Posted on Jul 7, 2008

ENTREVISTA: DANIELA RAMOS – PARTE 2

Leia a segunda parte da entrevista concedida pela professora Daniela Ramos, pesquisadora de ciberjornalismo:

Todos falam em novos modelos de financiamento. O conteúdo fechado, pago, já é coisa do século passado? Quais modelos interessantes você conhece?

Modelo interessante e que funciona hoje (e que pode não funcionar amanhã) pode o da Prisacom: vender serviços digitais – ringtones, por exemplo. Ninguém paga mais por notícia (estas de última hora), isso é certo. Talvez pague-se por informação exclusiva e especializadada (como na área econômica), mas isso é outra coisa – são informações produzidas com mais tempo, profundidade e exclusividade, para quem pague por isso.

Outra coisa que parece interessante é cobrar micro quantias, como no na Coréia do Sul: R$ 0,05 para que seu avatar seja X e não Y, R$ 0,04 para adicionar uma música exclusiva e assim por diante… Aquele portal famoso que integra todo mundo na Coréia do Sul funciona assim, CyWorld. Este parece um modelo sustentável. Outra coisa também que é na Coréia quase não existe mais indústria fonográfica, as pessoas pagam por música digital. Sim, elas pagam por isso! Não são só as empresas de comunicação que estão crise, convém lembrar, mas todas implicadas na circulação de bens culturais imateriais.

Não é minha especialidade modelos de negócio, mas o que vejo também é que todo mundo pensa que vai ganhar dinheiro tranportando um modelo de negócio de um meio para outro, e isso absolutamente não funciona – jornal em papel ainda vende, jornal na internet não. E não necessariamente a internet vai ser um meio de ganhar dinheiro com jornalismo…

A quantas anda o ensino de jornalismo e novas tecnologias? Primeiro muda a cultura do leitor, depois mudam as redações, e por fim as universidades, ou a ordem das mudanças é outra?

Parece ser esta a ordem, sim, mas ouso dizer que dentro da universidade ainda temos a liberdade de pensar e experimentar online antes das redações, que ainda são muito caretas e limitadas em termos de repensar a relação com a audiência. Mas o fato é que enquanto TV e Rádio nas Universidades tem estúdios e técnicos para o desenvolvimento de trabalho prático, os cursos de Online não têm. Parece que o professor precisa ser desde programador de Action Script e outras linguagens, designer, flasheiro, desenvolvedor, técnido de internet e…jornalista! Ou seja, é impossível ensinar Ciberjornalismo sem ter laboratórios adequados (que poucas Universiades ou Faculdades têm), com wi-fi ou sem internet na sala de aula e em laboratórios equipados todos com data show.

É preciso ter pelo menos um técnico programador/flasheiro para ajudar a desenvolver projetos mais interativos com os alunos, em conjunto com a orientação do professor.

Outra coisa é a produção que deveria envolver Rádio, TV e internet: poucos professores destas áreas se dispõem a tentar desenvolver algum projeto em conjunto. Cito a professora e jornalista Regina Soler, da área de Tele, da Faculdade Cásper Líbero, que tem uma visão pioneira no desenvolvimento de linguagem audiovisual para celular e internet como uma parceira; a professora Egle Spinelli, da Universidade Anhembi Morumbi, que também tenta integrar e fazer esta ponte. Mas na área de Rádio ainda não encontrei nenhum professor disposto a fazer algo em conjunto entre disciplinas, por exemplo. É muito difiícil pensar e ensinar jornalismo na internet como algo separado de todo o resto do curso! E essa é a visão que acaba predominando, infelizmente, entre professores e alunos.

Uma disciplina de online em um curso de 4 anos não dá conta. Ficamos parecendo baratas tontas – toda semana falamos de um assunto que aparentemente é “desconectado” de todo o resto (mas que no fundo têm relação com a rede). Essa é a principal crítica dos alunos da Cásper Líbero: o curso de Novas Tecnologias parece não ter uma “unidade temática”, porque tentamos dar conta de muitas áreas: planejamento e manutenção de sites, métrica, cultura digital, jornalismo participativo, weblogs, aula prática, linguagem multimídia, convergência, produção para celular… Precisamos ter uma disciplina a mais no currículo da área digital para focar mais e definir melhor áreas de interesse. Queremos dar conta de tudo que vemos, ouvimos, acompanhamos, estudamos, só que nós que trabalhamos e pesquisamos a área somos geeks malucos que acham que tudo está interconectado, acreditamos nisso, mas não é essa a visão/experiência que todos têm. Além disso é preciso integrar mais a prática com a teoria, pelo menos onde dou aula, na Cásper Líbero, isso é fundamental.

Qual o perfil do novo jornalista? Quem sai da universidade precisa saber o quê?

Fundamental é o novo jornalista não ter medo do seu público, como atualmemente parece que os jornalistas têm. O público comentou, criou blogs, fez fotos e …. que medo!!! Vamos perder a profissão! Só nós que cursamos Jornalismo podemos fazer fotos, escrever e noticiar?! Isso não é verdade. Precisamos conhecer e tratar o público como aliado e não como inimigo.

É claro que na próxima tragédia por negligência e descaso público no Brasil o passante que estiver com o celular vai fotografar o próximo acidente na construção do metrô, a próxima arquibancada que desaba na cabeça de torcedores, e assim por diante. O público sempre vai chegar antes do jornalista, mas o jornalista precisa ir e apurar – em pronfundidade! Dar repostas, fazer relações entre fatos, pensar.

Quem sai da Universidade precisa saber relacionar fatos, estabelecer conexões, pensar em profundidade. Em abril deste ano assisti a uma palestra do Professor José Luis Orihuela, do blog e-Cuaderno, no III Congreso Internacional de Ciberperiodismo – Madrid. Veja o que ele fala sobre isso, é bem interessante, ele fala em “competências do jornalista na era digital”:

Buscar, selecionar e misturar, otimizar e produzir informações novas, em áudio, vídeo, foto e texto, e de forma integrada;

Desenhar: saber explicar visualmente a organização da informação, bem como a arquitetura de um meio digital para distintas audiências e plataformas;

Expor e argumentar em público sobre suas idéias;

Refinar a informação, e aqui está um diferencial, pois este ponto determinará o valor da informação, e se as pessoas vão pagar por ela ou não;

Representar a informação de forma visual, pois é a forma mais eficaz de comunicação de nossas idéias com outras áreas de conhecimento, como programação e design;

Aprender a cooperar, pois o que acontece hoje é somente uma simulação. “Mande-nos” fotos, SMS… mas como se gestiona eficazmente a colaboração?

Mudar sempre, redefinir e repensar nossa identidade profissional muitas vezes na vida;

Empreender, pois o horizonte do estudante era conseguir um emprego, e agora há muito mais empreendedorismo do que antes; levar a sério a formação empresarial da nossa profissão;

Inovar, e passar sempre do discurso para a ação.

Competências essenciais:

Ler, no sentido amplo. Aprender a decodificar a informação a partir de ligações e links;

Pensar de forma nova os novos paradigmas;

Escrever, no sentido amplo também, em várias plataformas, texto, áudio, vídeo, textos flutuantes, hipertextos, escrita em cooperação;

Comunicar, a base da profissão, de forma eficaz e em diversas plataformas;

Aprender a aprender, de forma autônoma e independente, durante toda a vida. A formação do jornalista será sempre permanente.

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