REALIDADE E REPRESENTAÇÃO
// April 24th, 2009 // JORNALISMO, MULTIMIDIA

Eu ficava me perguntando como os fotógrafos conseguiam fazer imagens como essa. Mesmo no Flickr algumas fotos amadoras têm cores que são absolutamente incríveis. Me lembravam as cores do cromo, ou slide (filme positivo), que eram usados para fotos de publicidade. Mas mesmo usando cromo, eu nunca conseguia aquelas cores.
Mais tarde fui descobrir que toda foto, praticamente, é retocada no Photoshop. Não sei como faziam antes – química na revelação? Ou os caras eram bons mesmo? O caso é que, no começo, me pareceu errado, e minhas primeiras fotos no Flickr eu publiquei quase sem nenhum retoque. Hoje em dia tenho outra opinião, e é sobre isso que queria ouvir outras opiniões…
A foto acima é do fotógrafo dinamarquês Klavs Bo Christensen, que foi desclassificado de um concurso nacional depois que os juízes pediram e avaliaram a fotografia bruta (o arquivo raw, original). Eles consideraram que o Photoshop foi usado em demasia. Klavs, depois, mandou as fotos – editadas e brutas – para um site que publicou a história.
Abaixo, a foto bruta:

A diferença, obviamente, é enorme. Mas os argumentos do fotógrafo são interessantes:
In my opinion, a RAW file (RAW, NEF, DNG, CR2, etc..) has nothing to do with reality and I do not think you can judge the finished image and the use of Photoshop by looking at the RAW file. Second, there are also huge differences between RAW conversion tools, and on how the files from different cameras are converted. And there are significant differences in the profile you choose to use in the conversion tool for each camera.
Além de dizer que o arquivo bruto é diferente em cada máquina, ele também diz que sempre foi possível saturar as fotos da imagem real – com uma superexposição, por exemplo.
One can for example choose to overexpose his images, making them more saturated in color when you close them down in the RAW converter. It seems to me in line with choosing a specific film to each assignment in the old days
No final, ele se pergunta qual é a tarefa do juiz de um concurso de fotografia: julgar o uso do Photoshop ou o valor da imagem para relatar uma história jornalística?
Talvez seja interessante agregar aí também outras questões: no limite, a subjetividade do corte da foto já é um recorte da realidade, e isso é discutido faz tempo. (Sem entrarmos no mérito da discussão sobre a própria realidade.) Mas se existem, de qualquer forma, todas essas subjetividades no trato da imagem, do corte à luz, à exposição, filtros, etc., qual é o limite?
Como diz o fotógrafo, se aquela edição serve para melhor contar a história que se revela a partir daquelas imagens, talvez esse seja o limite. Ou não?


Baseado num Tweet do Markun





É estranho como as pessoas não conseguem perceber que a automatização de certas funções permite realizar certas tarefas de uma maneira mais ligada ao âmbito qualitativo das escolhas que o processo criativo envolve… o que é considerado arte no campo da atividade fotográfica, a virtuose de controlar a câmera no momento do shot de maneira a se ter um produto acabado no instante seguinte, sendo que a única diferença é que este método obriga o fotógrafo a concentrar as decisões no tempo, e colocá-las em prática coum número menor de recursos? Alguém sem a possibilidade de adquirir um equipamento avançado, com toda esta capacidade de controle por parte do utilizador, está alijado do universo artístico? Utilizar todas as possibilidades de intervenção criativas não é arte? A arte deve ficar presa a padrões de pureza inventados em uma situação tecnológica ultrapassada?
O mesmo caso se observa no ramo da discotecagem, e certos grupos insistem em afirmar que o que se faz com um software como o ableton não é discotecar. Automartizar uma tarefa mecânica como o ajuste dos batimentos, e partir para mixar mais músicas num menor período de tempo, com a utilização de um maior número de recursos, como efeitos, loops, etc, enfim, concentrando-se em tarefas que exigem um racioncício mais “fino”, ou qualitativo, como diria O Professor Samadeu, é deturpar uma arte que deve permanecer estática a padrões de linguagem de uma outra era? Eles que fiquem com sua arte, então – e azar o deles.
Marco, concordo totalmente. Belos argumentos.
Paralelo ao texto, foi como dar uns floreios de estilo em uma reportagem. O Klavs retocou. Acho que o problema que veem nas fotos é um certo “abuso” – será que teria causado esse barulho todo se ele tivesse retocado as imagens de maneira mais branda?
Convenhamos: não existe mais foto sem photoshop. E se lembrarmos o fato de que existem as diferentes configurações de luz e cor da câmera, do seu monitor, da impressora e do ambiente em que você vê as fotos, como é que vamos pensar numa imagem digital que vá ser retrato fiel da realidade?
Concordo contigo, Marco.
A fotografia como arte é indissociável do tratamento, está, foi e continuará sendo. Mudou-se a forma de manipular, mas manteve-se a essência. Há os que não necessitem do Photoshop, mas também os que dele se utilizam como parte do processo de criação – e não há nada de condenável na prática. A questão é estética. A tecnologia democratiza os meios de produção cultural e, embora haja consequências negativas dessa transformação (como toda transformação), o aspecto positivo é muito mais importante.