ALGUMAS IMPRESSÕES: CAMPUS PARTY 2009
// January 24th, 2009 // A REDE

Um evento de tecnologia. Um espaço onde gente do mercado (publicitários, investidores, desenvolvedores e outros por aí) tenta fazer contatos e mapear possíveis “parcerias”. Uma competição barulhenta de video-games. Uma oficina de código para programadores. Um acampamento de férias da turminha do colegial classe média, misturado com um Acampamento da Juventude do Fórum Social Mundial. Uma lan-house gigante, com todo mundo no Orkut e no MSN ao mesmo tempo. Um oficina mecânica para computadores tunados. Um espaço para shows e para gente que cria música no PC. A turma do software livre. Lá no fundo, bem minoria mesmo – mas com destaque na imprensa, talvez porque aí esteja também a novidade -, um encontro de pensadores livres, de idéias progressistas e de gente que tenta construir redes éticas para mudar o mundo.
Depois de ter passado alguns dias no #CParty, a impressão principal foi essa: a de que, no fundo, é um encontro de fãs de tecnologia para computadores – seja software ou hardware -, e que são poucos ali os preocupados com os rumos dessas mesmas tecnologias. Corrijam-me se estiver errado.
Ouvi alguns dizerem que o Campus Party desse ano estava “mais voltado para o mercado, com as empresas tomando conta de tudo”, e menos “bicho-grilo geek”. Disseram que “a vibe do encontro estava diferente, mais pesada”. Ouvi chamarem de São Paulo Fashion Geek. Não estive em 2008, mas acredito. Lembro de alguns protestos bem humorados (essa história até se repetiu, mas já não era novidade). Dessa vez, fora o protesto contra o projeto do Azeredo (que também teve em 2008), soube de histórias bem deprimentes, como a expulsão de um grupo de música do palco, simplesmente porque não gostavam da música (atitude “nerdista”, meio nerd e meio nazista); e o roubo de notebooks, provavelmente incentivado por gente que fez um vídeo explicando como burlar a segurança.
Me parece também que, em geral, foram bons os encontros entre blogueiros, famosos ou não. Encontrar fisicamente aqueles que conheciam apenas virtualmente sempre é válido, fortalece laços criados na web. Desses encontros surgem projetos, idéias, amizades e outras redes. O contato pessoal ainda é imbatível na eficácia para troca de informações. Agora, quais informações? Essa é a questão.
Dahmer já dizia não acreditar em nenhuma revolução patrocinada por qualquer multinacional – ou algo mais ou menos assim. De fato, o Campus Party não me pareceu trazer nenhum grande avanço em nenhum sentido (comparando com as redes e as ações que se formam a partir do FSM ou do FISL, por exemplo). Talvez tenha gerado algumas idéias para alguém ganhar algum dinheiro, talvez alguns contatos que possam render emprego. E talvez, quem sabe, lá num espaço qualquer, alguns dos encontros produzam conhecimento que sirva para melhorar o mundo um pouquinho. Sendo bem otimista.





Deak, em todos os eventos do tipo que participei, incluindo aí alguns promovidos pelo Google, a sensação de que são encontros de “fãs de tecnologia para computadores” é recorrente. É comum ver um público mais interessado na tecnologia que tem o objeto como fim, não como instrumento de transformação. Resultado: questiona-se muito o como é feito, a estrutura lógica da técnica, e muito pouco seus desdobramentos.
Concordo com Dahmer, não acredito em uma revolução que terá como agentes garotos-propaganda da Apple.
Realmente é uma pena que os resultados de um encontro dessa proporção se traduzam em versões cada vez mais avançadas (2.0, 3.0, 4.0 turbo…) da mesma lógica que nos trouxe a esse buraco. Pensa-se mais no espetáculo do que nos personagens, insistindo assim nos erros do século passado. Por isso prefiro os pequenos encontros, de preferência em mesas de bar. Se não alcançarmos nada, sobra ao menos o otimismo embriagado.
Eu fui em 2008 e não fui este ano justamente porque previa que ele se tornaria o que se tornou: mais comercial, mais perigoso e mais bagunçado.
De fato, quem quer pensar os novos rumos da internet não precisa ficar acampado uma semana, nem precisa de internet de 10GB pra isso. A revolução não será patrocinada, especialmente pela Telefonica
Olá,
Nem tanto ao mar nem tanto a terra
A Campus Party é um espaço de conversas interfaceadas pela tecnologia. Pode ser usada pra tudo que você apontou na sua ótima resenha!
Pensar que a Campus Party é um encontro pra mudar o mundo é romancear demais o evento.
Para o bem oupara o mal já é o evento mais importante da cena da cyber-cultura no Brasil.
Eu fui em 2008 e pretendo voltar em 2010 em 2009 eu acompanhei a cobertura descentralizada:-)
[]’s
Acredito que a questão nem seja comercial ou de patrocínio – até escrevi sobre isso – é por que as discussões sempre caem na mesmice. Até o Campus Labs que foi um dos mais interessantes cairam na questão do “network” onde houve poucas críticas as startups dos “colegas” o que acho bastante negativo. No mais, acredito que a “molecada” não tá muito interessada em revolução e acho que não deve mesmo é férias e todos querem curtir. Porém, eu percebo que os adultos vão a fóruns, discutem, discutem, discutem e não apresentam nada de concreto ou nenhuma MUDANÇA. Isso é muito negativo, independente, de quem esteja por trás pagando a conta.
A Campus Party, ao contrário de outras conferências, não tem plenárias ou tomada de decisões coletivas, que representem todos os seus participantes. E não tem esse propósito. É uma festa da cultura de rede, nada mais – o que se mostra especialmente na heterogeneidade de visões ali reunidas.
Todavia, dá espaço para que pessoas engajadas em mobilizações mais amplas ou transformadoras se encontrem para fortalecer laços, articulações e pensamentos. Metareciclagem, pontos de cultura, partido pirata, EFF brasileira, entre outras ações foram discutidas seriamente durante a Campus Party.
Não sei até que ponto um apoiador define um evento. Até o FSM tem patrocinadores. Talvez o crucial seja a forma como seus participantes se apropriam da oportunidade do encontro para mobilizar outros arranjos.