O JORNALISMO CEGO E O ESTADO TERRORISTA

// January 5th, 2009 // JORNALISMO, MULTIMIDIA

  A faixa diz “somos Gaza”. Fará parte deste blog a partir dos últimos acontecimentos.

Acompanhar a cobertura jornalística (que se diz jornalística) nos últimos dias tem sido dolorido. O condicionamento cultural (ou má fé mesmo mal jornalismo mesmo) que alguns veículos demonstram é triste e revoltante. Salvam-se poucos articulistas e jornalistas. Por sorte, hoje, temos outros meios para nos informar sobre o que ocorre em Gaza.

O título abaixo, publicado hoje (5) na Folha de S. Paulo,  é o exemplo de toda a cobertura que vem sendo feita pela mídia nos últimos dias:

Israel intensifica bombardeio no norte de Gaza; Palestinos atacam creche

A leitura disso é: Israel nunca pretende ferir inocentes, enquanto os palestinos, terroristas, miram em crianças. Quando Israel acerta crianças, é efeito colateral. Quando o Hamas (e não os palestinos, genericamente) acerta creches, é um ataque deliberado (sem contar que ninguém morreu com a bomba que caiu na creche – não havia ninguém lá). Estou para ver uma manchete assim: “Israelenses matam crianças; Hamas contra-ataca com mísseis”. É o viés contrário (e tem os mesmos problemas, diga-se).

Este massacre (não se trata de uma guerra quando um dos exércitos mais poderosos do mundo ataca uma favela) é um exemplo do que pode ganhar o jornalismo quando ele olha para quem está contando – e vivendo – a história. Longe das redes broadcast das agências internacionais.

Aqui vão alguns exemplos do que está acontecendo por aí. Se o jornalismo não estivesse cego (ou morto, salve Jorge), estaria olhando pra cá neste momento.

UPDATE: Se for para ler um único texto, que seja este, de Robert Fisk, correspondente do Independent e melhor jornalista do mundo.

Os textos de Robert Fisk: não precisa de apresentações

Gaza Talk:  um blog com alguns dos melhores artigos e vídeos sobre o que realmente acontece

War on Gaza: infográfico participativo da Al-Jazeera

In Gaza: um blog debaixo do bombardeio israelense

From Gaza: outro blog, de uma “52-year-old woman who has lived in the Middle East since 1984″.

Al Jazeera: notícias que não saem na CNN

Palestina Ocupada: série de bons textos de Idelber Avelar

UPDATE: lista em atualização com links propostos nos comentários.

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17 Responses to “O JORNALISMO CEGO E O ESTADO TERRORISTA”

  1. Belo post, Deak.

    Obrigado pelos links.

    Abs.

  2. Ale Praça says:

    André, você fala em má fé, mas não acho que seja isso. Acho que vale lembrar que junto com a ofensiva militar, Israel sempre trava uma guerra midiática (http://tinyurl.com/7qtcxm), que é igualmente importante (apesar de que eles perderam ambas na invasão do Líbano em 2006). Nenhum jornalista pode entrar em Gaza e o PR Office de Israel está sempre a mão para dar exatamente o que os jornalistas querem – manchetes, declarações, entrevistas exclusivas, furos on-demand, informações coordenadas com o fechamento dos veículos, estatísticas, estudos acadêmicos, histórico, fotos, vídeos, imagens de arquivo, declarações ‘em off’ de fontes militares, sala de imprensa com ar condicionado e cafézinho, etc. O Hamas, por outro lado, mal possui um porta-voz que fale inglês.

    Mas como você disse, nem tudo está perdido e dá sim para buscar informação de qualidade. Mais duas sugestões: Al Jazeera em inglês http://english.aljazeera.net/ e Robert Fisk no Independent http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/

  3. andredeak says:

    Tem toda razão Alê. Retiro o má fé, deve ser apenas mau jornalismo mesmo.

  4. Jorge Rocha says:

    aviso para os leitores do deak: leiam a série “palestina ocupada”, q idelber avelar está publicando em seu blog: http://www.idelberavelar.com/archives/palestina_ocupada

  5. David says:

    Realmente, muito balanceada a escolha de textos para ler!
    Parabéns, assim chegaremos à verdade, com imparcialidade e objetividade.

  6. andredeak says:

    David, nenhum site traz a verdade e nenhum texto é imparcial e objetivo… O problema é quando somos abastecidos, unicamente, por meios de comunicação que dão um único viés aos fatos.

    Estas sugestões de sites são para balancear o cardápio.

    Mas tenho certeza: nominar de massacre em vez de guerra o que acontece em Gaza é algo muito mais próximo da verdade…

    abraço

  7. dani says:

    estava buscando informacoes sobre o marcao…
    acho q em respeito a ele, deverias tira-las de teu site, pois ele nunca corcordaria com o q escreves sobre a atual guerra… ele era dialetico, e basta ir ate a fsp on line agora e ler:
    ORIENTE MÉDIO Exército israelense apreende mapa de batalha do Hamas, diz “Haaretz”; ofensiva matou 257 crianças palestinas
    teu jornalismo eh q eh muito ruim, esta mais pra propaganda…
    alias, nao es nem comunista nem homossexual, es? pq sabes o q o hamas faz com ambos, nao?
    alias a guerra nao eh contra os palestinos, muitos estao muito bem na cisjordania, mas contra o hamas, organizacao q quer implantar um estado religioso (sabes o q eh, nao?)
    infelizmente, se teve de ir a guerra. esperemos q acabe logo,
    enquanto isso, tire tua mencao ao Marcao, faca isso em memoria de um pensador laico, q amava e respetava o povo brasileiro, o judeu e todos os outros (mas q se fosse ao Ira seria morto…)

  8. andredeak says:

    Dani, acho que vc fala do Marcão – Marcos Faerman, grande professor, grande jornalista, grande alma. Difícil saber o que ele diria, mas duvido que apoiasse o massacre de crianças.

    Aliás, vejo muitos israelenses dizendo que também não apoiam isso, mas não vejo dizerem que querem que pare imediatamente o massacre. Vejo apenas dizerem que querem que acabe logo. Só posso imaginar que acabar logo signifique transformar Gaza – e tudo que esteja ali – em pó. Porque é inocência achar que se o Hamas for exterminado o problema de Israel acabou.

    Não sou comunista, nem homossexual, nem judeu, nem palestino, nem acredito em nenhum deus e quase estou parando de acreditar no homem. No entanto, sou jornalista, e infelizmente sei muito bem o que Israel e o que o Hamas fazem com essa laia.

    Quanto à mídia, uso um exemplo do Idelber Avelar: se uma criança é atacada por 15 brutamontes, alguém chamaria isso de conflito? Bem, a mídia em geral chama o ataque de Israel a Gaza assim…

  9. Márcio says:

    André,

    Você não é comunista, homossexual, judeu ou palestino.
    Mas deve ser um tipo de míope seletivo, uma vez que é capaz de diferenciar o Hamas dos outros palestinos, mas enxerga todsos os israelenses como cínicos que não se importam com o massacre de crianças.

    Lamentável, meu caro.

  10. andredeak says:

    Márcio, estou ao lado de qualquer um, israelense ou palestino, que esteja contra qualquer governo ou organização terrorista, seja um estado ou um grupo de fanáticos (ou um estado governado por um grupo de fanáticos).

  11. andredeak says:

    …e é bom esclarecer: ser contra qualquer coisa não significa apoiar violência alguma…

  12. Pedro Bessa says:

    André,

    Você simplesmente se esquivou do fato de julgar todos os israelenses da mesma maneira.
    Realmente, o Márcio tem razão. Você falha ao não condenar o Hamas como terrorista, ams se apressa em condenar o povo israelense como um todo ao dizer que todos apoiariam a “completa destruição de Gaza”.

    Tenho que fazer coro. Lamentável, meu caro

  13. andredeak says:

    Caros Pedro, Márcio e outros: se tantos ficaram com essa impressão, o erro de comunicação é meu mesmo. Pra deixar bem claro:

    1. O Hamas é um grupo terrorista (quando falo em “grupo de fanáticos”, é deles mesmo que estou falando). Não é questão de opinião isso. É fato.

    2. Jamais condenei “o povo israelense como um todo”. Eu digo “muitos israelenses”, não “todos os israelenses”. “Muitos” é bem subjetivo, mas não é uma generalização. Não é possível negar que muitos gostariam que houvesse outra maneira, mas acham que não há. Eu acho que há.

    Espero ter esclarecido.

  14. David says:

    Não é má fé. Não é jornalismo ruim.
    É erro de comunicação!
    Ah, então tá bom.

  15. Ieda says:

    Perdão, mas se o Hamas é um grupo terrorista, o Estado de Israel também é terrorista, pois foi governado por um grupo terrorista…

    Antes mesmo de ser beneficiado com as terras da Palestina as organizações terroristas judias, como o Irgun (surgido em 1938, de uma dissidência do Haganah) e o Stern (fundado em 1941), engajaram-se na luta contra o domínio britânico e os árabes, sobretudo após 1944.

    Não podemos nos esquecer do episódio ocorrido em Outubro de 1945, quando Ben Gurion lançou um apelo à luta armada. Esta seria marcada por atentados espetaculares, como a destruição, pelo Irgun, do Hotel King David de Jerusalém, sede do estado-maior inglês. Entre judeus, árabes e ingleses, 91 vítimas seriam retiradas dos escombros.

    Já o Haganah (apoiado pela Grã-Bretanha)foi o primeiro grupo terrorista/de defesa judaico, de cárater sionista, que se iniciou ainda na década de 1920 e lutou contra os árabes e a ocupação britânica na Palestina. Foi com base no Haganah que as Forças de Defesa de Israel foram formadas, não só pelo treino militar dos seus membros, como pela sua proximidade com a Agência Judaica de Ben-Gurion. Vários israelitas conhecidos e que ocuparam postos importantes na vida de Israel fizeram parte da Haganah, como Yitzhak Rabin, Ariel Sharon, Rehavam Zeevi, Dov Hoz, Moshe Dayan, Yigal Allon e Ruth Westheimer.

    É isso!

  16. admin says:

    Ieda, concordo totalmente. Só acho que não é que Israel FOI governado por um grupo terrorista. Ainda é.

  17. Marcia says:

    Isso é que é pluralismo de pensamento, hein, pessoal?
    Vamos todos condenar um lado só da questão e achar que é a coisa certa a se fazer.
    Agora falta marcar a passeata, gritar slogans e queimar bandeiras.
    Depois, quando começar outra guerra, torceremos juntos para o próximo “militante” radical anti-americano e anti-sionista vencer.

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