Eis o documento que acabo de receber dos jornalistas da EBC (Empresa Brasil de Comunicação):
- Comissão de Funcionários Informa -
Funcionários paralisam cobertura multimídia a partir desta terça-feira
(30 de setembro de 2008)A Comissão de Funcionários da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) informa que será paralisada a cobertura multimídia pelos profissionais da Agência Brasil e Rádio Nacional, lotados em Brasília e São Paulo, a partir desta terça-feira, 30 de setembro. A paralisação, por tempo indeterminado, foi definida em reunião solicitada pelos jornalistas da Agência Brasil e realizada no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal no último sábado, 27 de setembro. A comissão, presente à reunião, referenda o seguinte texto, formulado e aprovado pelos funcionários:
Os funcionários da EBC reunidos decidem pela suspensão da cobertura multimídia na Agência Brasil, Rádio Nacional AM, FM e Rádio Nacional da Amazônia a partir das 10 horas de terça-feira, 30 de setembro de 2008, até que sejam feitas as adequações remuneratórias e a instrumentalização de regras claras sobre os momentos e condições nas quais este tipo de atividade será executada, e com a contratação de mais profissionais exclusivos para as rádios.
Os funcionários reivindicam, ainda:
Isonomia salarial e de tratamento dentro da empresa para profissionais que exercem funções semelhantes, tenham eles vínculo permanente ou não com a estrutura administrativa.Realocação imediata dos funcionários que trabalham no subsolo do edifício da quadra 702/03 da empresa, dadas as comprovadas condições de insalubridade não somente referentes à exposição excessiva de radiofreqüência, e a apresentação de proposta pela direção de prazo para a realocação da totalidade dos funcionários que trabalham até o primeiro andar, dadas as condições de insalubridade constatadas pela CIPA.
Desta forma, a comissão informa que atuará nas negociações, por meio dos representantes Morillo Carvalho (Agência Brasil), Eduardo Mamcasz (Rádio Nacional) e Flávio Gonçalvez (TV Nbr), estando à disposição dos empregados e da direção para servir de interlocutora. No entanto, nenhuma posição será tomada sem nova consulta coletiva aos trabalhadores.
Atenciosamente,
Comissão de Funcionários da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
Já tinha ocorrido, no passado, uma ameaça de greve multimídia na Radiobrás (a EBC é a empresa que surgiu da fusão da Radiobrás com a TVE do Rio de Janeiro, a partir de um decreto do Lula). Houve negociação com os funcionários então e a greve foi abortada.
O que é uma greve multimídia?
Naquele caso, os jornalistas trabalhavam para duas mídias, principalmente (rádio e agência online), mas às vezes, também para TV. As condições eram precárias, com gravadores analógicos, mas o motivo principal então era a desorganização da estrutura: os repórteres eram multimídia, mas os editores não. Ou seja: um mesmo repórter tinha um editor para o texto da agência, outro para o jornal do rádio do meio-dia, outro ainda para o jornal de A Voz do Brasil. Às vezes, muitas vezes, o lead era diferente para cada editor. O que fizeram os repórteres? Disseram que, enquanto a estrutura não melhorasse, fariam o trabalho apenas para um veículo. Naquela ocasião, alguns problemas foram contornados, mas não todos. E agora, que pasa?
Na terça vou conversar com alguns dos grevistas e volto com mais detalhes.
UPDATE: as negociações da tarde desta terça-feira resultaram no adiamento da greve multimídia. Logo mais publico os detalhes. Leia mais: Greve multimídia interrompida
Deak, Paralisação = Greve?
Outra: chamar de “multimídia” a produção de texto para web, rádio ou quaisquer outros suportes é sub-qualificar inclusive o seu trabalho, que envolve muito mais do que redigir e gravar uma ou outra sonora.
Trabalho na verdadeira equipe multimídia da EBC, onde você aprendeu boa parte do que sabe, e te digo que alguns dos desafios para formar profissionais multimídia continua – mas não simplesmente por culpa do processo de edição, e sim por toda uma conjuntura do funcionalismo público (e suas peculiaridades em se tratando de um jornalismo de quase 80 anos), que assola todo e qualquer órgão de governo.
Transformar essa conjuntura é uma ação que requer muito mais estratégia e disposição do que publicar um comunicado no qual “multimídia” é utilizado como um apelido para algo que é feito desde os anos 50.
Vamo que vamo.
Estranho, o que vem a ser a verdadeira equipe multimídia da EBC? Existem falsas então?
Daniel,
não entendi a definição de multimídia que vocês estão usando aí na EBC. Produzir para rádio E para web já é realizar produção para mais de uma mídia – portanto, multimídia. Inclusive quando o repórter já faz uma edição prévia no MP3, sobe o áudio bruto para o online e já coloca links na reportagem texto para web. Na época em que estive aí chamávamos esses profissionais de repórteres multimídia (que reclamavam, com razão, que os editores eram “monomídia”).
Estou acompanhando, de longe, essa briga da “verdadeira equipe multimídia”, e acho que é um caminho equivocado, em que ninguém sai ganhando. Temos passos a trilhar na formação dos jornalistas, claro, mas o que é feito aí (ou era?) é um grande passo.
No mais, costumo defender os jornalistas que brigam por melhores condições. Que parem as máquinas mesmo.
Interessante, Andre.
Mas pelo que entendi, as questões são mais administrativas do que, digamos, jornalísticas.
Fala André e demais. A questão, como disse o Carlos, é administrativa:
(1) A empresa já usa o termo “multimídia” para definir uma função e o trabalho de uma equipe.
(2) Agora, os repórteres que paralisaram *algumas* atividades por acúmulo de funções e falta de isonomia estão querendo ser chamados de “multimídia”.
(3) Sinceramente, que se danem os nomes. Mas nos casos acima são dois escopos de atividades COMPLETAMENTE diferentes. #cmofas?
Um profissional “multimídia” da EBC (e de qqer lugar) hoje trabalha a interação entre meios numa perspectiva de comunicação integrada, participativa, móvel e tática. Isso envolve na prática planejamento, produção e edição jornalística usando mídias combinadas – fotografia, ilustrações, áudio, vídeo e software – em plataformas tecnológicas diversas (analógicas ou digitais). Sem falar em infografia (interativa ou não).
Isso é muito mais do que editar sonoras simples, fazer upload de áudio e escrever textos num cms.
Desculpem-me se fui arrogante – não sou contra a luta de ninguém, nem contra tocar no assunto. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Na Multimídia da EBC buscamos sempre compartilhar o que aprendemos e pessoalmente luto diariamente pra empoderar os que realmente tem tesão em suar a camisa e fazer jornalismo público de qualidade. Só não dá pra ficar calado quando zoam com o nome do que a gente faz.
Abraçoslhes e intéw
oi André
Só pra complementar o que o Dpádua disse:
“verdadeira multimídia” significa que o conteúdo multimídia da Agência Brasil sai de um pequeno núcleo, que antes era composto por MM, eu e vc. A Agência, do ponto de vista conceitual que o Dpádua explicou nunca foi multimídia, nem os repórteres passarão a ser por causa de um salário maior. Enfim. Eu não sou jornalista, sou designer, profissão que já nasceu multimídia, e talvez por causa disso não compreenda muito bem a “luta” dos jornalistas em torno dessa palavra.
Claro que eu defendo aumento de salário e melhoria nas condições aqui na EBC.
Quem não defenderia?
Abração
Oi Yaso, Daniel, d´Andréa
Já conversei com algumas pessoas e entendi melhor o movimento: trata-se basicamente, me parece, de melhores condições de trabalho para jornalistas que trabalham tanto para rádio quanto para a agência web.
Entendo que está havendo uma “disputa semântica” em torno da palavra multimídia: existe um núcleo chamado Multimídia (inclusive, que eu ajudei a criar) e os jornalistas da redação também se auto-intitulam “jornalistas multimídia”, mesmo sem pertencer a esse núcleo (ou editoria, como chamávamos).
Não acho que tem ninguém “zoando o nome do que vocês fazem”, pelo menos no meu entender. Mas vale uma discussão, sem dúvida.
Ainda hoje escrevo sobre isso e sobre as conversas que venho tendo com o pessoal aí.
Segundo as definições de pesquisa do campo da convergência de mídias, um profissional polivante ou multimídia também é aquele que produz conteúdo para mais de um veículo. Achei muito importante o post! Legal você comentar/contar sobre isso para os alunos da Cásper no dia 14.
Abraço
Daniela,
Como toda definição, “profissional multimídia” pode mudar de sentido dependendo do contexto específico em que é usada – como aqui, em que significa dois escopos diferentes de trabalho. Nem todo lugar segue as normas da academia. Não leve tão ao pé da letra as coisas.
André,
Não é questão de semântica nem de disputa: simplesmente estão chamando de pássaro o sapo, só porque este consegue saltar um pouquinho acima do chão.
aloha
Oi Daniel, quase xará,
não acho que é questão de levar “ao pé da letra” as definições da academia, pois também atuo no mercado de trabalho e sei até onde vai uma definição; mas, enfim, neste caso (o qual não conheço em profundidade) me parece legítimo o termo “greve multimídia” para quem escreve para mais de um veículo!
Abs
Dani