ENTREVISTA: ANDRE DAHMER

André Dahmer (Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1974) é um desenhista brasileiro. Autor das tirinhas dos Malvados, que normalmente não seguem uma linha cronológica, e têm como personagens dois seres indefinidos, que são costumeiramente comparados aos girassóis, tirando daí o apelido que têm, “As flores do mal”.

As tirinhas são uma crítica feroz aos costumes e prisões do dia-a-dia, sem pudores ou censura. Devido ao comportamento dos dois personagens, ficaram conhecidos como Malvadinho (o que mais sofre) e Malvadão (o dono de críticas muito ácidas). Seu sucesso já rendeu espaço no Jornal do Brasil e três livros.

Essa é apresentação que está na Wikipedia. Acrescentaria algo? Foi você que colocou lá?
Claro que não. Mesmo assim, faltaria dizer que publico em outros lugares (G1, Folha de São Paulo, Caros Amigos…) e que deixei de publicar no Jornal do Brasil, por exemplo. Mas não acho que eu mereça virar verbete, né?

Por que acha que seu trabalho vem se tornando mais conhecido?
Talvez porque os quadrinhos venham ganhando força novamente. São ciclos, de tempos em tempos os quadrinhos perdem e ganham público, perdem e ganham interesse dos jovens, da mídia.

Você já poderia ser sustentado apenas pelos Malvados? Dá para ganhar a vida fazendo apenas o que gosta?
Se a questão sempre passa simplesmente por ganhar e acumular dinheiro, basta alugar um apartamentinho e agenciar meninas para a prostituição. Ganhar dinheiro é mole, o problema é COMO ganhar dinheiro. Eu vivo bem com o que ganho em quadrinhos, não tenho do que reclamar. Por outro lado, tenho poucos gastos e poucos bens. São escolhas, acho. Formas de viver e usar o dinheiro. Não devemos viver PELO dinheiro. Nós devemos controlar o dinheiro, e não o contrário.

Você disse que é um cara pacato, e que se isso começar a mudar, largaria tudo para ter paz. Como é uma vida simples?
Eu não tenho exatamente uma vida pacata e simples, mas estou lutando para ter uma. Trabalhar menos, ter mais tempo livre, estar longe dos centros urbanos e de toda a paranóia que eles trazem. São projetos que podem demorar, mas vão sair do papel um dia.

Quais são as suas contradições?
Gostar das pessoas e de certos confortos das cidades, mas não saber viver em paz nelas.

Seus personagens são recheados de humor negro e críticas ácidas à sociedade. Você coloca freios em alguns quadrinhos em tempos do politicamente correto? Como sabe se as tiras estão “acima do tom”?
Não trabalho com freios, ao contrário. É que é preciso uma grande liberdade de raciocínio para fazer humor, sabe? Não há como pensar “ah, isso vai pegar mal” e fazer humor de qualidade ao mesmo tempo. Não é assim que funciona…

Alguém já disse que a piada fácil é feita sobre um desses eixos (ou todos juntos): preconceitos e estereótipos, escatologia e humilhação. Seus quadrinhos fogem disso mostrando o que há de pior na sociedade, mas sem entrar neste humor fácil. Às vezes, no fio dessa navalha. Que acha disso?
Eu tenho poucos anos de quadrinhos de humor, comecei há uns seis, sete anos. Não sou muito de explicar a mecânica do meu trabalho, do meu humor. Não sei explicar. Tenho pouco método de trabalho e minha cabeça é um caos. Não poderia dizer, com sinceridade, como eu faço e organizo meu trabalho. Trabalho sem regras, sem locais fixos, sem horário fixo, essas coisas…

João Kléber, que foi tirado do ar e depois demitido por uma ação na Justiça que alegava que seu humor era um atentado contra os direitos humanos, disparou: “Mas então não vai dar mais pra fazer piada de nada”. Você concorda? Por onde caminhar?
Não gosto do tipo de humor dele, mas acho que ele tem todo direito de fazê-lo.

Pela rede você disse que vende centenas de livros e camisetas por mês. Que ganha 64% do que vende, quando por um atravessador (a editora e a distribuidora) ganharia 4%. A rede é um caminho para ser livre?
Ser livre independe da questão financeira. Hoje até soa como heresia dizer uma coisa dessas, mas tenho certeza que as pessoas dão um valor maior ao dinheiro do que ele merece e vale. Essa relação que fazem entre liberdade e dinheiro é um erro muito grande, mas é um pensamento constante no tempo em que vivemos. Conheci muita gente abastada, são pessoas que quase sempre carecem muito de liberdade, de ar. Eu tinha infinitamente menos dinheiro que elas e no entanto, sentia-me infinitamente mais livre.

Existe uma blogosfera? Uma umbigosfera? Como você avalia os rumos da cultura digital para o artista?
Ando preocupado com bombas, não com blogs.

Pra terminar, a polêmica do Campus Party. Você escreveu um post, “Por trás da maquiagem“, onde critica o patrocínio da Telefônica, empresa recordista em reclamações no Procon. Na Folha Online disse que recusou um convite para participar da Campus Party 2009 e tampouco quis ir à primeira edição. “Esses eventos estão se tornando o paraíso de agências de marketing virais e de blogueiros sem qualquer conteúdo, gente que quer apenas fazer (pouco) dinheiro copiando e colando informações em seus blogs. Acho um meio de vida pobre, triste e poluidor”.

Você acha que nada de bom – idéias, projetos, pessoas – pode surgir num ambiente desses? Por quê?
Podem até surgir pessoas que enxergam mais longe, de maneira mais ampla, é verdade. Mas em linhas gerais, esses eventos só visam o marketing, o lucro e o acúmulo de capitais, sempre disfarçados por uma pretensa modernidade e juventude que eles nunca terão, pela natureza do que fazem e desejam.

Outras entrevistas com Dahmer:
Quadrinho Digital
Bigorna
Errata

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This entry was posted on Thursday, January 15th, 2009 and is filed under ENTREVISTAS, JORNALISMO. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

5 Responses to “ENTREVISTA: ANDRE DAHMER”

  1. Caru on January 16th, 2009 at 15:52

    Andrés, a incoerência do Campus Party é grande. Mas certamente teve no ano passado e tem um papel na cibercultura brasileira. Cabe a nós, agora, discutir se queremos um ativismo e uma prática no ciberespaço tão vinculados ou mesmo pautados pelos interesses da ‘Telefónica’ e de outros grupos interessados. Será que podemos – efetivamente – subverter este modelo?
    Abraço.

  2. Cadu Oliveira on January 17th, 2009 at 21:22

    Parabéns pela entrevista! Gostei bastante do conteúdo.

  3. Lippe on January 18th, 2009 at 12:42

    Andre Deak: “Essa é apresentação que está na Wikipedia. Acrescentaria algo? Foi você que colocou lá?”

    Andre Dahmer “Claro que não”

    Conclusão: Pergunta idiota tolerância zero ou como a wikipedia e o ctrl c + ctrl v matou a apuração jornalística.

  4. admin on January 18th, 2009 at 15:37

    Caru, concordo totalmente. Quanto à subversão do modelo, bom, já que estamos lá, vamos testar os limites da coisa…

    Cadu, valeu a visita e o elogio.

    Lippe: Não acho que seja ruim usar o conteúdo da Wikipedia, desde que seja checado (como foi feito). Mas essa é uma longa discussão…

  5. Sérgio Dias on April 29th, 2009 at 19:44

    Achei que não teve nada de mau a referência à Wikipédia. Pelo contrário, saiu foi bem original e “antenada” com o momento (a popularidade da Wikipédia e o fenômeno que ela representa na web), além e ter servido de deixa pra introduzir a entrevista e fazer a pergunta fundamental: “como você se encara”, ao entrevistado.

    Já sobre o Dahmer… Francamente, acho bastante razoável ele “virar verbete”: hoje eu o procurei na Wikipédia (mas encontrei melhor aqui) e se houvesse muitas páginas sobre ele eu leria tudo.

    Em suma: o cara é um gênio. Conforme se lê o conjunto da obra de André Dahmer (além de apreciar, obviamente, a qualidade do trabalho visual dessa obra), dá pra perceber a profundidade, a autenticidade (opa, esta é coisa rara) e enfim, a qualidade do trabalho que ele faz. É um negócio que contém sentimentos profundos e humanos, uma respirada fundo depois da imersão num mar de superficialismo. O conjunto do trabalho dos “malvados” é coerente em conteúdo, contexto e forma — inclusive o traço peculiar dos desenhos. Achei natural que ele não tivesse método pra nada, conforme disse na entrevista: as tiras dele mostram um pouco de sua personalidade e, além disso, tanta espontaneidade é uma característica própria daqueles que são verdadeiramente talentosos. Que bom haver jovens desse tipo representando a arte de nosso país.

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