Archive for May, 2009

ENTREVISTA: MANUEL CARLOS CHAPARRO

// May 25th, 2009 // 3 Comments » // Destaques, ENTREVISTAS, JORNALISMO, PODCAST

O curso de jornalismo atravessa uma crise de definição. De um lado, uma crise conceitual: não se pensa mais num mundo em que existe o acontecimento e existe o público, e no meio dele o jornalista. O jornalista não é mais, apenas ele, difusor da notícia. Essa difusão não depende mais dos jornalistas. As tecnologias mudaram tudo.

Outra crise é o fascínio pelas tecnologias, pelo termo multimídia. Isso não é uma prioridade para a formação. Deve preparar o uso do multimídia, claro, mas colocar o multimídia como o essencial é uma deformação do jornalista. Só tem sentido se funcionar como ferramenta de algo mais importante, que é o conteúdo.

Com esta visão, o professor Manuel Carlos Chaparro começou a apresentar aos professores e organizadores do Projeto Repórter do Futuro – curso complementar para estudantes de jornalismo, mantido pela Oboré – o resultado de anos de reflexão e das discussões que presencia como membro da Comissão de Especialistas do Ministério da Educação (MEC) que reúne as discussões sobre diretrizes curriculares dos cursos de Jornalismo. Coordenador e um dos primeiros professores do curso que completou 15 anos em 2009, Chaparro foi à Oboré conversar sobre a tarefa de lecionar jornalismo. Abaixo, alguns destaques do bate-papo e o áudio com a íntegra da entrevista.

 
icon for podpress  Professor Carlos Chaparro: crise no jornalismo [80:04m]: Play Now | Play in Popup | Download

É importante que não se perca a perspectiva de que é preciso saber pensar.

Chaparro: Associamos jornalismo a jornal, a redações organizadas, mas cada vez mais o jornalismo é um fenômeno abstrato. É algo espalhado pela sociedade. Isso elimina o jornalismo? Não, claro que não. Ele ganha força. Porque é quando a informação passa pelo jornalismo, por seus critérios, é que ganha credibilidade. Na faculdade se aprende a construir uma linguagem da credibilidade. Mas muita gente usa a linguagem do jornalismo hoje. A linguagem precisa ser preservada, mas os jornalistas também. Nada do que ocorre hoje vai contra a profissão ou contra a atividade, pelo contrário.

Antigamente os políticos iam até a praça pública – lá era o espaço público. Agora ainda vão, mas apenas como palco para o jornalismo. O jornalismo tornou-se o grande espaço público – não a mídia, mas o jornalismo. Porque ninguém se importa em aparecer na Ana Maria Braga, mas querem aparecer no jornal das oito. Porque lá está a credibilidade.

Quais são as principais indicações que chegam para a estrutura dos cursos de jornalismo?

Chaparro: Há uma constância: o ensino deve ter um caráter humanístico. E outra coisa é o multimídia.

Minha opinião – não a opinião do comitê –, é que não há como entender o jornalismo sem levar em conta o mundo em que ele está inserido. Mas agora é que vamos entrar na fase de descobrir o que pensam os membros da comissão, quais são as idéias de cada um.

Como era o método de avaliação desenvolvido?

Chaparro: O ideal era fazer uma avaliação individual, mas como nem sempre isso podia ser feito, por causa do tempo, fazíamos grupos de dois ou três estudantes. Eles traziam pautas. Por exemplo, uma entrevista com Alberto Dines.

Os alunos ficavam duas semanas estudando a vida do Dines. Não vai chegar lá e perguntar o que todo mundo já sabe: quantos livros escreveu, o que fez. Isso outros já perguntaram. Aí faziam a entrevista, e depois ficavam mais semanas escrevendo o texto.

Fazíamos também um confessionário: conversas individuais. Tentávamos avaliar a evolução de cada aluno, não a comparação com o grupo. As notas, no fim, geravam comparação, mas eram dadas a partir da evolução individual. O curso terminava com um comentário, fechado num envelope, só para o estudante, com uma explicação sobre sua evolução. Quem é bom, mas não evolui, pode tirar nota mais baixa do que quem não é tão bom, mas evolui.

Há uma dificuldade dos alunos de jornalismo em serem editores do próprio texto. Ou seja: definir título e lead.

Chaparro: O mais difícil talvez seja justamente isso: definir o que é importante. Costumo dizer para definir duas ou três coisas mais importantes, e colocar embaixo delas o que estiver relacionado. Vai sobrar muita coisa, tem que jogar fora. É isso que atormenta o repórter.

Também é importante a escolha da significação do fato. Costumo usar um exemplo extremo, a parada gay. Tem uma significação econômica, outra política, outra cultural. Qual é a preponderante? Qual é o eixo narrativo escolhido? É possível percorrer todos, mas é preciso escolher um.

O jornalista deve ser capaz de fazer escolhas. Escolhas lúcidas.

O professor Chaparro mantém o blog O Xis da Questão, com debates e aulas em vídeos sobre jornalismo.

*Estiveram presentes na conversa com o professor Chaparro os jornalistas Ana Luisa Zaniboni Gomes, Andre Deak,  João Paulo Charleaux, Mariana Felippe, Pedro Ortiz e Sérgio Gomes.

JOGOS, INTERATIVIDADE E JORNALISMO: NEWSGAMES

// May 23rd, 2009 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, INFOGRAFIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Você é um jornalista que investiga maquilladoras no México – fábricas que exploram trabalhadores, poluem o meio ambiente, normalmente vinculadas a multinacionais que procuram mão-de-obra barata. Irá entrevistar membros da comunidade, trabalhadores, sindicalistas, fiscais, visitar locais perigosos e juntar argumentos para a entrevista final: o dono da fábrica. Se tiver entrevistado as pessoas certas, e se tiver feito as perguntas certas, poderá usar os melhores argumentos na entrevista final e provocar respostas espontâneas que lhe darão, afinal, a prova do crime.

Este é o mote de Global Conflicts: Latin America. Jogo da empresa Serious Games, especializada nos chamados newsgames. Fez também Palestine, mas apenas o Latin America pode ser testado online.

Newsgames estão ficando mais complexos, mais interessantes e mais comuns. São difíceis de fazer, envolvem jogabilidade, design e jornalismo, campos que antes não se misturavam, mas que vão sendo engolidos pelas fronteiras cada vez mais líquidas do jornalismo (Bauman, Santaella).

A educação tenta utilizar “jogos educativos” há tempos, mas parece que é no jornalismo online que eles estão se desenvolvendo melhor.  Quem conhecer casos interessantes, por favor comente.

Casos Made in Brazil

Nem todo jogo é um newsgame: há quem faça confusão, com produções bem estranhas em jornais por aí, como o PacMan Eleitoral (O Povo Online), abaixo:

Há também quem simplesmente copie boas idéias, inclusive no formato. A revista Veja reproduziu exatamente o modelo Candidate Match Game, do USA Today (abaixo):

Aqui o modelo original (foi atualizado para o segundo turno nos EUA):

A idéia do jogo é boa: inverte o foco, que normalmente está nos políticos, e faz perguntas ao usuário para indicar o candidato cujas respostas são mais próximas. Mas poderiam ser criadas versões mais criativas, sem utilizar a linguagem visual desenvolvida pelo USA Today. E não foi só a Veja: também o pessoal do portal UAI “reutilizou” o modelo norte-americano.

[E também vimos recentemente, no caso de especiais multimídia, a mesma linguagem usada pelo New York Times no  8 in a Million, servir de "inspiração" para a Revista Brasileiros.]Ou seja: as experiências que estão ocorrendo lá fora vão chegando ao Brasil, mas muitas vezes sem nenhuma “reciclagem”. Na semana que vem publico uma entrevista com quem está realmente criando newsgames brasileiros: Daniel Jelin, Editor de Especiais do Estadão.

MAIS:
Consumer Consequences

Jogo da Máfia

Jornalismo e Video Games

SEM RUMO: MULTIMÍDIA MEDIASTORM

// May 22nd, 2009 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Lá vem o MediaStorm de novo. Um conjunto de apresentações de mais ou menos 5 minutos conta histórias de vida em Iowa.

Só vi, por enquanto, o video do açougueiro. Bonito, ao mesmo tempo chocante e triste – muito provavelmente exatamente na medida desejada pela edição.

Aos que se interessam por jornalismo multimídia, imperdível. Aos que se interessam por boas histórias (em inglês), vale a pena.

Via Wired

DESDE CUBA: MULTIMÍDIA GARAPA.ORG

// May 18th, 2009 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

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O cinquentenário da revolução cubana não é apenas um marco ideológico. No decorrer de cinco décadas, duas gerações nasceram e cresceram em uma ilha que assistiu às mudanças mundias com a distância do isolamento. Esses filhos da revolução já não cabem na iconografia da Sierra Maestra; buscam existir por e para si, e não querem mais ser a utopia do mundo.

O coletivo de jornalismo multimídia independente Garapa.org acaba de produzir mais um trabalho. O texto acima é a apresentação do Desde Cuba, reportagem multimídia apresentada num site que é uma variação de um template Wordpress – tecnologia livre.

Os vídeos e fotos são um passeio por Havana, às vezes bastante poético. Para ser visto com calma, com tempo.

DesdeCuba.com é também o nome da revista eletrônica da qual participa a blogueira Yoani Sanchez. Yoani é uma figura polêmica, dentro e fora de Cuba, porque em seu blog (hospedado fora de Cuba, com milhares de comentários em cada post) critica o governo. Muitos usam as informações que ela publica para “provar” que Cuba é uma ditadura – dura mesmo, não branda. O próprio governo de Cuba diz que a existência de Yoani e seu blog prova que há liberdade de expressão na ilha. Escrevi algumas coisas sobre Cuba nos meus Diários de Havana.

Modelos de reportagem
Eu e Paulo Fehlauer estivemos na PUC, no sábado passado, falando sobre novos modelos de reportagem multímidia. Fehlauer é um dos jornalistas do Garapa, e fizemos juntos a reportagem Crônica de uma Catástrofe Ambiental para a Revista Fórum.

Os alunos da pós-graduação perguntaram sobre exemplos brasileiros de reportagem multimídia. Este, o DesdeCuba, do Garapa, sem dúvida, é mais um deles.

REALIDADE AUMENTADA NO ESTADÃO

// May 5th, 2009 // 1 Comment » // JORNALISMO

Realidade aumentada é o tipo de coisa que ainda veremos se tornar comum. Trata-se de um tipo de informação que é adicionada à realidade. Por exemplo, lentes de óculos que apresentam informações sobre o que está sendo visto, parabrisas de carros que mostram mapas, câmeras de celulares que dão informações turísticas sobre o que está sendo mostrado nelas.

Já existem diversas experiências com isso, que não são tão novidade assim. Mas destaco que o Estadão fez uma primeira experiência, numa infografia sobre a Torre Eiffel.

Coisas mais interessantes até estão sendo feitas por aí, já. Mas, no jornalismo, ainda não tinha visto testarem nada.

Aqui tem o site especial deles sobre a experiência.

MAIS
Infografia RA