Archive for December, 2009

NEWSGAMES: ENTREVISTA COM FRED DI GIACOMO

// December 26th, 2009 // 1 Comment » // ENTREVISTAS, INFOGRAFIA, JORNALISMO

Conheci Fred Di Giacomo numa mesa que participamos juntos em Florianópolis, na Semana de Jornalismo Digital da UFSC (e que teve também a argentina Maria Arce). Fred é um dos principais caras que fazem os newsgames da Abril – pelo menos na Superinteressante, na Mundo Estranho e no núcleo Abril Jovem. Já escrevi algumas vezes sobre os newsgames da Super, que produziu alguns dos melhores que já vi no Brasil.

Abaixo, umas perguntas que ele me respondeu por email.

Como é que você foi parar na área de newsgames? Qual sua formação? E como, quando e por que a Abril resolveu começar a desenvolver newsgames?

Eu sou formado em jornalismo pela Unesp – Bauru, mas sempre puxei para a área de multimídia. Meu estágio foi em Rádio e TV, e na faculdade eu desenvolvi vários projetos de audiovisual, além de fazer o site do meu fanzine na raça, usando Front Page e html basicão. Quando passei no Curso Abril (2006), caí num grupo que deveria desenvolver uma revista digital para a Capricho. De lá fui contratado para o site da Mundo Estranho, no qual criamos jogos, testes, vídeos e podcasts.

Quando voltei a trabalhar no Internet Núcleo Jovem (novembro/2008), o Rafael Kenski era o editor e estava começando a produzir newsgames. Ele nem conhecia esse termo. Achávamos que estávamos criando os “jogos jornalísticos”, com a experiência que o núcleo já tinha em infográficos online. Foi aí que eu me envolvi com esse formato e foi aí que a a Abril começou a desenvolvê-lo. Não foi uma iniciativa corporativa, foram iniciativas pessoais.

Como é seu dia-a-dia?

Hoje eu sou o editor da Internet Núcleo Jovem, então acumulo algumas funções mais burocráticas, além de tocar esses projetos especiais, como os newsgames. Eu chego no trabalho por volta de 11h e fico até umas 20h30. Coordeno uma equipe de mais 6 pessoas que cuidam dos sites da Mundo Estranho, Superinteressante, Guia do Estudante e Aventuras na História. Abro o dia me atualizando com as notícias, via Twitter, RSS e portais. Faço algumas reuniões. Temos reuniões de pautas semanais no Núcleo e também faço reuniões semanais com os editores das revistas. Geralmente tocamos uma produção multimídia por mês e atualizamos os sites diariamente com notícias, blogs, enquetes e um pouco de conteúdo ligado às edições impressas. Reuniões com TI, fornecedores, marketing e publicidade também fazem parte da rotina.

As equipes dos newsgames da Abril costumam ser grandes – roteiro, apuração, programação, design… Com quantas pessoas trabalham normalmente? O que faz cada um?

As equipes de newsgames incluem gente da nossa equipe fixa (que também toca todos os sites) trabalhando com  frilas. São no mínimo 5 pessoas por produção (editor, repórter, designer, programdor e ilustrador). Às vezes aproveitamos uma apuração que o repórter tenha feito para uma matéria da revista, em outras pagamos alguém pela apuração. O editor coordena a parte de texto do newsgame e muitas vezes também é responsável por desenvolver o roteiro e a mecânica do jogo. O designer cuida do layout e coordena o trabalho do ilustrador e do programador.

O que você acha necessário que um jornalista saiba para trabalhar com newsgames? Quais os pré-requisitos?
É importante que o jornalista tenha alguma experiência como gamer, para ter referências de mecânicas e também de estética, de jogabilidade. Conhecimento de infográficos online e outras narrativas multimídias (vídeos, slide shows, etc) também são bem-vindas. E,claro, a pessoa precisa ser criativa.

Games são entretenimento. Jornalismo trabalha com notícia. Como fica essa mistura? Não há risco de cair muito para o entretenimento e acabar esquecendo “qual é o lead” do game? Como vocês trabalham esta questão?

Essa é uma das principais discusões que temos na equipe. Como aliar a diversão e a informação de uma forma equilibrada? Não existe uma fórmula, newsgames são uma linguagem nova. O Rafal Kenski tinha uma ideia legal sobre isso. Quando você estiver com a ideia do jogo pronta pergunte: “ele diverte? ele informa?”. Se cumprirmos essas duas missões, estamos no caminho certo. Sem informar, o newsgame é só game.

Games, infografias interativas… Esse é um futuro para o jornalismo? Por onde vamos?

Acho que o jornalismo tradicional sempre vai existir. Demora bastante pra produzir um newsgame, não dá pra noticiar a morte de um presidente só quando o infográfico ficar pronto. Mas esses serão os “cadernos especiais, as grandes reportagens do século XXI”. Acho que só estamos começando a explorar, de verdade,  as linguagens multimídia agora. Temos muito caminho para desbravar no universo do jornalismo online.

DOCUMENTÁRIOS PARA BAIXAR

// December 15th, 2009 // 9 Comments » // JORNALISMO

Foi-se (ou está indo) a época em que o barato dos estudantes de jornalismo era fazer um livro reportagem usando técnicas do new journalism. Agora, parece, a onda é o documentário. Quem sabe na década seguinte veremos as reportagens multimídia pegando no breu.

De qualquer forma, as faculdades parecem continuar formando apenas redatores, preparando, no máximo, um jornalista cujo sonho é ser empregado num jornalão pra reclamar do editor vendido/carrasco/direitoso/todas as anteriores. Creiam, existe vida fora da grande imprensa.

Mas este post nem é pra falar isso.

Deu um boom de bons documentários ultimamente. Mas os clássicos também são muito bons. Andei perguntando por aí o que vale a pena ver. E baixar, aliás. O jornalista Felipe Lavignatti me mandou uma lista dele, a qual acrescentei algumas coisas, mais 3 filmes de uma lista do Pedro Valente.

COMO FAÇO DOWNLOAD DOS DOCUMENTÁRIOS?
O primeiro passo é saber o nome original do documentário. Procure no Internet Movie Database. Depois, faça uma busca em sites de torrent, como estes aqui. A maioria deverá estar sem legenda – aí você busca separado, legendas pt-br (português do Brasil). Players como o Classic ou o VLC podem juntar, depois, as legendas com os vídeos.

Abaixo, uma lista com algumas coisas sugeridas pelo Lavignatti:

Crips And Bloods Made In America
(dirigido por um ex-skatista, Stacey Peralta). O cara praticamente inventou o skate na california nos anos 60. Estreou em filme contando a história da turma de skate dele. O doc gerou um filme ficção. Mas esse conta outra história, a das gangues de Los Angeles. Usa muito bem recurso gráfico pra mapas mostrando qual gangue domina que pedaço. É mais ou menos explicando o efeito Rodney King. Como se no Brasil fizessem um falando como os morros cariocas foram tomados pelo CV e pelo Terceiro Comando. Aqui pelo Pirate Bay.

Crumb
(sobre o Robert Crumb, tá na lista dos 1001 filmes daquele livro de mesmo nome. O Diretor é Terry Zwigoff , que, depois, passou pra ficção. O cara é bom)

Gonzo The Life and Work of Dr Hunter S Thompson
Muito foda pra jornalista esse. Mostra como o cara era bom em reportagem. Mesmo se tratando de um filme sobre um suicida, tem final feliz. Feito pra HBO. Pirate Bay.

häxan
Documentário sobre bruxaria. É sueco, mudo e feito em 1922. Sem saber direito o que é ficção ou doc, o diretor mescla as duas coisas. Torrentz.

Im Toten Winkel Hitler’s
“Eu fui a secretária de hitler”. Mal filmado pra porra. Mais de uma hora duma véia falando pra uma câmera, sem fotos, sem mudança de plano nem nada. Mas segura pela história da véia. Parece uma fita bruta de uma entrevista qualquer, só que a mulher não é uma qualquer, ela ficou no bunker até o bigodinho se matar.

Jonathan Ross in Search of Steve Ditko
Um cara atrás do desenhista co-criador do Homem aranha. O cara é recluso, é o trabalho do repórter de achar. No fim ele acha, mas não filma. Interessante.

Paradise Lost
História duns moleques acusados de assassinato, só que sem provas. Tudo porque eram metaleirinhos. Os diretores passaram a fazer sucesso depois desse doc/denúncia e dirigiram o documentário do Metallica (SOme Kind OF Monster), que é bem bom também.

Roman.Polanski.Wanted.And.Desired
Parecido com docudrama. Conta a vida de bonvivant do polanski até ser acusado de estupro de menor. Mostra cenas de filmes dele para ilustrar a personalidade do diretor.

Joe_Strummer:_The_Future_Is_Unwritten
(Sobre o líder do THe CLash). Sobre o filme, tem mais aqui, na Wikipedia.

Standard.Operating.Procedure
Esse mostra o que foi crime e o que não foi em Abu Ghraib. [N.E.: É de um dos mais famosos documentarias americanos, Errol Morris. O livro também é muito foda, e tem tradução para o português]

Stranded – The Andes Plane Crash
Docudrama sobre a queda do avião nos Andes, que originou o filme Vivos. Muito foda. Eu demorei alguns minutos pra perceber que era reencenado.

The Bridge
Sobre os suicidas da Ponte Golden Gate. Esse é polêmico e faz pensar um pouco sobre o papel do jornalista. Leia isso.

Da lista de Pedro Valente:

The Corporation
Uma aula de como a figura da “corporação” surgiu, passou a ser vista pela lei como uma pessoa com direitos e deveres e acabou causando mais mal do que bem pra sociedade. O filme mostra como o diagnóstico de um psicopata se encaixa direitinho com os traços de “personalidade” das grandes empresas. Site oficial aqui e torrent aqui.

Good Copy Bad Copy
Documentário sobre direitos autorais, música e filmes nos dias de hoje. Muito bom porque foge daquela visão fechada nos EUA e vai na Suécia falar com os caras do Pirate Bay, na Nigéria pra mostrar a maior indústria cinematográfica do mundo – com produções de dar inveja ao Zé do Caixão – e vai a Belém do Pará pra investigar o movimento Tecno-brega, a pujante indústria do remix local e da “aparelhagem”. Além de falar com cabeções do assunto como o Lessig. Site oficial e download do torrent aqui.

Sicko
Esse é o filme novo do Michael Moore, que desce o pau na indústria dos planos de saúde dos EUA. Não é distribuído de propósito pela rede, mas teve um conveniente “vazamento” assim que rolou o boato de que seria proibido por ter uma parte filmada em Cuba ou outra desculpinha qualquer.  Ele  mostra ao redor do mundo como governos do Canadá, Reino Unido, França e Cuba cuidam da saúde,  expondo a vergonheira que é o sistema dos americanos. Torrent aqui.

Zeitgeist
Pra quem gosta de teorias da conspiração esse é um prato cheio. Achei legal a explicação de que Jesus e todos os seus “clones” anteriores são na verdade alegorias para constelações e o Sol, equinócios e solstícios e tudo mais. Se for verdade o que eles dizem faz bastante sentido. Aí depois enfiam tudo que é conspiração no mesmo balaio e fica um troço meio chato. Vem o 11 de setembro, segunda guerra, o FED e tudo que você puder imaginar. Vale pela primeira meia hora. No Google Video via site oficial.

Meus acréscimos

Steal this film I e II
Gostei muito, na linha do Good Copy, Bad Copy. E é um projeto interessante, sobretudo, de contravenção ao copyright. Baixe aqui.

PBS Frontline
É um programa fodidaço da rede pública de TV norte-americana, que ganhou todos os prêmios possíveis. Exemplo de bom jornalismo. Dá uma olhada aqui.

Ashes and Snow
A melhor fotografia que já vi num documentário na vida. Esse é o site oficial, mas dá pra baixar o filme por aí.

Thin Blue Line
Esse é do Errol Morris também, mas de 88. Docudrama, assisti em Cuba, num curso de roteiro / documentário. Umas infos aqui.

Gimme Shelter: The Rolling Stones. Uncut. Uncensored. Unsurpassed
Maysles Brothers (1970). Sobre a morte de um cara durante o show em que os Hells Angels fizeram a segurança.

Salesman (1968)
Também deles, mas é o filme mais legal que já vi de cinema verité. Também conhecido como Fly On The Wall – ou seja, grava tudo, como se a câmera não estivesse lá. Depois edita como ficção. Animal.

Don’t Look Back
Filme de D.A. Pennebaker, sobre Bob Dylan. Também é muito, muito bom.

Buena Vista Social Club
Todo mundo já viu, ok. Win Wenders (1999). Mas precisava estar aí.

O Equilibrista (Man on Wire)
Ainda não vi, mas um monte de gente já me disse que é muito bom. Oscar 2009. Olha, vi nas férias agora, gostei, mas como muita gente falou, fiquei com uma expectativa alta demais. Gostei mais de outros aí da lista de cima. UPDATE: Passado um dia, acho que é realmente um pusta filme. Fiquei aqui pesquisando sobre, achei entrevistas ótimas aqui e aqui. Não é um filme só sobre a caminhada entre as torres, mas sobre determinação, poesia e loucura inconsequente. Uma ode a tudo isso, aliás.

Alexandre Praça me passou algumas anotações também, num caderninho que achei aqui em casa:

Nick Broofield
Qualquer coisa do cara. Aqui tem o site dele. Fez um doc sobre a morte dos rappers Tupac Shakur e Biggie Smalls.

Chronique d’un été
A experiência do Edgar Morrin no campo dos documentários. Tem um texto sobre isso aqui, e vários outros na rede.

Night Mail
Documentário de 1936 sobre Londres. Na wiki.

Dignidad de los Nadies
Do Solanas, argentino.

E você? Indica alguma coisa?

PARTIDO PIRATA: ENTREVISTA COM AMELIA ANDERSDOTTER

// December 11th, 2009 // 2 Comments » // CulturaDigitalBR, ENTREVISTAS, JORNALISMO

Amelia Andersdotter é a mais jovem membro do Parlamento Europeu. Com 22 anos, eleita pelo Partido Pirata sueco, e empossada agora em dezembro, ela esteve no Brasil em novembro para o Seminário Internacional de Cultura Digital Brasileira, realizado em São Paulo.

ameliaivojose

Em paralelo à programação oficial, rodas de conversas entre os participantes foram organizadas e gravadas para discutir os assuntos abordados no Seminário. Participei da conversa entre a parlamentar pirata sueca, o diretor de políticas públicas do Google, Ivo Corrêa, e o gerente de Cultura Digital do Ministério da Cultura, José Murilo Jr. (da esq pra direita, na foto).

Abaixo, os principais trechos:

Por que ser contra o copyright?
Andersdotter: É um modelo antigo e estou confiante que existem novos modelos. O Creative Commons (CC), por exemplo, está ficando mais forte. [O CC é um contrato que permite uma flexibilidade na utilização de obras protegidas por direitos autorais, sem infringir as leis de proteção à propriedade intelectual].

Os cinemas també estão indo muito bem, ficando mais fortes. Nós estamos rodeados de informação todos os dias. Uma cópia é só um produto, ninguém quer pagar por isso, mas o cinema é toda uma experiência que as pessoas estão dispostas a pagar. É um serviço. Vemos isso ocorrer com a música ao vivo, uma experiência única que as pessoas querem pagar, colocar tempo e esforço nisso. Acho que é por aí que os criadores culturais terão que ir, terão que ser mais criativos, encontrar novos modelos. E não é papel de um legislador exigir que as pessoas fiquem agarradas a um modelo que está vencido há pelo menos 10 anos.

Ivo Corrêa: E é importante acrescentar algo. É um pequeno grupo de artistas que, hoje, pode viver vendendo cópias de livros ou CDs. A maioria dos artistas não vive de vender CDs. Deveríamos gastar energia e dinheiro em novos modelos. A Apple faz muito dinheiro vendendo música online de maneira criativa. Melhor tentar descobrir o novo do que tentar lutar para manter o antigo.

Andersdotter: Muitas das políticas feitas hoje são feitas para manter o velho mercado. E as políticas públicas deveriam se focadas em permitir a participação e a colaboração das pessoas. Pensando bem, talvez, numa economia digital, sem copyright, nós não tenhamos mais um Paul McCartney dirigindo uma BMW. Talvez esse tipo de artista não possa existir mais. Eu ouço esse argumento sempre: onde estarão os Hitchcocks numa economia digital? Como eles irão surgir? Bom, nós não temos mais um Hitchcock desde os anos 60. Talvez não tenhamos que ter outro. Talvez o ambiente digital seja completamente diferente, e deva ser mesmo. E a política tem mesmo que pensar mais na política colaborativa em vez de defender os velhos mercados.

O Partido Pirata propõe mudanças substanciais nas leis de direito autoral. Mudanças no mercado de telecomunicações. Mais privacidade. Menos vigilância, nenhuma censura. Mais compartilhamento de informações, transparência, mesmo as que sejam controversas. Esses são problemas que vemos na Europa nos últimos anos: governos querendo vigiar cidadãos.

Quem são seus eleitores?
Andersdotter: A maioria homens e jovens. Existem pessoas tanto de esquerda quanto de direita. Por que mais homens que mulheres? Bem, acho que esse debate é bastante dominado pelos homens, você não vê tantas mulheres discutindo copyright. E acho que o efeito multiplicador ocorre dentro dessas estruturas masculinas.

Como o partido lida com as diferenças entre esquerda e direita?
Andersdotter: Temos bastante acordo sobre quais mudanças precisam ser feitas para uma sociedade da informação mais justa. Então há acordo sobre onde queremos chegar. Algumas vezes temos alguma discordância sobre como vamos traçar este caminho. Em geral a maioria das pessoas [do partido] é liberal. Então você tem a esquerda liberal junto com a direita liberal. A grande diferença, e o grande problema atual, é construir o mapa desta estrada para o objetivo final. Você vê a mesma coisa ocorrer com anarquistas, com socialistas, até mesmo com sindicalistas. Você olha a sociedade ideal deles e a visão é bastante similar. Mas eles têm soluções completamente distintas para chegar lá.

E isso ocorre em todos os assuntos? Meio ambiente, trabalho…
Andersdotter: Não, não. Nós não discutimos esses assuntos. Estamos totalmente voltados para inovações nas políticas culturais criativas, em geral. Mas eu poderia perguntar a mesma coisa sobre o Brasil. Me disseram que vocês têm um governo que incentiva a participação social, mas o Senado, parece, não coopera muito a respeito disso… Como vocês lidam com isso?

José Murilo Jr.: Me parece um problema de gerações. Aqui no Brasil os jovens não acreditam mais no governo. Eles preferem movimentos sociais em vez de criar um novo tipo de partido político. As pessoas me parecem mais felizes em fazer isso do que entrar nos velhos esquemas partidários. Por que vocês optaram por este caminho?

Andersdotter: Apesar de todas as redes sociais que existem na sociedade civil, quase toda regulamentação é feita nos parlamentos. Ali é o campo de batalha, ainda. E tudo o que sai do Parlamento Europeu tem impacto no mundo todo. É uma batalha importante também, mudar as coisas de dentro. Movimentos sociais são ótimos. O parlamento é mais lento. Mas, provavelmente, também é bom, em algum nível.

O modelo do Creative Commons é uma solução?
Andersdotter: Laurence Lessig [criador do CC] é um advogado. O que eu sempre observo em advogados é que eles não são contrários aos direitos de propriedade. É conveniente transformar o conhecimento em propriedade, porque facilita a criação de contratos mais amarrados, facilita a solução de conflitos. Se você quer ser radical sobre copyright, então você precisa defender o copyleft, não o CC [o copyleft é a oposição ao copyright. No copyleft, tudo é permitido]. Porque o copyleft é um modelo mais comunitário (dos “commons”). O sistema CC é mais uma maneira de flexibilizar o sistema atual de copyright.

Ivo Corrêa: O Creative Commons tem um mérito: de informar os autores que eles podem decidir como sua obra será usada. O autor fica sabendo que tem uma escolha. O principal mérito, acho, é informar as pessoas que a lei não precisa determinar tudo. No Brasil, a maioria acha que não tem opção. Que é tudo copyright.

Andersdotter: Existe uma falha nessa argumentação, que é a seguinte: consideremos que o Creative Commons mostra às pessoas que elas podem fazer uma escolha. Mas elas não deveriam ter essa escolha. Quando alguém decide criar informação, ou cultura, toda a produção deveria, automaticamente, ser livre. E, talvez, apenas em poucos casos, a escolha pudesse ser ao contrário: escolher proibir o acesso. Mas tudo, em geral, por definição, seria livre.

Mas o sistema de Creative Commons garante, ao menos, que o autor seja reconhecido pela obra. Pode tudo, desde que citada a fonte. No copyleft não existe essa garantia.
Andersdotter: Na comunidade artística, me parece que existe uma integridade mínima de não se apropriar do trabalho do outro. Se você faz um filme, não acho que niguém pegaria seu filme e colocaria o nome dele em cima. Em primeiro lugar, seria vergonhoso. Segundo, você faria inimigos. Acho que isso seria autoregulado pela comunidade. Assim, me parece que o copyleft, basicamente, resolve tudo.

*Texto feito originalmente para o jornal Brasil de Fato.

PIRATARIA TAMBÉM É POLÍTICA

// December 9th, 2009 // 2 Comments » // JORNALISMO

Nos anos 80, quando alguém copiava uma fita de música ou gravava a novela das oito no video-cassete pra ver mais tarde, ninguém chamava isso de crime; hoje, ao emprestar um tocador de MP3 de um amigo e copiar suas músicas ou baixar da internet algum filme, você pode ser processado por algumas das maiores empresas do mundo. As leis são as mesmas, mas agora o cenário mudou:  gravadoras e distribuidoras estão em crise. E um dos culpados pela crise, segundo eles, pode ser facilmente identificado: é você.

Nos últimos anos, processar usuários de internet e fechar sites de compartilhamento de arquivos tem sido a estratégia das maiores empresas do mundo da música. Paradoxalmente, a criminalização da troca de arquivos online deu início a um movimento contrário: a luta pela alteração do atual sistema de propriedade intelectual e direito de cópia – o chamado copyright. Assim surge, na Suécia, em 2006, o Partido Pirata. De lá pra cá, a ideia se espalhou pelo mundo e partidos piratas começaram a se organizar em pelo menos 25 países. Entre eles, o Brasil.

“Eles criaram um fórum internacional, abriram tópicos por país, de gente interessada. No segundo semestre de 2006 um grupo começou a organizar o partido no Brasil. Eu participei desde o começo”, explica Jorge, membro do grupo de trabalho de Comunicação do Partido Pirata do Brasil, porta-voz de São Paulo, que prefere não usar o sobrenome. “No caso do Brasil, em 2007 e 2008 houve uma expansão, mas não foi tão grande. Em 2009 sim. Os partidos piratas crescem no mundo conforme cresce a repressão”, diz.

A repressão a que Jorge se refere foi o projeto de lei que ficou conhecido como Lei Azeredo, e foi chamado até mesmo de AI-5 digital, em referência à lei que instaurou a ditadura no Brasil. Proposto pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que alegou ser um projeto contra crimes cibernéticos, o texto foi atacado em diversas frentes e terminou praticamente enterrado quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em fevereiro, que vetaria a lei, se fosse aprovada no Congresso, por considerá-la  censura.

“O AI-5 digital ajudou o Partido Pirata crescer. Em janeiro fizemos o primeiro encontro presencial, no Campus Party, uma desconferência com umas 35 pessoas. Hoje temos cerca de 1.500 pessoas cadastradas e coletivos em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife. Estamos próximos da legalização. Mas concluímos que, mais importante que legalizar, é ter um estatuto colaborativo. A ideia não é ser uma filial do partido sueco, mas um partido com cara brasileira”, diz Jorge.

As diferenças entre o Brasil e a Suécia não são poucas. O Partido Pirata sueco nasce com apenas três pontos em sua plataforma política: alterar a lei do copyright para que todo o conhecimento e produção cultural possam ser copiados, se não forem usados para fins comerciais; abolir o sistema de patentes; e respeitar o direito à privacidade. No Brasil, além dessas bandeiras, existem várias outras. “Aqui, batemos muito na transparência”, diz o porta-voz do Partido Pirata do Brasil. “Lá, até o conteúdo dos emails dos parlamentares são públicos. Aqui, lutar pela transparência na política ainda é importante. A questão da inclusão digital, banda larga, também é muito importante. Banda larga não é um problema por lá. E o uso do software livre e formatos abertos na administração pública. Quebrar os monopólios. Essa é a diferença principal. O resto não é muito significativo.”

Segundo Jorge, o momento do partido agora é de estruturação da rede brasileira, organizar os coletivos locais em encontros presenciais, não apenas no mundo online. A legalização do partido será consequencia. Jorge não acha, também, que as alianças no Brasil seguirão as tendências suecas. “Lá são aliados do PV, aqui é difícil que isso aconteça. A gente bate forte na transparência, e os partidos tradicionais não defendem isso. Não queremos repetir as mesmas práticas dos partidos tradicionais.”

*texto produzido originalmente para o jornal Brasil de Fato.

MANY EYES: INFOGRAFIA DO ESTADÃO

// December 4th, 2009 // 5 Comments » // JORNALISMO

Vale prestar atenção no que anda fazendo o Daniel Jelin, editor de especiais do Estadão. Depois de ter feito algumas das poucas experiências brasileiras com newsgames (ele fez o SuperTrunfo do Brasileirão), agora usou o software Many Eyes para apresentar infografias sobre assassinatos no Brasil.

O Many Eyes é um projeto da IBM, que aposta que o que falta não são dados, mas visualização inteligente deles. Assim, fornece ferramentas para qualquer um montar gráficos interessantíssimos. (Uma crítica boa que vale ser feita ao software é que nada é livre, nem os gráficos são exportáveis, nem nada; tudo fica preso lá dentro. Mas é claro: é um projeto da IBM.)

Jelin uma vez me disse que poucos comentam isso, mas para ser jornalista multimídia, especialmente em trabalhos como esse, o chamado jornalismo de banco de dados, o sujeito tem que ser “pé-de-boi”. Ou seja: trabalhar bastante, preenchendo tabelas repetitivas, checando três vezes tudo de novo depois. Tem gente que não agüenta (”mas eu queria sair na rua e conhecer o mundo”. “senta aí moleque e termina essa tabela”).

Esse é um desses casos. O resultado é sensacional. Mas precisa de um pé-de-boi pra preencher os dados e gerar as planilhas…

Abaixo, o Daniel Jelin conta um pouco como fez a coisa:

o datasus é a base de um certo mapa da violência no brasil, que a gente representou lá mesmo no blog, com dados até 2006 (http://blogs.estadao.com.br/crimes-no-brasil/2009/11/10/a-geografia-da-violencia/). um dia eu soube pelo jose roberto de toledo que a base havia sido atualizada com os dados de 2007. o próprio toledo me chamou a atenção para alguns pontos interessantes, como o fato de o rio de janeiro ter passado são paulo em número de homicídios. bom, fui ao datasus, comecei a gerar planilhas e mais planilhas e procurei o bruno paes manso. o bruno cobre e estuda violência tem 10 anos. é dele a ideia do blog, e foi ele que me convidou pra participar. a gente deu uma olhada na montanha de dados e nos decidimos pelas séries históricas. como a coisa tem evoluído nas grandes cidades? pensamos a princípio em trabalhar só com capitais ou só com as dez cidades mais violentas. é um recorte que a gente faria, tipicamente, se tivéssemos que produzir nós mesmos os gráficos, no flash, no illustrator, ou coisa parecida (dá uma trabalho danado mexer com montanhas de dados). mas não temos que inventar a roda, né? não, não temos. o manyeyes – é o que eu acho mais maravilhoso – permite que o jornalista faça um recorte, e o leitor, tantos quantos mais quiser. e tem ainda uma otura coisa, super sutil e interessante, que é preservar separadamente o conjunto de dados (’datasets’) e suas representações gráficas (’visualizations’). você sobe a base e pode testar à vontade, até chegar na ‘visualization’ que mais lhe agradar. e ainda funciona como rede social! quer dizer…  quer mais o quê? eu quero mais é que eles continuem investindo na ferramenta e – isso é importante – que lancem logo uma versão em português.