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ENTREVISTA: DANIELA RAMOS - PARTE 1

July 6th, 2008  |  Published in JORNALISMO, INFOGRAFIA, DICAS DE SITES, A REDE, MULTIMIDIA, ENTREVISTAS, CONVERGÊNCIA

Daniela Osvald Ramos cursou Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fez mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, onde também cursa o doutorado. Agora está em Santiago de Compostela. Trabalha com internet desde 1995 e pesquisa linguagens digitais, weblogs e formatos de informação na web para o campo do Webjornalismo.

Comecei a me envolver com internet quando estudava Jornalismo na Universidadade Federal do Rio Grande do Sul. Todos podíamos ter uma conta de email e ir ao CPD da Universidade para acessá-lo, na época que imprimiam emails e deixavam num escaninho do usuário… Neste mesmo ano a Zero Hora tinha colocado no ar o site do ZH Informática. Quem fez isso foi o Caíque Severo, hoje no IG, que também era da Fabico/UFRGS. Então, deu uma luz: com todo mundo falando mal de impresso, rádio e TV, mercado saturado, poucas possibilidades de usar a criatividade, pensei em começar a entender mais de internet e HTML para conseguir um emprego nesta área nova que estava surgindo. E em junho de 1996 entrei na Zero Hora para atualizar o site do ZH Informática, que na época era todo “feito à mão”. HTMLSite, FTP, programação de códigos… Fazíamos só o site do caderno, eu e o Marco Ribeiro, ficavámos em horários diferentes. Em dezembro de 1996 nos chamaram e ampliaram a equipe para colocarmos no ar o jornal inteiro, o projeto ZH Digital. Aí chegou um programador de PERL que montou o software de publicação. A equipe, liderada pelo Luis Fernando Gracioli, definiu os templates do jornal inteiro e construímos os templates de código para o publicador. A partir de janeiro de 1997 o trabalho era colocar o jornal inteiro no publicador, todo dia, e atualizarmos o serviço de últimas notícias ZH Agora. E em julho de 1997 mudei para São Paulo para integrar o então núcleo de internet da Editora Abril, Abril Online, pós-BOL e pós fusão com o UOL, um núcleo que sobreviveu a tudo isso, do qual agora a Fabiana Zanni, que na época era editora, hoje é diretora de Mídia Digital da Editora Abril.

Aqui você lê alguns artigos dela , aqui está ela no Twitter, e abaixo uma entrevista que respondeu por email enquanto está na Espanha:

Jornalismo digital, jornalismo online, jornalismo multimídia, jornalismo em rede… Com qual termo você trabalha, e por quê?
Uso o termo Ciberjornalismo pois abarca todos estes outros termos, é um conceito mais amplo.

Pelas andanças no mundo e conversas que você vem tendo, dá para apontar quais as tendências para o jornalismo? Vídeo online? Participação do leitor? Tudo junto e mais outras coisas?

O video online é sim uma tendência para os sites de jornais. Mais uso e combinação de texto e vídeo, que chama-se de multimídia por justaposição, um conceito do Professor Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra. Justapor mídias e não integrá-las é um caminho, mas também produzir multimídia por integração, como o Clarín.com faz e El Mundo e El País nos infográficos “interativos” (uso aspas pois são chamados assim, mas é uma interatividade técnica e não social).Só para citar dois meios, NY Times e vários americanos também fazem infografias animadas com informação de banco de dados.

A única tendência que parece acertada para o jornalismo é: o modo como ele tem sido feito até hoje precisa mudar.

A tendência é a mudança. Sem dúvida é necessário refletir sobre o papel do Jornalismo na sociedade atual. Para que serve? Como se continuar a remunerar jornalistas se as vendas caem tanto? Qual é o modelo de negócio que sustentará essa indústria? As pessoas ainda pagam – e pagarão – por notícias? Por que elas continuarão ou não a comprar hoje notícias impressas de ontem? As pessoas pagam para baixar ringtones para celular, mas não pagam uma assinatura de jornal online. Por que? O que muda então? Qual é o negócio de uma empresa de comunicação? Informação, mas que tipo de informação. Estou respondendo a tua pergunta com mais perguntas, mas vejo poucos jornalistas se perguntando por isso no Brasil.

Um dos pontos é também repensar a relação com a audiência. A audiência está mais presente do que nunca e isso não necessariamente é uma desvantagem, mas na hora em que a empresa de comunicação deixa de ser a única protagonista da comunicação, isso causa uma crise de papéis. É preciso redefinir o papel da empresa de comunicação neste novo cenário, e qual o lugar do jornalismo nela, e da relação que a redação terá com a audiência; obviamente não poderá mais ignorá-la e fingir que, uma vez publicada uma matéria, reportagem, notícia, o processo acaba aí. Pelo contrário: é aí que começa o processo todo. Mas até então, para os jornalistas, publicar era um ponto final no trabalho. Não é mais. Precisam dar conta do desencadeamento da conversa pública que é gerada a partir desta informação que eles mesmos publicaram… Isso não me parece ruim. Por que seria? Temos que repensar uma rotina jornalística, e isso é ótimo!

O jornalismo, e por isso está em crise, de uns tempos para cá virou “piloto automático”. Não se pensa para fazer jornalismo.

As empresas não pensam. Por exemplo, A Folha de S. Paulo acabou de lançar uma nova versão do Guia da Folha – oh! Agora sem as limitações do papel! Ótimo, mas ao que parece a equipe não entendeu que, por ser online, podem incluir, por exemplo, Literatura nas opções de lazer e cultura da cidade. Há vários saraus acontecendo em São Paulo, movimentos novos de poesia e literatura em geral, e uma das maiores empresas de comunicação do país não aproveita um novo projeto online para dar conta de mais este público – sim, público consumidor. E aí o que acontece? Este público vai se informar nos blogs referência sobre o assunto. E aí, por que eu preciso ver esse site se ele não me interessa, supondo que eu sou este público potencial não conteplado? Não vou ver, não vou dar audiência, não me interessa absolutamente.

E aliás, um projeto desses não contempla também – veja bem, não estou defendendo que não deva haver hierarquia e apuração profissional, é por isso que o Guia é uma referência – uma seção participativa (e moderada por jornalistas) na qual poderíamos ter mais acesso às experiência de outros que podem compartilhar informações efetivas. Por quê? Porque não pensa em Jornalismo no século XXI, mas pensam Jornalismo como no século XIX.

Como você define e como você vê a convergência de mídias no jornalismo?

A convergência é um tema complexo. Até agora pesquisas e estudos apontam quatro níveis de convergência:

  • Integrated production – Produção Integrada
  • Multiskilled professionals – Jornalista Polivalente
  • Multiplataform delivery – Entrega multiplataforma / sob demanda
  • Active audience – Audiência ativa

Isto está no artigo “Four dimensions of Journalistic Convergence: A preliminary approach to current media trends at Spain”, disponível online. São conceitos que nós, pesquisadores da área, estamos usando atualmente.

Há a questão das redações integradas (impresso que junta com Tv, rádio, internet – várias combinações), que é um tema e uma área de estudo; a questão da formação e da atuação do jornalista multimídia/polivalente, que é outra área de estudo; a entrega de conteúdos em várias plataformas, celular, internet, TV, impresso – outra conseqüência e demanda de uma produção de conteúdos multimídia; e a questão da audiência ativa, também está dentro desta área de pesquisa da convergência.

Além disso, Salaverría, já citado, já escreveu sobre as “quatro dimentões”: empresarial, tecnológico, profissional e comunicativo”. A referência está aqui.

A convergência entre mídias, que pode gerar novas linguagens digitais aplicáveis ao jornalismo, pode surgir a partir da integração de diferentes mídias em uma redação.

Um outro grande problema dos meios hoje é pensar em “media centric” e não na “audience centric”.

Uma empresa não pode mais pensar em produtos, mas em informação. A Folha não faz só jornal, ela produz informação. Mas pensam como se estivessem fazendo papel e não internet. Precisam pensar mais na audiência, ela que mantém os meios. Senão, bem se vê onde estamos: numa crise das empresas de comunicação que vendem menos em todo mundo. Por que será? Será porque não pensam nos seus consumidores?

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