COMUNICAÇÃO DIGITAL: ENTREVISTA COM EUGÊNIO BUCCI
// October 27th, 2009 // CulturaDigitalBR, ENTREVISTAS
Esta entrevista faz parte da série que investiga o campo da comunicação digital, para o Fórum da Cultura Digital Brasileira. As mesmas questões foram enviadas para várias pessoas e o resultado serve de base para as discussões no grupo de comunicação digital, dentro da plataforma do fórum.
Também serão compiladas no documento final do Fórum, e serão discutidas durante o encontro presencial que ocorrerá na Cinemateca, em São Paulo, entre 18 e 21 de novembro.
O debate é aberto, portanto, todos os que quiserem participar, seja respondendo as questões, seja discutindo as respostas, estão convidados. A caixa de comentários está aberta, assim como o site do Fórum e o grupo de comunicação. E sinta-se convidado para comparecer pessoalmente ao debate, na Cinemateca. Quem não puder ir poderá acompanhar via transmissão online e participar pelo chat.
Abaixo, as respostas do professor Eugênio Bucci:
Qual seria o campo da comunicação digital?
Atenção: o campo da comunicação digital é todo o campo da comunicação. A comunicação digital não recorta, não reparte. Ela só pode ser entendida quando visualizamos que ela expande o campo anterior, abrindo vasos comunicantes entre áreas que antes viviam estancadas em si. A comunicação digital energiza, capilariza e oxigena todo o corpo da comunicação. Ela está também no jornal impresso, preste bem atenção. As redações são redações digitais, todas elas, que escoam seus “conteúdos” por diversos suportes, simultaneamente. Mas seu núcleo já é digital. Acomunicação digital está nos impressos porque ali os textos FORAM PROCESSADOS DIGITALMENTE, com a possibilidade de diálogos que antes não podiam acontecer, mas agora acontecem e são registrados sobre o papel, com fotos enviadas por celulares, entrevistas por e-mail, contestações de bolgs, referências a outros sites. A comunicação digital está na tv. No rádio, no telefone, em toda parte. E o que ela mais pode proporcionar é a interação (não a interatividade, que é uma categoria do consumo). Ela dá mais velocidade aos mecanismos da esfera pública e propulsiona o ritmo do mundo da vida.
Quais são os principais atores deste campo?
Que atores? O imposto de renda é um, serve? O eleitor serve? (lembre-se de que a urna é eletrônica). Não entendo o que você quer me perguntar com isso. O laboratório de análises clínicas é um agente desse campo (a gente pega os resultados pela internet). As agências de viagens, as bibliotecas, as lojas de músicas, as reservas de teatro, a prostituição (inclusive a infatil, veja que fatalidade). Ora, todos os agentes públicos e privados em movimento no espaço público adquirem uma nova dimensão (uma espécie de avatar autorizado, oficial, fidedigno) na esfera digital. E agem aí. Os principais atores, portanto, lamento desapontá-lo, são: o cidadão, os agentes da administração pública, as empresas… Você vai me dizer “são os mesmos de antes” e eu vou responder “sim, são eles, mais os novos, que entram em cena agora, como as ongs, os sites colaborativos, o mundo acadêmico”. Agora, será mais difícil militar contra a transparência. Os governos, claro, ficam atrasados nisso (inclusive porque não têm interesse na transparência), mas vão sendo levados de roldão.
Quais os principais problemas?
Eu apontaria três problemas:
1. Os velhos formatos da máquina pública, que recusa a transparência e a agilidade. Em outras palavras, a velha burocracia, que favorece os interesses dos encastelados, das quadrilhas ou dos partidos, depende do ângulo, das turmas, das famílias oligárquicas. Esse primeiro problema se manifesta como um BLOQUEIO contra as potencialidades da cultura digital.
2. As novas formas de uso malicioso da comunicação (há exemplos fartos no “culto do amador”, do keen). Trata-se de fato de um grande problema. Os conglomerados do mundo empresarial se disfarçam de blogs domésticos para difundir suas propagandas e seus lobbies. Além disso, há a baixaria generalizada, que ganhou novo impulso, o anonimato criminoso, que trabalha pelo rebaixamento dos padrões do debate público e pelo rebaixamento cultural. Há as ações das claques partidárias sabotando, mesmo, o livre fluxo das idéias. Temos percebido que várias claques organizadas (as pardiárias em destaque) não acreditam na democracia, no debate objetivo, na verificação da verdade; têm apenas uma visão instrumental da comunicação e procuram instrumentalizar a esfera digital. Um senhor problema.
3. O fetichismo da tecnologia. Aí, temos o deslumbramento dos que idolatram a tecnologia como se ela substituísse os processos sociais. essa mentalidade acaba sendo apenas uma propaganda involuntária de maquininhas, mas não resolve nem entende a democracia.
E que políticas públicas poderiam existir para melhorar o cenário?
Financiamento público do jornalismo independente, sem dúvida. Estímulo para a constituição de redações independentes — desvinculadas de ongs, de governos e também de mecanismos de comércio. Um fortalecimento, com base em critérios democráticos e transparente, da comunicação pública, de fato.
Leia também a entrevista com Beth Saad, também parte da pesquisa do eixo de Comunicação Digital.





[...] o momento histórico pelo qual passamos, propondo por isso a idéia de “mutações”. Eugênio Bucci refletindo sobre a dilatação do presente, esse nosso tempo de estar fazendo, de gerundiando, e [...]
A entrevista é ótima. Mas tem um porém. Juro que li a frase dezenas de vezes mas não consigo entender o que o Eugenio quer dizer com “Estímulo para a constituição de redações independentes — desvinculadas de ongs, de governos e também de mecanismos de comércio”. Isso aí é alguma forma de utopia ou o que?
Grande Alê,
acho que dá pra traduzir como “jornalismo público de verdade”.
existe?