Archive for September, 2009

COMUNICAÇÃO DIGITAL: ENTREVISTA COM BETH SAAD

// September 28th, 2009 // 5 Comments » // CONVERGÊNCIA, CulturaDigitalBR, ENTREVISTAS

A entrevista é parte do processo de construção do eixo de Comunicação Digital do Fórum de Cultura Digital.Br

Andre Deak: Essa é uma conversa sobre a delimitação do campo da comunicação digital. No livro Cultura Digital.Br (baixe aqui), a primeira pergunta para todos os entrevistados é “o que é a cultura digital?”. E há inlusive uma disputa semântica de termos: cibercultura, cultura digital. Mas todos entendem que a cultura digital não é simplesmente a digitalização – o analógico tornado digital. Dizem que muda muito mais, que é uma mudança estruturante da sociedade.

Beth Saad: Concordo.

Na comunicação é possível o mesmo paralelo?

Tem um complicador. Não dá para negar que vamos continuar tendo os meios tradicionais. Mas maioria tende a limitar a comunicação digital às ações de relacionamento no ciberespaço. E não acham que isso vai envolver todos os demais suportes.

Mas a comunicação digital vai envolver tudo simplesmente porque o ciberespaço será onipresente, ou mais que isso?

Mais que isso. Algumas coisas vão acontecer no ciberespaço, mas várias outras coisas estarão digitalizadas e vão envolver a lógica digital, de trocas, de bits. Um jornal impresso, hoje, se faz com meios digitais. A lógica digital é o grande chapéu do processo de comunicação. Uma parte do processo é o meio digital puro. Relacionamento com o público: o que vai fazer a diferença é se a relação é unilateral, bilateral, multilateral. O que vejo hoje é que se delimita o relacionamento no mundo virtual como se ele não se misturasse com os demais. Não acredito nisso. Tem que se misturar. Se você se propõe a entrar nas redes sociais, e abrir conta no twitter, no facebook, esse processo vai desembocar em outros processos não são tão virtuais assim. Existe toda uma integração que ainda não está clara. As pessoas acham que o que está no virtual ficará no virtual. Mas não é assim.

Cada vez mais estamos tirando o intermediário do processo, falando diretamente – o gestor, produtor com o consumidor. Isso vai afetar todo o resto. Sinto uma grande dificuldade, especialmente nas corporações privadas. Esse povo tem dificuldade em aceitar essa proximidade. Isso ainda assusta.

O Marcelo Tas diz que o digital, do termo cultura digital, uma hora desaparece, porque tudo será digital. Na comunicação também?

Eu diria que sim. A gente fala em comunicação digital hoje porque existe uma necessidade didática de organizar as coisas em caixinhas. Mas cada vez mais as coisas da comunicação vão ocorrer num pacote único. E sempre haverá um processo, ou parte dele, que ocorre em bits. Vamos colocar um tempo aí ainda pra isso acontecer, mas será assim.

O campo da comunicação digital, portanto, será o campo da comunicação?

Será. Hoje ainda está restrito ao ambientel virtual.

O livro Cultura Digital.Br talvez seja um exemplo interessante. Ele inverte a lógica com a qual estamos acostumados. O livro, impresso, não é resultado final do processo, mas ao contrário: é o início do processo, um caderno de provocações. Que depois é discutido no virtual – a plataforma www.culturadigital.br .

E as pessoas ainda estão na lógica do linear em que sempre haverá algo palpável no final. Teremos aí um tempo de convivência, entre comunicação digital e tradicional. Hoje o digital é um subcampo.

E quanto aos atores? São os mesmos do campo e do subcampo?

Enquanto competências e habilidades, todos precisam pensar no digital. Mas há uma questão de geração que causa alguns impedimentos… (risos). Para ter um conjunto de atores com este pensamento, é preciso formação destes atores. Hoje a gente mantém a formação do comunicador de forma compartimentada. Ou é jornalista, ou publicitário, ou RP. Enquanto não inverter esse processo de formação básica, sempre haverá no final do processo alguém querendo fazer só livro em papel.

Vejo a formação como algo que irá modificar a mudança do campo. É muito diferente eu ensinar de modo compartimentado do que ensinar a trabalhar com grandes temas. Uma coisa é ensinar a fazer um anúncio para o impresso, outra é pedir para o aluno conceber uma campanha crossmedia, cross-suporte. Se ensinar a pensar sistemicamente, o digital entra naturalmente no processo todo. É preciso mudar o início.

Pense como seria a ECA como um pacote único, e não mais compartimentada. Essa é a proposta mais extrema. E isso não é só no Brasil. Veja a discussão do Protocolo de Bolonha.

Como é isso?

O Protocolo de Bolonha propõe que o aluno europeu possa frequentar o seu curso em vários países. Para isso, houve um prazo de cinco anos para que as universidades da Europa se adaptassem, currículo similar, número de créditos. Para que quem quiser faça um pouco na Inglaterra, um pouco na Espanha, e saia comunicador. Poderíamos, com essa nova proposta, acrescentar umas aulas na história.

Eu conversei com Ramon Salaverría, que atualmente é chefe do depto de jornalismo em Navarra, perguntei para ele: vocês reformaram o curso e incluíram todo o curso de comunicação no pacote? Não. Continua jornalismo, apenas. Não abriram mão. Isso reflete um certo patamar da sociedade que não aceita o fim do cartesianismo, na Europa mais que tudo. Ainda demora um pouco. Apesar do público final já ver que a coisa é outra, as estruturas sociais continuam fechadas.

Aproveito para abrir para sua análise do campo. Falou dos empresários e da universidade…

E tem a comunicação pública. Tem um lado muito adiantado, que é a comunicação de serviços: governo eletrônico, imposto de renda, agenda o INSS pelo computador. Eleição. Tem um avanço bom. Mas não é comunicação, apenas meios facilitadores para reduzir o tempo. Não significa espaço para relacionamento.

Para as empresas também. Você compra uma passagem de avião, usa o home banking, mas se tiver algum problema….

Pois é. Teve o caso do sujeito da United Airlines.

A United perde o violão dele, ele reclama e ninguém faz nada. O cara é músico, fez uma música sobre a história, o vídeo estoura (5,6 milhões de views no momento deste post), a empresa fica em crise. A música dele vai para as primeiras paradas do Itunes, ele ainda ganha dinheiro. Aí a empresa corre atrás. Isso é um processo típico do mundo digital. As empresas tem um medo do cão. O cara fala mal no YouTube. O que a empresa faz? Em geral, usa respostas do mundo tradicional para dialogar com o digital. Processa o cara. As pessoas não querem buscar a solução – responder no mesmo formato, conversar.

A última parte: que políticas públicas poderiam ser feitas para avançar esse processo?

De novo, agir na base. Política pública de comunicação digital tem que ensinar isso para as crianças, muito mais do que oferecer facilidades. Mudar o modo de pensar. Se tiver que pensar em política pública, eu diria no ensino, nas escolas, no campo comunicacional.

Daí é um problema oferecer o instrumento, mas bloquear orkut, msn…

Nem mostrar que existe. A gente tem políticas já, como o computador para todos, mas isso não resolve se você não entender que o processo de relacionamento é outro na rede. Ensino à distância. E-learning. O cara acha que é só colocar o teste na rede, depois fazer uma prova… E tudo bem. É a mediação que vai fazer o processo de aprendizagem ocorrer. E hoje o mercado não tem mediadores. Na educação, nos serviços. As pessoas não entenderam ainda este papel: alguém que vai promover os grupos, alimentar a conversa. Isso não tem. E isso será o papel do comunicador.

Estive num congresso agora, em que a maioria das pessoas era jornalista ou publicitário. E eu disse que haveria uma transformação, no sentido de começar a mediação. E houve uma reação assim: mas eu não vou mais escrever? O que eu vou fazer?

Está muito difícil das pessoas entenderem…

CIBERCULTURA 10+10

// September 18th, 2009 // 1 Comment » // CulturaDigitalBR, JORNALISMO

Gilberto Gil, Pierre Levy, André Lemos, Laymert García, Alfredo Manevy, Cláudio Prado e Sérgio Amadeu, juntos discutindo a cibercultura.

Ainda não há divulgação oficial – esta é, portanto, uma informação de bastidores, primeira-mão.

Essa turma foi convidada pela CPFL Cultura (que realiza os encontros e discussões no programa Café Filosófico, transmitido pela TV Cultura) e pelo Laboratório Brasileiro de Cultura Digital (sediado na Casa da Cultura Digital).

O encontro será em Santos, Teatro Guarani, no dia 1º e dia 2 de outubro, agora. Gratuito.

O primeiro dia, uma quinta-feira, será uma discussão sobre cibercultura (o livro do Levy completou 10 anos de tradução brasileira), sobre os últimos 10 anos e sobre os próximos. Daí o nome do evento: Cibercultura 10+10

A sexta-feira, dia 2, será outra coisa: uma oficina de remix. Gilberto Gil fará um recorte de toda sua discografia, com foco na tecnologia. O áudio e o vídeo estarão disponíveis pra serem retrabalhados, uploadados, remixados. Direitos liberados. E os palestrantes do dia anterior continuam na mesa, dialogando com Gil e suas canções. Ao lado de oficineiros que irão ajudar a capturar e a editar o material.

O resultado disso tudo deverá virar algo parecido com o que fizeram recentemente com o Radiohead. Um remix feito pelos fãs, autorizado pelos artistas.

Quer mais? Tudo também será transmitido ao vivo, online.

#FAIL FSP ONLINE SEGUE ONDA ULTRAPASSADA

// September 13th, 2009 // 10 Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

capafol

A Folha de S. Paulo lançou uma versão online do jornal impresso. É mais um passo na história de trombadas e retrocessos que a empresa vem dando a caminho da integração.

A opção do jornal foi pelo modelo de Flip Page, em flash. É aquele efeito de virar a página, como se fosse o jornal de papel. Muitas revistas também usam isso, como mostra o site da empresa que desenvolveu pra Folha, a Digital Pages.

Já ouvi de algumas pessoas que desenvolvem projetos na web que muitos clientes ainda gostam deste visual. Principalmente os mais velhos, que se sentem confortáveis, que reconhecem na nova mídia aquela outra com a qual estavam acostumados. Algumas versões do flip page fazem até o barulho do papel virando. Se tivesse cheiro de jornal e manchasse o dedo, talvez gostassem ainda mais. Mas para esse público, creio que o ideal talvez fosse que o jornal na web, um dia, pudesse ser, na verdade…  impresso.

Exagero. Existem algumas vantagens em relação ao impresso. O Flip Page Effect, conforme a Wikipedia:

Flip page refers to the effect of flipping through the pages of a digital document as if it was a physical document. A flip page application is often made in Adobe Flash and requires the Adobe Flash Player to run in a browser window. The benefit of having a flip page document is that it affords the user experience of reading an actual copy of a physical document or magazine. The technology is commonly used by traditional publishers that want to create (and spread) a digital version of their physical document/paper/magazine.

The illusion of having a tangible document on your computer is supposedly more powerful with the flip page function since it mimics the natural way of browsing through a physical document, yet at the same time allows the user to use the traditional electronic benefits like searching through a document, jumping to a certain page, links to external websites etc.

Entendo essas vantagens, mas ainda assim é possível criar outro lay-out, específico para a internet, mais interativo e com mais usabilidade do que a simples reprodução das páginas impressas.

A internet é algo novo (nem tão novo assim, mas cada dia está mais rápida e chegando mais longe, pra mais gente). Tentar repetir na rede “a sensação” de uma outra mídia me parece bastante equivocado, a não ser que a estratégia seja, unicamente, dialogar com o público mais velho do jornal.

No início, as novas mídias sempre tentam repetir as antigas, até por não saberem lidar com o novo. O rádio levou tempo para encontrar uma maneira de narrar que não fosse a monotonia da leitura de um texto ao vivo. Muitas estrelas do cinema mudo fracassaram quando chegou o áudio, sem saber como interpretar com palavras. O mundo audiovisual levou décadas para encontrar uma linguagem adequada – e segue se reinventando.

Com a internet não será diferente – busca-se a fusão de todas as linguagens anteriores, com a introdução de uma interatividade nunca vista.

O Flip Page surgiu em 2002. Não pegou. Não veio para ficar. Não é uma “puta idéia”.

Ou alguém aí acha que é?

AULA COM EUGENIO BUCCI

// September 13th, 2009 // 2 Comments » // JORNALISMO, PODCAST

Eu e Rodrigo Savazoni estamos dando uma das disciplinas no curso de jornalismo multimídia da PUC-SP. Numa das aulas levamos o professor Eugênio Bucci para falar aos alunos sobre projetos editoriais.

 
icon for podpress  Aula prof. Eugenio Bucci [163:34m]: Play Now | Play in Popup | Download

Todo o material do curso está no blog que criamos, aqui. Mas resolvi replicar neste blog também o áudio da palestra, que não ficou lá essas coisas, mas é uma aula excepcional. De repente alguém se anima a transcrever.

PODCAST COM TREMOÇO 0.0

// September 12th, 2009 // No Comments » // PODCAST

A Casa da Cultura Digital inaugura o Podcast com Tremoço. Esta primeira edição – a primeira de muitas ou a última – é um bate-papo com Daniela B. Silva e Pedro Markun, criadores do Clone do Blog do Planalto, e Andre Deak, Rodrigo Savazoni e Cláudio Prado.

Pretendemos gravar sempre em sextas-feiras de lua cheia, ou quando der. Sempre no quintal da Casa da Cultura Digital, na Barra Funda, em São Paulo, com tremoço e cachaça empurrando a conversa pra frente. Sem papas na língua.

Esperamos que gostem.

Podcast com tremoço 01 – download

Publicamos primeiro no Trezentos.

WATERLIFE: DOCUMENTÁRIO COM INTERFACE EM FLASH

// September 6th, 2009 // 1 Comment » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Waterlife

Um dos trabalhos mais bem feitos que vi nos últimos tempos usando a tecnologia Flash. Finalista do ONA Award, o site do documentário canadense Waterlife é um belo especial multimídia que agrega vídeos de uma maneira extramemente eficaz – dá vontade de navegar ali por horas.

Coisa de gente grande: uma co-produção do National Film Board of Canada e Primitive Enterteinment, com direção de Kevin McMahon – documentarista com décadas de estrada (trabalhou com o produtor de The Corporation, por exemplo).

Fala sobre o envenenamento dos Grandes Lagos, que banham Canadá e EUA.

waterflash

Como já disse o blog Manancial da Noite, a interface vale a visita. São vários menus de entradas para as seções, que ajudam bastante a navegação. Trilha sonora ótima, com Phillip Glass entre outros.

Os Grandes Lagos são 5, estão situados na América do Norte, entre o Canadá e os EUA, e constituem o maior grupo de lagos de água doce do mundo. Durante o percurso, a água vai sendo contaminada com todos os tipos de produtos químicos, e gera consequências na vida das comunidades e animais que dependem dessa água para sobreviver.

A fotografia, que mistura belas imagens da natureza com cenas de poluição, mexe até com o menos ecológico dos indivíduos, e abre nossos olhos para a necessidade de nos tornarmos mais conscientes. Tudo importa, desde o que é jogado no vaso sanitário e como ele é limpo até o shampoo que usamos para lavar os cabelos, o detergente que escolhemos para lavar a louça e também a quantidade de água que disperdiçamos diariamente. (via Oi Toronto)

E ainda não desisti de realizar um projeto multimídia interativo sócio-ambiental no Brasil.

PS: Não encontrei o documentário online, mas se alguém encontrar, me avise.

TODOS A POSTOS: SENADO PREPARA ATAQUE À INTERNET

// September 3rd, 2009 // 11 Comments » // A REDE, CulturaDigitalBR

munchmini

É difícil crer que ainda possamos nos surpreender com as lambanças do Congresso, especialmente do Senado, que talvez pudesse simplesmente deixar de existir sem causar nenhum prejuízo (muito pelo contrário). Mas as recentes declarações sobre o Projeto de Lei Eleitoral que será votado são de dar arrepios.

O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), autor do projeto de censura à internet que ficou conhecido como Lei Azeredo, demonstra o total desconhecimento da rede. Segundo o entendimento dele, a internet é ao mesmo tempo televisão e rádio, e por isso deveria obedecer as regras destes meios – leia-se: espaço idêntico para todos os políticos em época de campanha.

“Na hora em que a internet se assemelha a um jornal, foi colocada a mesma regra. Quando se assemelha a rádio e televisão, como é o caso de debates ao vivo, aí o entendimento foi o de que deve ter as mesmas regras da TV. A internet é uma confluência de vários meios de comunicação”. FSP, 2/9/09

O senador tem a mesma visão distorcida da realidade que o juiz Hermann, que tornou pública sua opinião neste debate no Terra Magazine. Na ocasião escrevi uma resposta ao juiz, que cabe perfeitamente ao senador:

O primeiro erro da argumentação é que rádios e televisões são concessões públicas, portanto, espaços públicos que são cedidos para grupos de comunicação. Sendo um espaço público, não pode ser usado para beneficiar candidato A ou B, obviamente. Mesmo assim, ninguém se lembra da Justiça entrar em ação na famosa edição do debate entre Lula e Collor, na rede Globo.

A limitação do espaço foi ampliada para os jornais, veículos de comunicação privados, de empresas privadas, que por vezes anunciam claramente a intenção e o apoio dos donos a determinados candidatos – o que é bastante salutar, diga-se, para neutralizar um possível noticiário enviesado. Dá até para entender que o Estado sinta-se obrigado a controlar o que dizem veículos de comunicação privados, já que há uma histórica importância do jornal impresso, um peso político que carregam, e a dificuldade de pessoas comuns em lançarem seus próprios veículos impressos com alcance nacional apoiando seus candidatos. Dá para entender, mas acho errado mesmo assim.

O que não faz nenhum sentido é ampliar para a internet essa limitação. A internet não é uma concessão pública. Todas as pessoas podem, gratuitamente, lançarem veículos de alcance mundial. O argumento de que o poder econômico levaria a desvantagens entre candidatos é equivocado; aliás, é justamente o contrário: candidatos com baixo poder econômico, com apoio da população, poderiam ter até maior exposição do que os que comprassem espaço na rede. Dinheiro não compra simpatia. Pelo menos na internet há disposição para manifestações se espalharem como fogo em rastilho de pólvora. Vide que já são mais de 100 mil assinaturas na rede contra o projeto de lei do senador Azeredo. [152 mil hoje]

Mas políticos não entendem a rede. E, como diz Marco Chiaretti, o pouco que entendem, não gostam. Não dá para controlar, não dá para evitar que a rede fale mal. Não dá para censurar, como o filho do Sarney faz com o Estadão, como a Justiça brasileira permite, endossa, apoia. Justiça que chegou a tirar o YouTube do ar, se alguém não lembra.

Não é TV, nem rádio. Não é uma concessão. São milhões de usuários (no Brasil serão mais de 70 milhões ano que vem, no atual ritmo de crescimento) enviando mensagens a milhões de usuários. Quase todos, diga-se, eleitores.

“É proibido isso e aquilo na web em época eleitoral.” Ok, e aí? Vamos colocar um sargento da Rota no ombro de cada usuário do Twitter, de cada blogueiro, de cada autor de comentário, de cada emitente de uma mensagem, um e-mail, um sms? Multar todo mundo? Fingir que não viu? Nos EUA, a turma de Obama usou a web a seu favor. Deu no que deu.

Mas nem é só isso. A proposta que o Congresso irá votar e muitos políticos querem ver aprovada tenta impedir o remix. Como diz Sérgio Amadeu:

Internet é um arranjo comunicacional distribuído. Nela, qualquer pessoa que esteja conectada e que tenha o mínimo de formação pode criar um blog e integrar uma rede social. Infelizmente, é exatamente esta qualidade que alguns Deputados e Senadores querem bloquear nas eleições de 2010.

O pior é tentar impedir que a blogosfera exerça seu direito político de criticar os candidatos e de usar da arte e do humor para comunicar uma mensagem contrária a algum político. Numa das versões desse projeto de reforma eleitoral estava proibido “a trucagem”, “montagem” e “qualquer efeito realizado em áudio e vídeo que degradar ou ridicularizar candidato, partido ou coligação”.

O que é ridicularizar? O que é “trucagem”, um termo usado nos anos 1940 e 1950 para falar das técnicas de fotográficas analógicas? Eles estão querendo dizer que está proibida a “remixagem”, a recombinação?

Sinto muito, ridícula é a tentativa inconstitucional de impedir a crítica, restringir formatos e estilos de narrativas. Uma coisa é a calúnia, a injúria e a difamação. Isto já é proibido. Outra coisa é uma sátira, uma crítica teatralizada e bem humorada, isto não pode ser impedido.

Isso proibiria, muito provavelmente, este remix que eu fiz com o Lula cantando Raul Seixas – se o Lula fosse candidato, claro. Mas já circulam pela rede dezenas de remixes com possíveis candidatos. Serão tirados do ar? Ou vão desligar a internet no Brasil?

Às armas, meus amigos. Às nossas armas. A rede já se mostrou capaz de reverter processos. Poderá novamente ser um instrumento de organização em nome da liberdade. Ou o ano de 2010 poderá se mostrar um retrocesso no desenvolvimento da comunicação digital brasileira.

#comfaz?

1.As pessoas precisam saber que o Congresso pode aprovar um golpe contra a liberdade de expressão na rede. Avise uma pessoa, que avisará outra, e outra. O poder das multidões não pode ser desprezado.

2. Vamos levar esta discussão para dentro do governo. O Fórum de Cultura Digital Brasileira é um espaço livre criado recentemente para gerar políticas públicas a partir da rede. O eixo de Comunicação Digital (o qual coordeno) já debate uma carta de liberdade na rede. Certamente teremos aí um documento de pressão para apresentar ao governo, mais adiante.

3. Você usa o Twitter? Alguns políticos também Por que não manda uns @s? De repente até é possível reverter algumas opiniões irreversíveis.

4. Pratica alguma religião?

Boa noite e boa sorte.

UPDATE: Lula veta restrição à web pra eleições

E com mais detalhes, aqui [republico um trecho]:

Esse veto foi sugerido pela Secretaria de Comunicação Social, com a justificativa de que a internet é um ambiente de livre manifestação do pensamento. Além disso, a internet não é uma concessão pública, como são as emissoras de rádio e TV.