradicional está falido?
Bem, não está quebrado para todo mundo. Quero dizer, as pessoas ainda vão ao cinema e, de fato, mais pessoas vão ao cinema no Reino Unido do que nunca.

>>> Mas não para ver documentários…
Certo, mas só recentemente é que se vêem documentários nos cinemas. É muito raro um documentário estar nos cinema. Foi Harvey Weinstein quem inicialmente promoveu a ideia de que documentários deveriam também atrair grandes públicos [N.E – vale ler a carta que Weinstein escreveu a Errol Morris, documentarista que ajudou a popularizar o gênero]. Isso é muito recente, de todo modo. A pergunta é “seríamos capazes de fazer “Steal this Film” pelo sistema tradicional? Bem, diferentes filmes poderiam ser feitos. Há coisas que fizemos em “Steal this Film 1” que você não poderia fazer nesse sistema. Existem limites suaves, ou pouco visíveis, impostos aos cineastas, e depende do quão distante você está do modelo para notar se esses limites são mais ou menos importantes. Por exemplo: você não é livre para pegar partes de filmes de outras pessoas e adicionar um voice over, ou criar um ensaio usando imagens alheias sem a permissão explícita delas. E algumas pessoas vão dizer que esse é o jeito que deve ser. Nossa visão é outra: que somos cercados por imagens em todos os lugares onde vamos. Inclusive, acho que não vi outdoors em São Paulo…

>>>Há um ano já que não temos isso… É lei.
É bem perceptível. Mas em Londres ou em Berlim, ou em outros lugares, você é cercado constantemente por imagens concebidas para determinar o que você deve sentir, o que você deve desejar, como definir seu sucesso, como você deve ser. E você continua exposto, mesmo que não existam outdoors, pois elas estão no cinema, na TV, em todo lugar. Apesar delas estarem presentes em todos os momentos de nossas vidas, não temos permissão para usá-las. É como se elas fossem significativas para você de todas as maneiras, mas não são suas. E mantenha suas mãos longe! Então, fazer remix, reutilizar sem permissão, parece ser uma maneira de quebrar, ou melhor, alterar a lógica dessas imagens, temporariamente pelo menos. Enfim, essa é uma coisa que você definitivamente não poderia fazer na televisão, mas você pode fazer quando produz um filme desse jeito.

>>>Nós falamos sobre propriedade, então vamos falar sobre direitos autorais. O filme é registrado em copyright. Por quê? Se você pretende uma distribuição para todos, por que tem um copyright?
É uma piada. Porque o filme se chama “Steal this Film” e se tivéssemos colocado uma licença livre, creative commons ou algo assim, as pessoas, tecnicamente, não poderiam mais roubá-lo, então o filme não poderia mais se chamar “Steal this Film”. Foi necessário ter um copyright, para que as pessoas pudessem quebrá-lo. Além disso, somos geeks, nos divertimos com o paradoxo de dizer para alguém roubar algo, mas não de verdade. Então foi por isso que não fizemos os projetos em licenças creative commons.

>>>E você prefere creative commons ou copyleft?
Nós não usamos licença copyleft para conteúdo. Porque é mais difícil de reproduzi-lo. Os artistas [no Vodo.net] basicamente dizem que tipo de condições querem colocar no trabalho – e então geramos uma licença para cada um.

>>>Mas há uma crítica que diz que o creative commons ainda está sob o guarda-chuva do copyright…
Sem dúvida.

>>>Você não está desafiando o sistema, está se adaptando…
Bem, eu sou uma das pessoas que fazem essa crítica a favor de modificar o sistema de copyright. Mas nós o sustentamos. Nós vivemos em um tempo de contradições (risos). Com o Vodo.net, acho que provamos algo muito importante, sobre como usar as redes P2P nesses trabalhos, mostrando que a rede pode distribuir valor para os produtores. Isso indica para mim um certo tipo de pragmatismo. Você não pode fazer o que quiser, nem forçar seus pontos de vista sobre ninguém. No nosso caso isso significa que nós vivemos abertos para o “film maker”. Se um cineasta quiser restringir certos usos, tudo bem. Se você quiser colocar seu filme em domínio público, mais ou menos como “Steal this Film”, você também pode.

Nós tivemos uma discussão interna sobre o “Steal this Film” uma vez porque nós encontramos no blog de alguém do Festival Internacional de Cinema de Cingapura uma chamada para “Steal this Film 2”, eles iam exibir e não nos contaram. E ninguém tinha dito pra eles que podia. E eu disse para um dos caras envolvidos no filme “O que você acha disso?” e ele disse “é claro que alguém ia fazer isso”. É que eu pensei que eles, sendo um festival de filmes, deveriam conhecer melhor as regras. Eu iria legalmente impedí-los de exibir o “Steal This Film 2”? Talvez não, mas eles poderiam ter nos consultado, nos contado pelo menos, estaria tudo ok. Acho que mesmo tendo as posições mais radicais, deveriam existir maneiras de sinalizar para as outras pessoas que usos você permite para o seu material.

Mas eu gosto de ficar fora do sistema de copyright. E gostaria de apenas sugerir usos para meu trabalho, pois eu acho que essa é a realidade da situação. Eu confio em fronteiras éticas e eu não quero restrições legais. E quanto mais a lei do copyright parece representar interesses que eu realmente discordo, menos quero me envolver com copyright.

Existem outros exemplos desse paradoxo. É realmente complicado responder a essa pergunta, não é porque estou tentando ser político, mas porque é uma pergunta muito complicada. Pegue Richard Stallman e o sistema GPL [N.E. Licença Pública Gnu], que sempre se apoiou no copyright, e agora está numa posição de apoiar o copyright e argumentar contra políticas do Partido Pirata porque ele precisa do copyright para dar suporte ao GPL. As pessoas pensam que ele é anti-copyright, mas na verdade ele defende. Então há vários paradoxos emergindo desta situação tecnológica. Eu acho que temos que olhar caso a caso.

>>>Você acha que vai haver uma mudança radical?
Sem dúvida! Novas leis terão que ser feitas. Estamos radicalmente repensando as coisas. Eu posso te contar sobre as conversas que tenho tido, eu tenho certeza que você tem as mesmas. Na Europa ou nos EUA. Eu comecei o projeto Vodo.net, há um mês atrás veio à público. Eu tive, provavelmente, 250 e-mails de cineastas e nenhum deles disse “Essa é uma ideia estúpida. Você não faz ideia de como ganhar dinheiro”. E também não foi apenas uma pessoa que disse “Isso é maravilhoso. Gostaria de me envolver. Isso vai ajudar os cineastas”.

As pessoas sabem que este mundo que emergiu é imperfeito, o mundo da reprodução mecânica, da televisão, do rádio. E este mundo que está emergindo tem imensamente mais possibilidades para todos nós. E esta é questão: como realizar uma contribuição construtiva para este novo paradigma. Se eu fizer contribuições sólidas o bastante, práticas o bastante, nós não deveríamos ter nenhum problema em criar um novo regime legal, porque vamos descobrir novas maneiras de os cineastas ganharem dinheiro. Mas se fizermos apenas downloads dos filmes de Hollywood, sem criar nada novo, sem dúvida eles tentarão nos destruir. Mas se contribuirmos, construirmos algo novo… Acho que há muito mais pelo que lutar, e muito a ganhar.

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ENTREVISTA: JOSHUA GREEN E O VÍDEO ONLINE

// March 4th, 2010 // 1 Comment » // JORNALISMO

Coordenador de pesquisas do Convergence Culture Consortium, centro de estudos fundado por Henry Jerkins e filiado ao Comparative Media Studies do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, Joshua Green lidera uma equipe dedicada a investigar as ramificações da convergência e da cultura participativa na produção de conteúdo, nas práticas de mercado e na forma de entender as audiências das diversas mídias. Seu trabalho atual é sobre a televisão e a formação de audiência interativa. É PhD em estudos de mídia pela Queensland University of Technology da Austrália, tendo publicado trabalhos sobre televisão online, as relações entre produtores e consumidores, estratégias de programação de TV e a construção da esfera pública cultural.

Ao lado da pesquisadora australiana Jean Burgess lançou em março de 2009 o livro “YouTube – Online Video and Participatory Culture”, traduzido para o português como “Youtube e a Revolução Digital (Editora Aleph). O livro é um dos primeiros trabalhos dedicados a analisar o site como uma rede social e não apenas como plataforma de distribuição de conteúdo e parte da análise dos 4.300 vídeos mais acessados. O resultado é um mapeamento sobre como ele é utilizado pela indústria da mídia, pelo público, por produtores amadores e por comunidades de interesses particulares, mostrando que o maior potencial do YouTube está na capacidade de criar relacionamentos e incentivar a criatividade popular.

Green é ainda afiliado ao ARC Center of Excellence For Creative Industries and Innovation, centro de inovação e tecnologia na Austrália, membro equipe da rede social experimental PBS Engage e ministra palestras sobre cultura e convergência em eventos acadêmicos e empresariais pelo mundo.

Perfil no Twitter
: @JoshGreen
Blog: Weigh and Mass

A entrevista transcrita abaixo foi gravada durante a passagem de Joshua pelo Brasil em outubro de 2009, quando participou do New Brand Comunicattion e aproveitou para visitar a Casa da Cultura Digital, em São Paulo. Na ocasião, eu e o VJ Pixel fizemos essas perguntas para ele. A entrevista faz parte do projeto de estudos sobre vídeo online que a FLi Multimídia está desenvolvendo para a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa e o Ministério da Cultura.

>>> O que é o vídeo online?

Joshua: Bom, de maneira geral, estamos falando em vídeos que são disponibilizados online. É uma das coisas que muda de acordo com o contexto. O vídeo online pode ter a ver com esporte, com segurança, pode ter conteúdo de entretenimento, pode ser de notícias, pode ser pessoal, pode ser objetivo, pode ser interpessoal (como uma gravação de uma conversa), pode ser uma animação. Ou seja, vídeo online é, a princípio, um vídeo que está online.

Mas precisamos ser mais específicos quando falamos disso. Deveríamos pontuar melhor o tema, falar no “espaço de mercado do vídeo online”, ou na “cultura do vídeo online” – sempre especificando melhor o que queremos dizer. Vídeo online é um modo particular de oferecer muitos tipos de conteúdo.

Algumas características são diferentes, de fato: se é visto em uma tela próxima, como a do computador, precisa ter uma dimensão específica. Na tela do computador as pessoas estão geralmente a meio metro de distância, enquanto na TV estão a uns 5 metros. Você assiste televisão de longe, mas você trabalha com o seu computador a no máximo meio metro de distância. Então, de cara, o vídeo online já deveria ter algumas características diferentes.

>>> Com o html5 (uma linguagem que permite rodar vídeos no próprio navegador, sem players instalados no computador), algumas pessoas dizem que áudio e vídeo serão “cidadãos de primeira classe” na internet. O que você acha sobre isso?

Joshua: Isso está relacionado com a questão “o vídeo online vai matar a televisão?” Eu diria que não, para as pessoas sem conexão de Internet, ou com conexão de linha discada. Também não para as pessoas que estão atrás de firewalls nacionais, ou para as que trabalham em corporações que restringem o acesso a Internet. E também não, claro, para quem não pode comprar um computador.

Muitas das discussões sobre vídeo online envolvem questões sobre democracia digital, inclusão digital e direitos de acesso. Isso não significa que devemos parar de discutir esses temas. O vídeo online precisa ser incorporado como parte de um argumento mais amplo, em muitas instâncias, como a necessidade de conexão de Internet hoje para possibilitar a participação civil.

Se não tivermos linhas telefônicas, água encanada, limpeza ou segurança, então, ter uma conexão de Internet está provavelmente bem abaixo na lista de prioridades. E, cada vez mais no mundo desenvolvido, pelo menos, no Ocidente, e certamente em muitos países de língua inglesa, o acesso a Internet é vitalmente importante para participação civil efetiva – mas isso também vale para fora desses espaços.

Vídeo online pode ser barato. Se você tem largura de banda e tem a tecnologia, isso pode ser barato. Não ocupa espectro, então você pode usar esse espectro para outros propósitos. E pela perspectiva de desenvolvimento, deve haver oportunidade nessa área para aumentar as taxas de conexão de Internet. Já que Internet provê telefonia e comunicação escrita, pode prover acesso a rádio e a vídeo.

>>> Como você acha que a televisão e a distribuição vão ser impactadas com a inclusão online?

Joshua: Temos diversas mudanças acontecendo. Numa visão ampla, isso nos permite reconceituar, nos força a reconsiderar o que é que estamos falando quando citamos a televisão. Televisão, em particular aquela produzida profissionalmente. Sim, existem vídeos ativistas e produção comunitária, mas se pensarmos em produções públicas e comerciais – que são as coisas que nós geralmente pensamos quando falamos de televisão -, trata-se de um universo de produtores profissionais. E cada vez mais isso já não é assim.

Se o vídeo online é visto como um substituto para a televisão em sua forma de broadcast, então, de repente, quando pensamos em “televisão” as formas em que ela é realizada se multiplicam. Porque, talvez, sentar-se e me assistir falando em frente à minha webcam seja televisão para as pessoas. Em especial quando temos a escolha de uma enorme gama de pessoas falando em frente a suas webcams. Então pode ser que não seja o formato – falar em frente à webcam -, mas sim o conteúdo, a perspectiva desta pessoa em particular.

Nós fizemos isso antes na televisão mainstream, já colocamos pessoas falando em frente a uma câmera, mas nunca tivemos muita escolha, porque temos limite de largura de banda e existem diretrizes de produção profissional. Se enxergarmos o vídeo online como um substituto ou um suplemento para a difusão da televisão, então aumentamos a possibilidade de produções. Isso é um primeiro ponto.

Em segundo lugar, isso altera o panorama geral da produção profissional. O mercado de propaganda, em particular nos EUA, vale muito menos hoje que o mercado de televisão. Custa mais caro fazer propaganda na TV do que na Internet. Isso está causando um sério impacto nos produtores profissionais, que, de repente, não têm mais a habilidade de alcançar audiências tão grandes, pois algumas pessoas estão assistindo filmes online, e não estão necessariamente fazendo tanto dinheiro – mesmo considerando as audiências grandes que alguns filmes tem.

Há uma grande crise nos EUA neste momento. E isso está obrigando que se mude a forma como as coisas são feitas. Eles estão mudando a forma de produção, fazendo programas mais baratos, produzindo coisas diferentes. Alguns estilos mais caros de produção estão sendo exibidos apenas para planos pagos. Então HBO, Showtime e similares, estão comprando e vendendo publicidade de formas diferentes, estão sonhando com novos tipos de publicidade.

Isso não está acabando com o mercado (eles vão dizer que está), mas está gerando respostas diferentes. Eu acho que para produtores nacionais, para sistemas nacionais de TV, para sistemas de broadcasting público ou sistemas que servem toda uma nação, o vídeo online aumenta o número de pessoas para quem eles podem falar, porque assim, de repente, você pode falar para todas pessoas que não têm televisão ou que não estão assistindo tv naquele determinado momento.

Isso aumenta o número de pessoas para quem você conseque falar se você é um broadcaster nacional. Mas o que isso também faz é começar a quebrar as barreiras nacionais. Este é um problema da BBC, porque o conteúdo que a BBC produz é pago pelo povo, então a população deveria ter permissão para acessá-lo. E aí a BBC coloca seu conteúdo online, e gasta um monte de dinheiro criptografando este conteúdo, para que apenas as pessoas no Reino Unido possam assisti-lo.

Nós temos múltiplos sistemas de TV, mas existe apenas uma Internet. Quando a BBC fecha seu conteúdo, isso leva a questionamentos por parte de algumas pessoas no Reino Unido sobre o porquê da BBC ter o direito de fazer isso com a cultura nacional que, no fundo, foi paga pelo povo britânico. Se a BBC irá tratar isso como um commodity em vez de cultura, eu acho que eu diria “isto é conteúdo, é o nosso conteúdo, nós somos donos disso”, e então certamente faria sentido que eles devessem respeitar a cadeia de produção. Se eles forem tratar como conteúdo, cultura, bem, quem pagou pelo conteúdo? Não é a pessoa que pagou pelo conteúdo, no fim das contas, que é o dono? E então não deveriam ser esses os responsáveis por decidir o que deve acontecer? Isso é sempre um problema na indústria cultural, pois ela cria simultaneamente commodities e cultura, e é essa uma dicotomia que produz todas as tensões que por fim tornam ela o que é.

Então para os sistemas de televisão, o vídeo online modifica as fronteiras nacionais. Tantas coisas que você não irá ver no seu país porque vêm do Japão, da Austrália, de qualquer lugar de fora da sua região de broadcasting local. E aí você tem acesso a isso. Tudo está lá e você entra em contato. E às vezes você encontra conteúdo em lugares estranhos. Conteúdo se tornando popular em lugares estranhos muito longe de onde foi produzido e que de alguma forma pode repercutir ou morrer culturalmente. E isso é muito bom para populações que saíram do local de origem delas – que podem ver conteúdo de seu país em qualquer parte do mundo.

Então se você está longe de casa, ou se não pode ir para casa por algum motivo, seja político ou financeiro, ou seja o que for, você pode manter alguma conexão com sua terra natal. De repente se está morando nos EUA, apesar de ter nascido na Austrália, e há alguns vestígios de cultura australiana que se pode assistir na Internet. Isso complica o panorama da TV de diversas formas, tanto culturalmente quanto politicamente e economicamente.

>>> E qual o impacto na indústria do cinema?

Joshua: Eu não sei se Hollywood sentiu isto tão forte quanto a televisão. E eu vou falar principalmente sobre Hollywood como produção de filmes e usar o termo televisão como produções para TV profissional. E quando eu não estiver falando deles, eu vou especificar. Eu não tenho certeza se Hollywood sentiu isso mais forte que a televisão norte-americana, ou de maneira mais fácil. Em parte porque a televisão sempre gerou sua renda vendendo alguma outra coisa. O propósito dos sistemas comerciais de televisão é agregar pessoas em um grupo chamado “audiência”, e então vender esta audiência para alguém que queira passar uma mensagem para ela. Então a programação é um método para atrair todas essas pessoas e é este o produto que é vendido – a atenção dessas pessoas. E certamente, existem culturas de produção, empresas produzem programas e os vendem, vendem direitos de exibição em diversas regiões e vendem direitos de re-exibição, e todas essas coisas, certo?

Mas no fim das contas, em termos de produções de TV, parece que a grande coisa que é vendida é a atenção. A Internet desestabiliza esta relação, por que isso costumava ser vendido com base em pressupostos. Nós tínhamos uma estimativa razoável de quantas pessoas estavam assistindo televisão, tinhamos uma estimativa de quantos lares tinham uma TV sintonizada neste canal. E eles vendiam esta estimativa razoável. Mas quando assistimos pela Internet, é muito menos preciso [N.E.: em termos de classificação de público, não de quantidade].

A Internet não está dizimando o mercado da televisão. O que acontece é que isso está nos mostrando a natureza imprecisa do modo como eles, na TV, costumam mensurar as coisas. E de repente, talvez teremos uma medida mais precisa e perceberemos que tem tantas pessoas assistindo um programa na Internet.

Cinema, por outro lado, é vendido há muito tempo como uma coisa única. Você compra uma entrada, vai e assiste o filme. Se você quiser assistir de novo, você compra outra entrada e assiste novamente. E então, com certeza, o desenvolvimento do protocolo BitTorrent, o crescimento de redes de compartilhamento P2P, a facilidade com que agora cada conteúdo pode ser publicado online e o desenvolvimento de serviços de vídeo sob demanda desafiaram Hollywood, mas eu não tenho certeza se é mais difícil para eles do que para a televisão. Porque, ao mesmo tempo, Hollywood, em particular, sempre viu as mudanças acontecendo.

E estamos falando de mudanças que ocorrem há 20, 30 anos. E aqui precisamos fazer uma pausa e dizer: não é como se essa coisa tivesse acontecido ontem. A televisão vem mudando desde o momento em que foi inventada. E tem havido pesquisa sobre essas novas tecnologias há muito tempo, sempre houve. A tecnologia é desenvolvida e as pessoas já estão falando de potenciais usos futuros. E você precisa ser cuidadoso com o quão rápido você se move, porque senão você investe seu dinheiro em algo que não é um sucesso pra valer. Mas não é como se isso tudo tivesse acontecido do dia pra noite. Todas essas empresas, algumas sendo as maiores e mais rentáveis empresas do mundo, tiverem bastante tempo pra pensar sobre isso. Bem, talvez eles digam, “estamos muito ocupados fazendo dinheiro para mudarmos nossas direções e olhar para tendências de longo prazo”, ou “ninguém estava nos falando”, ou “as coisas não saíram como achávamos que seria” ou, “seguimos a tendência errada”… Pessoalmente, acho que não se gasta dinheiro para descobrir o que vem depois e não se compreende que a mudança não tem uma história.

Hollywood estava assustada com o videocassete! Eles acharam que o VCR iria acabar [com o mercado]. Jack Valenti (1921-2007), o diretor anterior da Motion Picture Association of America (MPAA), é famoso por ter dito em frente à suprema corte que o VCR é para Hollywood o que o estrangulador de Boston era para uma mulher sozinha à noite. E é tipo… “Bahhh, não mesmo!” porque quando o caso Betamax foi encerrado de uma forma que beneficiava os consumidores, acabou resultando em Hollywood foi fazendo um montão de dinheiro vendendo fitas de vídeo para o mercado caseiro.

Então eu acho que devemos ser cuidadosos e filtrar as coisas que eles dizem, para que tenha uma consciência histórica, mas que também reconheça que essas são empresas que passaram toda a vida tentando controlar o que no fundo são bens culturais e tentaram tratar bens culturais como se fossem commodities. E isso é difícil. É quase impossível. Porque bens culturais não são commodities. Você pode criar o melhor filme que você sempre quis fazer e isso não garante que as pessoas irão gostar dele. E ainda, se você é a pessoa que fez o melhor filme, talvez você não seja o único que foi responsável pelo sucesso do filme. Talvez o valor desta produção é a criação de dois grupos: as pessoas que fizeram o filme, e as pessoas que assistem o filme.

E por que (e isto soa como uma pergunta filosófica) são estas pessoas que fizeram o filme as únicas que se beneficiam do valor que se criou no filme? De todo modo, Hollywood vem baixando suas produções, estão declinando, fazendo filmes menores, com menores orçamentos, filmes conceituais, com filmes contendo adultos inteligentes como nunca antes os filmes tiveram. Grande parte de Hollywood está constantemente escolhendo blockbusters menores, a audiência adolescente de shopping, e gastando mais e mais dinheiro em espetáculos. Eu gosto de filmes de espetáculo, tanto quanto outras pessoas, mas, talvez, um dos problemas aqui tem a ver com a sustentabilidade dessas práticas de produção assim como a transformação se amplia na Internet.

>>> Neste contexto do vídeo migrando de offline para online, qual o papel das pessoas que trabalham profissionalmente com vídeo?

Joshua: Eu não tenho certeza se a produção de vídeo profissional está acabando. Em parte, porque existe um monte de pessoas muito boas que não fazem produção de vídeo profissionalmente, que não têm nenhum interesse em trabalhar na área de produção de vídeos. Só porque você tem as habilidades e você é bom nisso, não significa necessariamente que é isso que você vai fazer. Eu sou muito habilidoso em servir uma mesa, mas eu não acho que encontrei um segundo emprego. Porque não se trata necessariamente de algo profissionalmente desafiador trabalhar como um garçom. Mas eu entendo que existe muita preocupação de produtores profissionais em comunidades de vídeo, principalmente empresas de publicidade e companhias de televisão convidando usuários a criar conteúdo ou amadores a participar em processos de produção do vídeo. Eu entendo que há muita preocupação por aí. Mas penso que já está um pouco defasado, porque continuamos precisando de produção profissional, precisamos contratar pessoas cujo trabalho é produzir vídeos, produtores profissionais.

Isso quer dizer que se você não tem nenhum título profissional, então você não vai trabalhar na indústria. Talvez minha percepção esteja errada. Vimos muitos produtores [amadores] fazendo coisas mais interessantes… Tem um grupo de editores profissionais em Los Angeles, é uma associação, chamada StereoLight. E ele estão fazendo competições online todo ano, para que as pessoas remixem um trailer de um filme para fazê-lo por um ponto de vista diferente, e está ficando muito popular na Internet, muitas pessoas estão fazendo isso, muitos jovens editores estão fazendo. Para demonstrar seus conhecimentos como editores jovens, e assim trabalhar como editores profissionais. Então, não profissionais podem fazer melhor ou tão bom quanto, e frequentemente eles fazem melhor do que os que dizem ser profissionais. Mas isso não significa que todos os editores profissionais irão parar de exercer suas práticas. Talvez a gente veja inovação. Talvez produções de vídeo profissionais vão ter um pouco de medo e ficarão melhores em sua arte, avançando em diferentes conhecimentos – já que as pessoas comuns estão fazendo isso.

>>> Qual é o papel do remix?

Joshua: Eu acho que ampliamos a cultura do remix por dois motivos: um, penso que facilitar a capacidade de compartilhar vídeos era a última peça que faltava no quebra-cabeça para fazer o vídeo tangível, como parte de uma cultura com a qual as pessoas podem lidar. Consumidores têm tido acesso a câmeras há muito tempo, e em 1999 começaram a ter acesso a softwares de edição de vídeo. Nós vimos, no começo de 2000 – 2002, a popularização das tecnologias de gravação de CD e DVD, e mais computadores eram construídos e mais câmeras eram construídas. Então acompanhamos essa evolução, e acho que em 2004, 2005, quando vemos o surgimento dos sites de compartilhamento de vídeo, sinto foi a última peça no quebra-cabeça para distribuir e compartilhar de maneira fácil, para fazer do vídeo um artefato tangível que as pessoas possam mexer e remixar. A cultura do remix é algo muito significante no momento, muito popular.

O segundo ponto, há um professor chamado John Hardly que fala do fato de que estamos chegando numa época em que a maneira como o homem produz sentido do seu mundo ao redor é por meio de um processo de edição que gera novo significado. Então não é apenas sobre editar conteúdo para torná-lo mais conciso, mas é sobre desmontar as coisas e juntá-las novamente de formas diferentes.

E o melhor argumento disso é que estamos vivendo em uma era que tem tanta plenitude, tem tanto, que ninguém consegue ir além. Sim, você pode saber muitas coisas, mas tem tanta coisa que está acontecendo que nós, como pessoas, como humanos, estamos ficando melhores em juntar as coisas, em editar, sabe? Você junta o seu RSS feed com seu computador, e você organiza um arranjo diferente das coisas.

Isso pode estar completamente desassociado, você tem um gadget de blogs alí, você tem webcomics, você tem notícias sobre música, você tem notícias do mundo de 2 ou 3 diferentes serviços, e tem fotos de gatinhos do site I can has cheezburger, e você junta tudo e organiza tudo em um só lugar porque isso permite que você lide com as coisas que você precisa lidar. E crie sentidos para o mundo.

Dificilmente alguém iria discordar que aqui temos um processo de reedição. Então, acho que o remix surge porque o vídeo é tangível, e estamos nos movendo para uma era onde o entendimento é ampliado cada vez mais através da combinação de diferentes coisas, e o que talvez vemos é que a cultura do remix é parte dessas tendência pra viabilizar essa reedição.

Pode ser que antes você visse algum video sendo editado de forma similar a um wiki porque algum editor profissional estava fazendo isso para um show, ou em um exercício de escola, ou para o Oscar, ou qualquer coisa. Mas agora as pessoas estão fazendo isso em casa, pessoas que não sabem quais são as regras, que estão fazendo as regras gradualmente, pessoas que nunca foram instruídas sobre mover graus de fade antes de cortar, ou qualquer coisa do tipo. As pessoas estão aprendendo fazendo, descobrindo coisas novas, testando técnicas que viram fora dali, às vezes sem saber que estão testando novas técnicas; estão apenas fazendo coisas que parecem certas.

Então você tem remixes que são cortados em cada mínima batida da música. Sabe como? Porque tem uma batida da música que faz “tududududud…”, que é muito legal, e eles pensam: “eu adoro este efeito, então vou usá-lo o tempo todo”, e isso provavelmente vai fazer seu olhos sangrarem – do ritmo tão alucinante -, mas isso não importa, porque tem pessoas que gostam de ouvir o que eles fizeram. As pessoas estão se dando conta de como isso [o processo de edição] é legal. Como em todas as práticas culturais, agora a gente começa a gerar coisas novas, novas práticas, e algumas vezes descobrimos práticas antigas, e outras tropeçamos em coisas que nem sequer compreendemos o que era…

Um dos meus vídeos favoritos no Youtube poderia provavelmente ser definido com vídeo-arte. Essa é provavelmente a melhor maneira de pensar sobre ele, mas eu tenho certeza que as pessoas que estão fazendo não pensam que estão produzindo vídeo-arte. Não se consideram “artistas” e talvez não tenham visto muitos vídeos de arte. Eles apenas estão fazendo essa coisa que a cultura faz, juntaram um grupo deles, como uma comunidade, e estão editando estes vídeos. E isso é ótimo.