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HACKERS NO MINISTÉRIO DA CULTURA - ENTREVISTA: JOSÉ MURILO JUNIOR

August 21st, 2008  |  Published in A REDE, ENTREVISTAS

Não, não se trata de uma invasão da página do ministério - até porque, quando o caso é vandalismo, o nome não é hacker.

A palavra hacker, em sua tradução literal significa cortador. Esta tradução pode adquirir sentido se pensarmos em algo como cortar ou derrubar barreiras. Porém, o uso e entendimento mais comum (e, portanto, leigo) desta palavra traduzem uma associação entre hacker e pirata digital, vândalo, invasor e etc. De acordo com Pedro Rezende, professor de informática da Universidade de Brasília, hackear é esmiuçar, o que não pressupõe condição para piratear, vandalizar ou vender serviços criminosos.

Para tal conduta existem termos estritamente apropriados, como lamer ou cracker. Ainda de acordo com Rezende, hackers não podem ser considerados coletivamente como criminosos, já que muitos deles trabalham em colaboração com desenvolvedores de software, em uma ação que visa eliminar possíveis falhas de segurança nestas ferramentas. Os hackers são considerados também os principais responsáveis pelo desenvolvimento da internet e dos softwares livres (o Linux é uma criação hacker!).

Os hackers a quem me refiro trabalham no Ministério da Cultura. São os que desenvolveram um template de Wordpress que transforma blog em portal - usado no site do MinC, inclusive. Chama-se Xemelê (porque é baseado em XML). Mas fizeram também o ChatCast, um chat que pode ser usado em conjunto com transmissão de vídeo ao vivo. E o Estúdio Livre, referência para programas livres de edição de áudio e vídeo.

Quem está no meio disso tudo é José Murilo, do blog Ecologia Digital. Ele acaba de publicar uma análise sobre Gilberto Gil como ministro - uma das melhores que já li - para o site OpenDemocracy, e a publicou na íntegra em seu Eco-Rama, outro blog que mantém (em inglês).

Me respondeu hoje umas perguntas por email, abaixo:

Vocês foram escolhidos como os 10 Mais pela revista WebDesign. Como foi isso, o que representa?
Nós aqui da GIE (Gerência de Informações Estratégicas DGE-SE / MinC) ficamos envaidecidos com este destaque entre as principais ‘agências web’ do país. Principalmente pelo fato de não sermos uma agência web… rsrs. A questão é: porque fomos escolhidos?

Gosto de mencionar sempre os princípios que fundamentam a nossa estratégia de implementação:

(1) a apropriação da tecnologia de publicação (open source) pela instituição, evitando que a comunicação institucional na web torne-se dependente (refém) de contratos de terceirização para sua implementação e constante evolução;
(2) simplificação do processo de publicação, visando ampla descentralização e autonomia no processo editorial web;
e (3) fomento ao uso da rede como ferramenta de comunicação interativa direta com usuários (através de comentários, formulários de feedback, blogs, chats, etc.), facilitando a emergência da cultura ‘read-write’ típica da web 2.0 nas instituições.

Por outro lado, o serviço público nos coloca em posição ideal para exercitar os conceitos ‘open source’ em escala total, o que deve surgir como o diferencial em relação às outras ‘agências web’. O lançamento da comunidade Xemelê no Portal do Software Público representa um maior engajamento do MinC no esforço conjunto do governo em impulsionar o mercado de software livre no país. Vejo este movimento também como uma contribuição da reflexão sobre Cultura Digital da gestão Gilberto Gil no sentido de sensibilizar as instituições públicas para o potencial da comunicação interativa na web, e sobre a oportunidade de inovação (revolução?) no relacionamento entre os serviços públicos e seus usuários — os cidadãos.

Acredito que o resultado deste mix de ‘conceitos web 2.0 + implementação open source’ realizado com alguma competência aparecendo dentro do governo é o que tem chamado a atenção da mídia espcializada.

Em algumas comunidades específicas o MinC obteve reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, mas a mídia em geral tratou apenas do ministro-artista, num movimento mais de cobertura da personalidade do que do homem político. A que se deve isso?
Na minha visão, o bloqueio do ‘mainstream media’ em relação ao MinC teve origem no episódio da Ancinav, como ilustrei no artigo.

A Cultura Hacker trazida por Gil está impregnada no MinC ou vai embora com ele?
Temos uma grande batalha pela frente, que é a institucionalização desta contribuição realizada pelo Gil ao Ministério da Cultura. De onde enxergo o Xemelê é um ação neste sentido, assim como o próximo edital para jogos eletrônicos, os projetos de digitalização de acervos em curso…

O objetivo maior é a institucionalização de um setor para a Cultura Digital no âmbito da Secretaria de Políticas Culturais, que após muito debate parece que finalmente vai acontecer (o MPOG não ia aceitar um setor de ‘Cultura Hacker’!) O plano é a realização de um grande debate nacional sobre a Cultura Digital, algo que chamamos agora de Fórum Brasil Digital. Como estamos em plena transição, fase de naturais rearranjos internos, espero poder falar sobre o tema de forma mais concreta em breve.

Qual deve ser o principal desafio da gestão Juca Ferreira?
Realizar concretamente as expectativas criadas pelo discurso hacker do ministro. Em uma palavra: implementação. Vamos lá!

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