COISA DO PASSADO

// August 27th, 2008 // CONVERGÊNCIA

Ainda está quente o debate sobre repórter multimídia: terá que receber ele também um salário multimídia?

Já são duas as histórias de um passado nem tão distante que escutei e que acho bastante apropriadas. Dessa vez, a época era de greves no ABC paulista. Dentro do jornal O Globo surgiu uma idéia inovadora: e se os repórteres ficassem com pagers (não existia celular – céus, quando foi isso?). Pra quem nasceu recentemente, pager era um aparelhinho que surgiu antes do celular. No começo, você deixava uma mensagem numa central, o fulano recebia um alerta, ligava pra central e pegava o recado. Depois começou a funcionar com transmissão de texto, tipo um SMS de celular – mas isso já era o começo dos anos 90, se não me engano.

A idéia era que os repórteres ficassem sempre com um pager, para receber alertas da redação, ou algo assim. Nunca aconteceu: os sindicatos alegaram que se o repórter tivesse um beeper, teria que receber horas extras, porque estaria trabalhando 24 horas.

A outra história é parecida. Eduardo Tessler conta: “Trabalhei no primeiro jornal computadorizado do Brasil, o Diário Catarinense, e lá existia essa mesma discussão: para usar o computador tenho que ganhar mais. O sindicato dizia que o cara era jornalista, e não analista de sistemas. Se fosse para aprender a usar o computador, teria que ganhar mais. Mas esse debate passa.”

Tirar foto pelo celular, gravar uma entrevista, editar uma foto online, fazer um vídeo no celular, editar e colocar na internet, montar um blog, um site, usar recursos de web colaborativa e social serão tarefas tão simples daqui a alguns poucos anos que o debate sobre o jornalista multimídia será ou obsoleto ou muito mais qualificado. Ou não?

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5 Responses to “COISA DO PASSADO”

  1. Edu Vasques says:

    Grande André, essa é uma ótima discussão. Mas não sai do discurso. Como você disse, acredito que o tema se tornará obsoleto em alguns anos, mas ele ainda vai demorar. Se excluir os jornalistas que cobrem tecnologia, poucos realmente sabem o básico do básico da internet, ou seja, uma imensa massa. A garotada que chega hoje conhece bem os recursos, mas tem pouco espaço nas redações e não sabem absolutamente nada das boas práticas do jornalismo. O problema é que o processo será o mesmo: os jornalistas vão ter de se matar para aprender sob a justificativa (dos patrões) de que tem milhares de pessoas querendo aquele emprego. Então aprende ou é demitido. Os salários não vão justificar o investimento em conhecimento. Vai continuar sendo exploração. Ontem mesmo vi uma matéria da Juliana Carpanez no canal de tecnologia do G1 da Globo. Além de escrever a matéria, repare no crédito das fotos (http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL738299-6174,00.html). Enfim, vai valer, como sempre, a boa e velha exploração

  2. admin says:

    Então Edu, acho que precisa ter algum limite, claro. Não dá para exigir qualidade e quantidade ao mesmo tempo, e quem não sabe disso ainda vai descobrir (tipo, pedir para o repórter fazer texto foto e vídeo). Mas acho também que foto malfeita qualquer um faz; ou, por outra: uma foto simples, para uma reportagem simples, pode ser feita por repórter. Ou ainda, no caso de uma viagem internacional em que não dá pra levar dois, é melhor não ter foto ou ter foto do repórter? Eu sou a favor de ter foto. Na França tem um bônus para o repórter que opta por fazer trabalhos multimídia, e treinamento gratuito. Acho que é mais por aí… Será que aqui alguma empresa faria isso?

    Aliás: eu dei um curso lá em BH nos Diários Associados, que estão promovendo para os funcionários. O curso é gratuito, mas se houver desistência, o jornalista tem que pagar uns R$ 2 mil (porque está ocupando uma vaga que poderia ser de interesse de mais alguém). Houve seleção e tudo. Não sei por onde vai, mas a coisa está avançando…

  3. Edu Vasques says:

    Não vejo com bons olhos assim o jornalista trabalhar como fotógrafo. Além de ajudar a matar uma outra profissão, prejudica o produto final, já que jornalista via de regra (a não ser que tenha formação para isso) não sabe fotografar bem. Para quebrar um galho, até concordo, mas não conheço nenhum caso por aqui como esse da França, de um bônus pelo trabalho de fotógrafo. E, sinceridade, duvido um pouco que consigamos chegar a esse modelo.

    No caso dos Diários Associados, o curso era pago pela empresa correto? Todo o direito de exigir a presença, afinal, está investindo nos caras.

    Eu sempre disse, em qualquer reunião ou camps da vida, que não sou contra o profissional multimídia. Longe disso. O meu problema é que não há um modelo de remuneração adequado sequer para o jornalista comum, que dirá para alguém que conhece e sabe manejar as diversas ferramentas tecnológicas e digitais. O conceito vai vir pela força, mas a grana tenho minhas dúvidas se aparecerá.

    Abraço e parabéns por mais um excelente post.

  4. Pedro Penido says:

    Concordo com o Edu, André. Sou a favor de que o repórter, na medida do possível, seja multimídia, e seja capaz de resolver alguns pequenos “arranjos tecnológicos” de última hora, como cuidar da fotografia em uma viagem internacional, se é o único jeito.

  5. admin says:

    Então Edu e Pedro,

    Tinha escrito pacas e sumiu tudo. Vou tentar lembrar e resumir. Não vejo problema no jornalista-texto tirar umas fotos de vez em quando, desde que o modelo do negócio seja claro, honesto, sem prejudicar o caboclo. Não acho que vai tirar trabalho de fotógrafos, porque o cara da foto é profissional, tira fotos boas. Pra tirar foto marrom-menos qualquer um tira, até jornalista-texto. E aí é que está: o fotógrafo vai ter que melhorar o trabalho, porque pra tirar qualquer foto, qualquer um tira.

    Também deve rolar uma mudança no trabalho do fotógrafo, que nos EUA começa a filmar vídeo também. Aí entramos na seara do modelo, isso do bônus, etc. Na Radiobrás, achei bem legal quando fizeram uma greve-multimídia: os repórteres se recusaram a fazer texto e rádio, só faziam uma mídia. Resolveu (não 100%, mas é sempre assim, né?).

    Acho ótimo esse debate e é bom pensarmos mesmo num contra-ataque organizado contra a exploração (semi-escravidão) dentro das redações. E se fizéssemos uma ciranda de textos sobre isso?

    abração!

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