DISCUSSÃO COM GARAPA

// November 4th, 2008 // JORNALISMO

Os amigos do Garapa.org, grupo independente de jornalismo multimídia, produzem, entre outras coisas, vídeos que vão ao ar na MTV Pública. São vinhetinhas de 1 minuto pra fazer pensar. Esse vídeo acima surgiu quando eles viram um anúncio em inglês da Diesel no jornal, o que contraria normas do Código do Consumidor. Gerou essa boa discussão nos comments deles lá, que republico abaixo:

E qual o problema? se cada um tem sua própria relação de poder aquisitivo? se uma pessoa que ganha apenas 1 sal. não teria condições de comprar uma calça de 600 reais, e se alguém que ganha 20 vezes mais (ou vem mais) pode?
e se a pessoa, mesmo não ganhando tudo isso, quiser comprar?

Qual o problema? Cada um gasta da maneira que quiser, certo? E se a campanha está em inglês? qual o problema, se o público dirigido é específico? Acho pior, taaanto pior, essa forma de convencimento ao consumismo VELADO utilizado pela própria emissora em questão (MTV) Porque não falam disso? celulares, bonequinhos, quitutes, venda de estilos, e rigor de comportamento, para crianças que absorvem de tudo? Ora, ora…

e a resposta do autor:

O problema, ao meu ver, é claro. Enquanto criarmos a glamourização exacerbada de qualquer bem de consumo se sobrepondo a melhoria de condições básicas para um coletivo inteiro, estamos sim criando um grupo de marginalizados. Essa marginalização, aliada ao poder de persuasão da publicidade, criam os desejos de consumo em quem tem e também em quem não tem – o que vc mesmo citou: poder aquisitivo. Assim, querendo mas não tendo, rouba-se.

Não me lembro de qual sociólogo é a frase, mas parece que já saiu até em sorte do orkut: A sociedade prepara o crime, o criminoso apenas o pratica.

Quanto a publicidade em inglês, você foi categórico, ela é excludente. Excluir, ao invés de incluir é uma política de valorização capital. Quanto mais se reduz o grupo de consumo, mais algo se valoriza monetariamente – é o princípio de oferta e procura que regulamente mercados há anos. Mercados estes que estão quebrando, como podes ver em outro especial recém adicionado por nós.

Mas mais importante que a crise na bolsa é a crise moral que leva alguém a defender que o preço de uma peça de roupa é apenas uma etiqueta, um valor… ele é mais do que isso, meu caro Fabio, é a síntese de nossa sociedade criando seus próprios algozes – pensando antes em excluir do que em incluir – empurrar do que abraçar.

São escolhas, e como todas elas, têm suas consequências.
Cabe apenas lembrá-las no meio da Rebouças com um 38 encostado na nuca.

obs: e não esqueça também de que a maioria desses oásis de consumo exclusivos são produzidos em países sem leis trabalhistas definidas, onde uma criança é responsável pelo lindo adorno dos teus tênis.

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One Response to “DISCUSSÃO COM GARAPA”

  1. Paulo Montoia says:

    É gratificante ler um concentrado tão grande de aspectos relevantes num único frame na rede. Salvou-me a manhã. Não me espanta o comentário colocado (”qual é o problema?”).

    Há quem use até a frase de Cristo (”Os pobres sempre os terei convosco”), deslocada de seu contexto e sentido, tempo e espaço, para tentar justificar esse modo de sociedade que transforma a vida em mercadoria e cria excluídos.

    É sintomático e nem chega a ser irônico que essa grife se chame Diesel. E imaginar que quando as mudanças no meio ambiente piorarem e medidas sejam tomadas,que eles apelem à modernidade e mudem para DSL. “Sem Logo”.

    Qual é o problema? É fácil, diria o apresentador Hulk, que tinha a solução para preservar seu presente de aniversário, não pelo valor “em si” do seu relógio de grife mas, recorde-se, pelo valor afetivo: basta pôr um comando de bloqueio policial em cada esquina e quarteirão do Bairro Jardins.

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