ENTREVISTA: DANIEL FLORÊNCIO
Daniel Florêncio é mineiro, mora em Londres, filmmaker, documentarista, promo videomaker, music videomaker, faz animações, shows para TV, filmes para celular, experimentações com novas mídias e, nas horas vagas, denuncia a censura no Brasil.
Nas últimas semanas, foi alvo de críticas do governo mineiro por conta de sua vídeo reportagem Gagged in Brazil (Censurado no Brasil, numa tradução livre), que circulou o mundo primeiro pela Current TV, depois por toda a internet. O vídeo gerou fortes reações do governo de Aécio Neves e vídeos-resposta no YouTube, assinados pela Juventude PSDB-MG. O assunto rendeu ainda réplica do autor, tréplica da superintendência de imprensa de Minas Gerais e deve seguir quente.
Abaixo, a entrevista respondida por e-mail pelo Daniel:
Como você foi parar no mundo de filmes, documentários, vídeos pra celular…? Como virou produtor independente?
Então… Sou formado em Rádio e Televisão pela UFMG. No Brasil sempre trabalhei com TV, filmes publicitários, videoclipes, e quando vim pra Londres pra fazer meu Mestrado em Art and Media Practice, eu ia desenvolver um filme experimental com telefones celulares / webcam. Ia ser uma coisa brincando com os meios que acabou não acontecendo. Acabei desenvolvendo um projeto de um documentário que tinha a ver com o que estava se passando comigo quando mudei pra cá, tinha migrado para o Reino Unido, virei um imigrante, e esse projeto para o Mestrado culminou no “A Brazilian Immigrant”, que rodou os festivais por aqui, foi pra Raindance, etc e tal.. Foi assim que entrei no mundo dos documentários. Virei produtor independente tambem de uma hora pra outra. Estava terminando de editar uma producao pra BBC, o desenho “The Secret Show” e me ligaram da Current TV em Sao Francisco perguntando se eu não queria produzir conteúdo pra eles pro lançamento do canal no Reino Unido. Eu ia escolher os temas e os desenvolver em conjunto com um Commissioning Editor do canal. A liberdade que eles me deram era tamanha que acabei experimentando produzir com celular alguns dos pods que fiz para eles. O proprio “Gagged” tem imagens feitas com celular…
Você diz no seu site que continua produzindo para a Current TV. Como é essa relação?
Na verdade o site esta um pouco desatualizado… O último filme que produzi para a Current TV foi o “Young, British, Illegal”, sobre um inglês que mora ilegalmente no Brasil, que produzi na mesma época do “Gagged in Brazil”. Depois me ocupei com outros projetos e acabei nao produzindo mais nada… Mas minha relação com eles é bem bacana. Estou sempre em contato com a equipe de Londres e de São Francisco e fiz bons amigos lá dentro. Alguns ainda trabalham lá e outros estão envolvidos em outros projetos.
Você foi premiado com o Bronze Telly Awards 08 pelo vídeo The Battle for Rio. Conta um pouco disso.
Foi bem bacana e eu nem sabia que eu estava concorrendo. Certo dia chego no trabalho e recebo um email da minha Commissioning Editor da Current TV, a Lina Prestwood, me dando os parabéns pelo prêmio. A equipe da Current havia selecionado algumas peças produzidas pra eles e as inscreveram no prêmio por conta própria. Por sorte, a minha acabou sendo premiada.
Você esteve na FilMobile conference, encontrou muita gente que discute produção audiovisual pelo celular… Como anda esse mercado e quais as perspectivas? O futuro é um celular na mão e uma idéia na cabeça?
Estive envolvido com o FilMobile desde a primeira conferência. Max Schleser, o organizador do evento, era meu colega de mestrado com quem eu sempre conversava sobre o assunto. Ele acabou indo fazer um PHD sobre o assunto enquanto eu produzia meus filmes com câmeras de celular. Estou envolvido com ele e um outro amigo em outro projeto de mídias móveis. Nao sei se o futuro é um celular na mão e uma idéia na cabeca, mas certamente o fato de termos em nossas mãos uma mídia que é ao mesmo tempo produtora e receptora de conteudo está provocando mudanças em como nos relacionamos com o espaço físico e com o que acontece ao noso redor, bem como modificando as relações entre emissor/receptor que vemos na midia tradicional. É uma mídia revolucionária.
Bom, falemos do incômodo que causou ao governo mineiro… Como foi a produção do Gagged in Brazil? Ele foi produzido pensando na Current TV ou foi parar lá depois?
O filme foi produzido PARA a Current TV. Ele era um dos filmes que eu deveria produzir dentro do “pacote” do meu último contrato com eles. Por meses o enfoque e a linha do filme foi discutido com a Lina Prestwood, pois, apesar de o tema mídia ser do interesse do canal, eles pensavam: “porque diabos o público da Current iria querer saber sobre Aecio Neves, o governador de um estado brasileiro?”. Daí tivemos que sair um pouco de exemplos muito pontuais e partir pra um quadro mais geral da coisa. Uma perspectiva mais internacional, a relevância da TV Globo e o fato de que Aecio é cotado para ser candidato a presidente do Brasil em 2010.
Depois da coleta de material, entrevistas, pesquisa, etc, o filme ainda demorou bastante tempo pra ser montado, pois com todo o material que eu tinha foi dificil estruturar tudo dentro dos 7 minutos que o canal tinha me disponibilizado. O filme ia e voltava da Current, com sugestões da Lina e modificações do editor. Muito foi deixado de fora, e mesmo assim, o filme acabou ficando com 8 minutos. Depois disso o filme ainda demorou bastante tempo pra passar pelo departamento jurídico, pois dada a sensibilidade do tema, o canal queria ter certeza de que não haviam brechas legais para um processo ou algo do tipo.
Teu post “Mercenário” é uma boa resposta ou quer acrescentar algo?
Uma resposta oficial aos vídeos deles foi publicada no Observatório da Imprensa da semana passada, e a minha tréplica à réplica da Superintendencia de Imprensa do Governo de Minas vai sair lá essa semana.
Cinema, TV, celular ou web?
Todos. Mas um de cada vez.










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