Archive for July, 2008

PARA GASTAR ALGUNS MINUTOS

// July 30th, 2008 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Em tempos de discussões sobre a construção da Usina Nuclear Angra 3 no Brasil, vale ver o que acontece mais de 20 anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, nesse especial de fotos produzido pela PixelPress.

Paulo Fehlauer deu a dica pelo Twitter sobre o novo trabalho do MediaStorm, Common Ground. Como sempre, ótima execução multimídia, misturando foto e vídeo. Especialmente boa a idéia do paralelismo nas fotos, apesar de um pouco repetitivo.

Aliás, o MediaStorm também tem um especial sobre Chernobyl. Vale comparar.

Sobre outros assuntos:

Best Web Gallery, com os melhores designs em flash

Open Source Cinema.  O projeto de filme colaborativo vai chegando ao final da primeira fase:

The voyage of Open Source Cinema / Basement Tapes (or Pirate Movie?) is nearing the end of its first stage – the movie is almost done! We’ve incorporated remixes, original videoblogs, music and photos drawn from this site (and the culture that surrounds us). But there is a final step we need open source cinema to take – the end of the movie!

O FUTURO D / A TELEVISÃO ONLINE HOJE

// July 23rd, 2008 // 1 Comment » // CONVERGÊNCIA, MULTIMIDIA

Estou envolvido num projeto que ando chamando de versão brasileira do TED.com, apesar de ser um pouco diferente. Mesmo assim, creio que será o maior banco de paletras online brasileiro sobre cultura contemporânea – mais de 1.500 horas que serão jogadas online, todo o acervo da CPFL Cultura. Por conta disso, andei pesquisando algumas coisas sobre o estado atual da TV na internet. Abaixo, publico parte das minhas descobertas.

A cena acima é do site Extreme Studio2Cine, um projeto francês dos mais incríveis que já vi para… para… bem, cinema interativo talvez seja um nome interessante, mas mesmo assim diz pouco – é difícil definir o que é novo. Depois de ver uma breve introdução, o usuário pode escolher a cena seguinte que irá compor o resto do filme. Até aí, pouca novidade. Mas começa a ficar interessante quando se pode escolher também a trilha sonora e colocá-la na linha do tempo, onde quiser. E fica realmente interessante quando se agrega um programa que transforma em áudio o que quer que você escreva. Mais que isso: o que você escreve é o voiceover dos atores, e você também coloca essa narração onde quiser na linha do tempo. Depois de fazer seu filme, você dá um nome e salva para que todos vejam. No projeto, fecharam algumas salas de cinema para exibir as melhores montagens.

Outro exemplo de TV interativa que descobri recentemente foi o Elections Video Search Gadget, produto da equipe de reconhecimento de voz do Google. Este vai em outra direção, mas parece ser o que mais transformará o modo de ver TV online num futuro próximo. O serviço faz o seguinte: pega os canais de políticos que existem no YouTube (não estamos falando do Brasil, veja bem), e aplica um programa que transforma fala em texto. Esse texto é indexado ao vídeo, cronologicamente.Você pode, então, fazer uma busca pela palavra que foi dita no discurso, e não apenas pelas palavras-chave pelas quais o vídeo foi cadastrado. O programa te entrega o vídeo que contém mais palavras buscadas, e mostra em qual trecho do discurso ela foi dita. O Google diz que isso serve, por hora, para ver o que dizem os candidatos sobre os assuntos que te interessam. Pode parecer futurista, mas é hoje.

Fazer buscas em arquivos de filmes não pelo título, mas pelo que foi dito, pode modificar a forma como entendemos esses acervos. Difícil imaginar inclusive as conseqüências dessa mudança.

A aplicação dessa tecnologia também está sendo testada pelo Blinkx, que chegou ao Brasil há alguns dias. É uma TV online que já tinha parceria fora do Brasil com a Reuters e a CNN. Conforme explica a Info:

O engine lê em repositórios da web o áudio de milhares de vídeos e os transforma em textos. Palavras com elevada incidência nestes textos, viram tags de busca. Na prática, a tecnologia permite buscar vídeos na web por meio de palavras chave.

O Blinkx já indexou 26 milhões de horas de vídeo online.

Por fim, o futuro aponta (ou já mostra) a busca pelas imagens que surgem na tela. Não vi ainda softwares online abertos para isso, mas não deve tardar. Empresas como a norte-americana L1 já desenvolvem, com sucesso, uma busca dentro de um banco por todas as imagens de George W. Bush, por exemplo. Na verdade, a tecnologia hoje está sendo usada para buscar criminosos nas câmeras CCTV – aquelas espalhadas pelas cidades. Naomi Klein conta como isso ocorre na China, e provavelmente também nos EUA.

Em pouco tempo poderemos ter uma TV online que funciona em P2P, tecnologia BitTorrent (como a Miro), que permite a busca por palavras, por imagens, permite assinatura de programas por RSS e, quem sabe, inclusive a edição dos programas que você assiste.

É nisso que estou trabalhando.

A EXPERIÊNCIA DO TWITTER NO RODA VIVA

// July 22nd, 2008 // 8 Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Estive nesta segunda-feira (21) no programa Roda Viva, da TV Cultura, na bancada dos “twitters”, junto com Elisangela Roxo e Marcelo Soares. Disseram que a presença de pessoas usando o Twitter durante o programa será permanente, mas sem a possibilidade de enviar perguntas, e sem nenhuma previsão de integrar com a transmissão da TV os comentários feitos pelo twitter. Só para explicar, qualquer um pode escrever sobre o programa no seu twitter. Colocando a tag #rodaviva, seu comentário é capturado e publicado junto com todos os que usam essa tag. Existem alguns programas para isso, eu uso o Twemes. Veja aqui os posts #rodaviva agregados.

Mas por que usar o Twitter durante o Roda Viva?

A idéia do Pedro Markun, que levou a idéia pra lá, é gerar uma nova camada de informação. A questão então passa a ser: qual valor essa camada nova de informação agrega ao programa?

Duas semanas antes, convidei, como gestor da comunicação da CPFL Cultura, Pedro Markun e Tiago Doria para virem twittar durante a gravação do programa de TV Café Filosófico, em Campinas. Ele escreveu a respeito. Fizemos a transmissão online, via streaming.

Nas duas experiências (Café Filosófico e Roda Viva) o que houve foi mais ou menos o equivalente a uma conversa no fundão da sala de aula. Marcelo Soares ficou com a mesma impressão.

O que estávamos fazendo – jogar um pouco dos bastidores do programa para a galera – foi acompanhado ativamente (com interação) por uns 10 espectadores, se tanto. Eles muitas vezes levantavam questões importantes sobre o que estava sendo dito na entrevista, mas isso ficava lá no twitter. Não chega exatamente a ser uma experiência de jornalismo interativo, convenhamos. Mas pode melhorar.

Dessa vez, no Roda Viva, teve um componente interessante de “termômetro” do debate. O pessoal reclamava da mediadora, apoiava um entrevistador, dizia que estava chato, etc. Talvez, com uma participação grande, possa realmente ser um medidor eficaz – inclusive se tiver alguma integração com a própria entrevista.

Outra experiência que levei adiante na gravação do Café Filosófico foi o uso integrado do Cover it Live com Ustream. Tudo feito a partir de um laptop, custo quase zero. Com a webcam, fazia a transmissão do evento, enquanto o Cover it Live integrava o vídeo num chat. Achei mais dinâmico que usar o Twitter. Há também a opção do Mibbit, outro chat fácil de usar. No caso do chat, talvez seja interessante ter um mediador online, puxando os assuntos, animando a discussão. Inclusive, o Cover it Live permite a criação de enquetes instantâneas.

Ocorre que a internet ainda não se estabeleceu como mídia, nem como linguagem. A televisão passou décadas repetindo modelos do rádio até encontrar seu melhor uso – e até hoje se reinventa. Ninguém sabe ainda o que fazer, ou como fazer comunicação na rede mundial. O que estamos vendo é o nascimento desse novo meio, que ainda é apenas a convergência de velhas mídias, sem ter desenvolvido uma linguagem própria, sem ter ainda A nova linguagem. Essas experiências de integração de twitter e chat em programas de TV são incipientes, mas importantes para clarear a mente e tentar enxergar possibilidades de usos dessas ferramentas. Muito mais, aliás, para quem participa delas do que para quem as observa.

Ainda veremos coisas muito mais interessantes por aí. Mas é um começo.

Leia sobre outras experiências:

Tiago Doria
Ladybug Brasil
Pedro Markun

BLOCO DE NOTAS: III NEWSCAMP

// July 19th, 2008 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Este post está sendo redigido do NewsCamp, em São Paulo. Será atualizado constantemente, como meu bloco de notas online (já que o Twitter está fora do ar…)

“O jornalismo é olhos, ouvidos e os outros orifícios da sociedade”

O divertido e o irritante do Newscamp, desse modelo de desconferência, é o total descompromisso das falas de cada um com as falas anteriores. Em cinco minutos, dez pessoas falam sobre todos os assuntos possíveis. A parte boa: sempre tem um fiapo de informação nova. Para continuar a conversa na linha mais interessante, o negócio é esperar a hora do cafezinho.

Para acompanhar pelo twitter: newscamp no twemes

Caru informa: 17 e 18 de novembro terá o segundo Colóquio Brasil-Espanha sobre jornalismo digital, provavelmente no hotel Tulip Inn (?), em São Paulo.

Sugestão de leitura: Convergent Journalism (2005), Stephen Quinn

Um .pdf sobre convergência no jornalismo

Fabiana Zanni: “Acredito na proposta de convergência porque se consegue passar conhecimento novo para os jornalistas mais antigos sem perder o acúmulo de experiência que esses mais velhos têm.”

“Pauteiro está tão raro de encontrar quanto editor de 60 anos” (essa não foi a Zanni que disse)

A Abril foi durante 50 anos editora de revistas. Agora é uma produtora de conteúdo, não importa mais a plataforma. A migração de audiência está acelerada. O que justificava para as empresas o freio no investimendo de verdade era que a verba publicitária não estava migrando. Nos últimos dois anos essa verba está migrando muito rápido. Deixou de ser testezinho, devagar, para ser pauta do dia. E nós fomos aprender nos jornais, que é onde isso bateu mais forte e antes. Se for buscar benchmarks em redações de revista, isso está começando. As semanais estão nesse movimento. Mas o conteúdo segmentado ainda não foi”.

No Daily Telegraph: o site como hardnews, serviço e personalização, regional (bairros), e no jornal reservada a interpretação e análise. E aí começou a fazer mais sentido. Não faz sentido guardar a notícia, mas faz sentido assimilar e depois analisar. Assim não é preciso competir consigo mesmo.

Dos 470 jornalistas, o Daily Telegraph perdeu 54 pessoas, por vários motivos, durante a transição. Dentro dessas, 50% estava no core group – editores pra cima. A resistência foi notada mais na área de decisão. Foi cultural, mais que tecnológica, a barreira.

Hoje, quase 50% da audiência é de fora da Inglaterra.

Recomendações da Caru: Gatewatching, Axel Bruns, e Making online News, Chris Patterson

MURILO SALLES: “NOME PRÓPRIO” VAI PRA REDE

// July 17th, 2008 // 6 Comments » // A REDE, CONVERGÊNCIA, PODCAST

Murilo Salles é o autor do filme Nome Próprio, baseado no livro e no blog da Clarah Averbuck. Estréia no dia 18 de julho, mas conversei com ele aqui na CPFL Cultura, em Campinas, onde tem uma pré-estreia. Entre outros assuntos, que devem ir pra rede logo, achei que a maior e melhor novidade é que ele é mais um autor que apóia a livre divulgação pela rede.

“Até porque é dinheiro público. É necessário [ir para a rede, para download livre]”

[UPDATE]: Ouça a conversa inteira com Murilo Salles sobre o filme Nome Próprio, método de criação no cinema, roteiro, cinema no celular e outro projetos.

 
icon for podpress  Murilo Salles - Filme Nome Próprio [1:07m]: Play Now | Play in Popup | Download

 
icon for podpress  Murilo Salles - 45min: Play Now | Play in Popup | Download

ENTREVISTA: DANIEL FLORÊNCIO

// July 15th, 2008 // No Comments » // ENTREVISTAS, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Daniel Florêncio é mineiro, mora em Londres, filmmaker, documentarista, promo videomaker, music videomaker, faz animações, shows para TV, filmes para celular, experimentações com novas mídias e, nas horas vagas, denuncia a censura no Brasil.

Nas últimas semanas, foi alvo de críticas do governo mineiro por conta de sua vídeo reportagem Gagged in Brazil (Censurado no Brasil, numa tradução livre), que circulou o mundo primeiro pela Current TV, depois por toda a internet. O vídeo gerou fortes reações do governo de Aécio Neves e vídeos-resposta no YouTube, assinados pela Juventude PSDB-MG. O assunto rendeu ainda réplica do autor, tréplica da superintendência de imprensa de Minas Gerais e deve seguir quente.

Abaixo, a entrevista respondida por e-mail pelo Daniel:

Como você foi parar no mundo de filmes, documentários, vídeos pra celular…? Como virou produtor independente?
Então… Sou formado em Rádio e Televisão pela UFMG. No Brasil sempre trabalhei com TV, filmes publicitários, videoclipes, e quando vim pra Londres pra fazer meu Mestrado em Art and Media Practice, eu ia desenvolver um filme experimental com telefones celulares / webcam. Ia ser uma coisa brincando com os meios que acabou não acontecendo. Acabei desenvolvendo um projeto de um documentário que tinha a ver com o que estava se passando comigo quando mudei pra cá, tinha migrado para o Reino Unido, virei um imigrante, e esse projeto para o Mestrado culminou no “A Brazilian Immigrant”, que rodou os festivais por aqui, foi pra Raindance, etc e tal.. Foi assim que entrei no mundo dos documentários. Virei produtor independente tambem de uma hora pra outra. Estava terminando de editar uma producao pra BBC, o desenho “The Secret Show” e me ligaram da Current TV em Sao Francisco perguntando se eu não queria produzir conteúdo pra eles pro lançamento do canal no Reino Unido. Eu ia escolher os temas e os desenvolver em conjunto com um Commissioning Editor do canal. A liberdade que eles me deram era tamanha que acabei experimentando produzir com celular alguns dos pods que fiz para eles. O proprio “Gagged” tem imagens feitas com celular…

Você diz no seu site que continua produzindo para a Current TV. Como é essa relação?
Na verdade o site esta um pouco desatualizado… O último filme que produzi para a Current TV foi o “Young, British, Illegal”, sobre um inglês que mora ilegalmente no Brasil, que produzi na mesma época do “Gagged in Brazil”. Depois me ocupei com outros projetos e acabei nao produzindo mais nada… Mas minha relação com eles é bem bacana. Estou sempre em contato com a equipe de Londres e de São Francisco e fiz bons amigos lá dentro. Alguns ainda trabalham lá e outros estão envolvidos em outros projetos.

Você foi premiado com o Bronze Telly Awards 08 pelo vídeo The Battle for Rio. Conta um pouco disso.
Foi bem bacana e eu nem sabia que eu estava concorrendo. Certo dia chego no trabalho e recebo um email da minha Commissioning Editor da Current TV, a Lina Prestwood, me dando os parabéns pelo prêmio. A equipe da Current havia selecionado algumas peças produzidas pra eles e as inscreveram no prêmio por conta própria. Por sorte, a minha acabou sendo premiada.

Você esteve na FilMobile conference, encontrou muita gente que discute produção audiovisual pelo celular… Como anda esse mercado e quais as perspectivas? O futuro é um celular na mão e uma idéia na cabeça?
Estive envolvido com o FilMobile desde a primeira conferência. Max Schleser, o organizador do evento, era meu colega de mestrado com quem eu sempre conversava sobre o assunto. Ele acabou indo fazer um PHD sobre o assunto enquanto eu produzia meus filmes com câmeras de celular. Estou envolvido com ele e um outro amigo em outro projeto de mídias móveis. Nao sei se o futuro é um celular na mão e uma idéia na cabeca, mas certamente o fato de termos em nossas mãos uma mídia que é ao mesmo tempo produtora e receptora de conteudo está provocando mudanças em como nos relacionamos com o espaço físico e com o que acontece ao noso redor, bem como modificando as relações entre emissor/receptor que vemos na midia tradicional. É uma mídia revolucionária.

Bom, falemos do incômodo que causou ao governo mineiro… Como foi a produção do Gagged in Brazil? Ele foi produzido pensando na Current TV ou foi parar lá depois?
O filme foi produzido PARA a Current TV. Ele era um dos filmes que eu deveria produzir dentro do “pacote” do meu último contrato com eles. Por meses o enfoque e a linha do filme foi discutido com a Lina Prestwood, pois, apesar de o tema mídia ser do interesse do canal, eles pensavam: “porque diabos o público da Current iria querer saber sobre Aecio Neves, o governador de um estado brasileiro?”. Daí tivemos que sair um pouco de exemplos muito pontuais e partir pra um quadro mais geral da coisa. Uma perspectiva mais internacional, a relevância da TV Globo e o fato de que Aecio é cotado para ser candidato a presidente do Brasil em 2010.

Depois da coleta de material, entrevistas, pesquisa, etc, o filme ainda demorou bastante tempo pra ser montado, pois com todo o material que eu tinha foi dificil estruturar tudo dentro dos 7 minutos que o canal tinha me disponibilizado. O filme ia e voltava da Current, com sugestões da Lina e modificações do editor. Muito foi deixado de fora, e mesmo assim, o filme acabou ficando com 8 minutos. Depois disso o filme ainda demorou bastante tempo pra passar pelo departamento jurídico, pois dada a sensibilidade do tema, o canal queria ter certeza de que não haviam brechas legais para um processo ou algo do tipo.

Teu post “Mercenário” é uma boa resposta ou quer acrescentar algo?
Uma resposta oficial aos vídeos deles foi publicada no Observatório da Imprensa da semana passada, e a minha tréplica à réplica da Superintendencia de Imprensa do Governo de Minas vai sair lá essa semana.

Cinema, TV, celular ou web?
Todos. Mas um de cada vez.

O “ARREVISTAMENTO” DOS JORNAIS

// July 9th, 2008 // 1 Comment » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO

Eugênio Esber, diretor de redação da revista Amanhã, que trata de economia, gestão e negócios, esteve no seminário promovido pela Associação dos Diários do Interior do RS para apontar alguns caminhos a esses jornais. Causou alguns calafrios com suas idéias sobre como deverão evoluir esses diários para não desaparecerem. Abaixo, alguns pontos que ele levantou:

Não é possível que os jornais dêem apenas “pílulas” de notícias – releases, matérias que não agreguem inteligência ao assunto. O jornal não pode dar tudo, nem de tudo um pouquinho. Para que gastar papel com isso? Já está tudo na internet.

N.E.: Lá eu soube que o preço da tonelada de papel subiu, no último ano, de US$ 600 para US$ 900.

Esber diz que os jornalistas não podem ter medo de se fazer algumas perguntas. E ele faz:

Será que precisamos imprimir jornais todos os dias? Sábado e domingo, por exemplo? Se o jornal vai ser mais analítico, precisa ter ênfase na reportagem. Matérias curtas, com uma fonte só, geralmente oficial, ou releases, isso tudo está na internet. No jornal de 2011 não vejo nenhum release.

Ele chama isso de “arrevistamento” dos jornais. Ou seja, os jornais irão tomar o espaço das revistas. Na visão dele, os jornais têm um problema nas mãos com o desenvolvimento das notícias rápidas da rede em várias plataformas. Mas as revistas têm outro, muito mais complicado.

ENTREVISTA: DANIELA RAMOS – PARTE 2

// July 7th, 2008 // No Comments » // A REDE, CONVERGÊNCIA, ENTREVISTAS, JORNALISMO

Leia a segunda parte da entrevista concedida pela professora Daniela Ramos, pesquisadora de ciberjornalismo:

Todos falam em novos modelos de financiamento. O conteúdo fechado, pago, já é coisa do século passado? Quais modelos interessantes você conhece?

Modelo interessante e que funciona hoje (e que pode não funcionar amanhã) pode o da Prisacom: vender serviços digitais – ringtones, por exemplo. Ninguém paga mais por notícia (estas de última hora), isso é certo. Talvez pague-se por informação exclusiva e especializadada (como na área econômica), mas isso é outra coisa – são informações produzidas com mais tempo, profundidade e exclusividade, para quem pague por isso.

Outra coisa que parece interessante é cobrar micro quantias, como no na Coréia do Sul: R$ 0,05 para que seu avatar seja X e não Y, R$ 0,04 para adicionar uma música exclusiva e assim por diante… Aquele portal famoso que integra todo mundo na Coréia do Sul funciona assim, CyWorld. Este parece um modelo sustentável. Outra coisa também que é na Coréia quase não existe mais indústria fonográfica, as pessoas pagam por música digital. Sim, elas pagam por isso! Não são só as empresas de comunicação que estão crise, convém lembrar, mas todas implicadas na circulação de bens culturais imateriais.

Não é minha especialidade modelos de negócio, mas o que vejo também é que todo mundo pensa que vai ganhar dinheiro tranportando um modelo de negócio de um meio para outro, e isso absolutamente não funciona – jornal em papel ainda vende, jornal na internet não. E não necessariamente a internet vai ser um meio de ganhar dinheiro com jornalismo…

A quantas anda o ensino de jornalismo e novas tecnologias? Primeiro muda a cultura do leitor, depois mudam as redações, e por fim as universidades, ou a ordem das mudanças é outra?

Parece ser esta a ordem, sim, mas ouso dizer que dentro da universidade ainda temos a liberdade de pensar e experimentar online antes das redações, que ainda são muito caretas e limitadas em termos de repensar a relação com a audiência. Mas o fato é que enquanto TV e Rádio nas Universidades tem estúdios e técnicos para o desenvolvimento de trabalho prático, os cursos de Online não têm. Parece que o professor precisa ser desde programador de Action Script e outras linguagens, designer, flasheiro, desenvolvedor, técnido de internet e…jornalista! Ou seja, é impossível ensinar Ciberjornalismo sem ter laboratórios adequados (que poucas Universiades ou Faculdades têm), com wi-fi ou sem internet na sala de aula e em laboratórios equipados todos com data show.

É preciso ter pelo menos um técnico programador/flasheiro para ajudar a desenvolver projetos mais interativos com os alunos, em conjunto com a orientação do professor.

Outra coisa é a produção que deveria envolver Rádio, TV e internet: poucos professores destas áreas se dispõem a tentar desenvolver algum projeto em conjunto. Cito a professora e jornalista Regina Soler, da área de Tele, da Faculdade Cásper Líbero, que tem uma visão pioneira no desenvolvimento de linguagem audiovisual para celular e internet como uma parceira; a professora Egle Spinelli, da Universidade Anhembi Morumbi, que também tenta integrar e fazer esta ponte. Mas na área de Rádio ainda não encontrei nenhum professor disposto a fazer algo em conjunto entre disciplinas, por exemplo. É muito difiícil pensar e ensinar jornalismo na internet como algo separado de todo o resto do curso! E essa é a visão que acaba predominando, infelizmente, entre professores e alunos.

Uma disciplina de online em um curso de 4 anos não dá conta. Ficamos parecendo baratas tontas – toda semana falamos de um assunto que aparentemente é “desconectado” de todo o resto (mas que no fundo têm relação com a rede). Essa é a principal crítica dos alunos da Cásper Líbero: o curso de Novas Tecnologias parece não ter uma “unidade temática”, porque tentamos dar conta de muitas áreas: planejamento e manutenção de sites, métrica, cultura digital, jornalismo participativo, weblogs, aula prática, linguagem multimídia, convergência, produção para celular… Precisamos ter uma disciplina a mais no currículo da área digital para focar mais e definir melhor áreas de interesse. Queremos dar conta de tudo que vemos, ouvimos, acompanhamos, estudamos, só que nós que trabalhamos e pesquisamos a área somos geeks malucos que acham que tudo está interconectado, acreditamos nisso, mas não é essa a visão/experiência que todos têm. Além disso é preciso integrar mais a prática com a teoria, pelo menos onde dou aula, na Cásper Líbero, isso é fundamental.

Qual o perfil do novo jornalista? Quem sai da universidade precisa saber o quê?

Fundamental é o novo jornalista não ter medo do seu público, como atualmemente parece que os jornalistas têm. O público comentou, criou blogs, fez fotos e …. que medo!!! Vamos perder a profissão! Só nós que cursamos Jornalismo podemos fazer fotos, escrever e noticiar?! Isso não é verdade. Precisamos conhecer e tratar o público como aliado e não como inimigo.

É claro que na próxima tragédia por negligência e descaso público no Brasil o passante que estiver com o celular vai fotografar o próximo acidente na construção do metrô, a próxima arquibancada que desaba na cabeça de torcedores, e assim por diante. O público sempre vai chegar antes do jornalista, mas o jornalista precisa ir e apurar – em pronfundidade! Dar repostas, fazer relações entre fatos, pensar.

Quem sai da Universidade precisa saber relacionar fatos, estabelecer conexões, pensar em profundidade. Em abril deste ano assisti a uma palestra do Professor José Luis Orihuela, do blog e-Cuaderno, no III Congreso Internacional de Ciberperiodismo – Madrid. Veja o que ele fala sobre isso, é bem interessante, ele fala em “competências do jornalista na era digital”:

Buscar, selecionar e misturar, otimizar e produzir informações novas, em áudio, vídeo, foto e texto, e de forma integrada;

Desenhar: saber explicar visualmente a organização da informação, bem como a arquitetura de um meio digital para distintas audiências e plataformas;

Expor e argumentar em público sobre suas idéias;

Refinar a informação, e aqui está um diferencial, pois este ponto determinará o valor da informação, e se as pessoas vão pagar por ela ou não;

Representar a informação de forma visual, pois é a forma mais eficaz de comunicação de nossas idéias com outras áreas de conhecimento, como programação e design;

Aprender a cooperar, pois o que acontece hoje é somente uma simulação. “Mande-nos” fotos, SMS… mas como se gestiona eficazmente a colaboração?

Mudar sempre, redefinir e repensar nossa identidade profissional muitas vezes na vida;

Empreender, pois o horizonte do estudante era conseguir um emprego, e agora há muito mais empreendedorismo do que antes; levar a sério a formação empresarial da nossa profissão;

Inovar, e passar sempre do discurso para a ação.

Competências essenciais:

Ler, no sentido amplo. Aprender a decodificar a informação a partir de ligações e links;

Pensar de forma nova os novos paradigmas;

Escrever, no sentido amplo também, em várias plataformas, texto, áudio, vídeo, textos flutuantes, hipertextos, escrita em cooperação;

Comunicar, a base da profissão, de forma eficaz e em diversas plataformas;

Aprender a aprender, de forma autônoma e independente, durante toda a vida. A formação do jornalista será sempre permanente.

ENTREVISTA: DANIELA RAMOS – PARTE 1

// July 6th, 2008 // 2 Comments » // A REDE, CONVERGÊNCIA, ENTREVISTAS, INFOGRAFIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Daniela Osvald Ramos cursou Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fez mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, onde também cursa o doutorado. Agora está em Santiago de Compostela. Trabalha com internet desde 1995 e pesquisa linguagens digitais, weblogs e formatos de informação na web para o campo do Webjornalismo.

Comecei a me envolver com internet quando estudava Jornalismo na Universidadade Federal do Rio Grande do Sul. Todos podíamos ter uma conta de email e ir ao CPD da Universidade para acessá-lo, na época que imprimiam emails e deixavam num escaninho do usuário… Neste mesmo ano a Zero Hora tinha colocado no ar o site do ZH Informática. Quem fez isso foi o Caíque Severo, hoje no IG, que também era da Fabico/UFRGS. Então, deu uma luz: com todo mundo falando mal de impresso, rádio e TV, mercado saturado, poucas possibilidades de usar a criatividade, pensei em começar a entender mais de internet e HTML para conseguir um emprego nesta área nova que estava surgindo. E em junho de 1996 entrei na Zero Hora para atualizar o site do ZH Informática, que na época era todo “feito à mão”. HTMLSite, FTP, programação de códigos… Fazíamos só o site do caderno, eu e o Marco Ribeiro, ficavámos em horários diferentes. Em dezembro de 1996 nos chamaram e ampliaram a equipe para colocarmos no ar o jornal inteiro, o projeto ZH Digital. Aí chegou um programador de PERL que montou o software de publicação. A equipe, liderada pelo Luis Fernando Gracioli, definiu os templates do jornal inteiro e construímos os templates de código para o publicador. A partir de janeiro de 1997 o trabalho era colocar o jornal inteiro no publicador, todo dia, e atualizarmos o serviço de últimas notícias ZH Agora. E em julho de 1997 mudei para São Paulo para integrar o então núcleo de internet da Editora Abril, Abril Online, pós-BOL e pós fusão com o UOL, um núcleo que sobreviveu a tudo isso, do qual agora a Fabiana Zanni, que na época era editora, hoje é diretora de Mídia Digital da Editora Abril.

Aqui você lê alguns artigos dela , aqui está ela no Twitter, e abaixo uma entrevista que respondeu por email enquanto está na Espanha:

Jornalismo digital, jornalismo online, jornalismo multimídia, jornalismo em rede… Com qual termo você trabalha, e por quê?
Uso o termo Ciberjornalismo pois abarca todos estes outros termos, é um conceito mais amplo.

Pelas andanças no mundo e conversas que você vem tendo, dá para apontar quais as tendências para o jornalismo? Vídeo online? Participação do leitor? Tudo junto e mais outras coisas?

O video online é sim uma tendência para os sites de jornais. Mais uso e combinação de texto e vídeo, que chama-se de multimídia por justaposição, um conceito do Professor Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra. Justapor mídias e não integrá-las é um caminho, mas também produzir multimídia por integração, como o Clarín.com faz e El Mundo e El País nos infográficos “interativos” (uso aspas pois são chamados assim, mas é uma interatividade técnica e não social).Só para citar dois meios, NY Times e vários americanos também fazem infografias animadas com informação de banco de dados.

A única tendência que parece acertada para o jornalismo é: o modo como ele tem sido feito até hoje precisa mudar.

A tendência é a mudança. Sem dúvida é necessário refletir sobre o papel do Jornalismo na sociedade atual. Para que serve? Como se continuar a remunerar jornalistas se as vendas caem tanto? Qual é o modelo de negócio que sustentará essa indústria? As pessoas ainda pagam – e pagarão – por notícias? Por que elas continuarão ou não a comprar hoje notícias impressas de ontem? As pessoas pagam para baixar ringtones para celular, mas não pagam uma assinatura de jornal online. Por que? O que muda então? Qual é o negócio de uma empresa de comunicação? Informação, mas que tipo de informação. Estou respondendo a tua pergunta com mais perguntas, mas vejo poucos jornalistas se perguntando por isso no Brasil.

Um dos pontos é também repensar a relação com a audiência. A audiência está mais presente do que nunca e isso não necessariamente é uma desvantagem, mas na hora em que a empresa de comunicação deixa de ser a única protagonista da comunicação, isso causa uma crise de papéis. É preciso redefinir o papel da empresa de comunicação neste novo cenário, e qual o lugar do jornalismo nela, e da relação que a redação terá com a audiência; obviamente não poderá mais ignorá-la e fingir que, uma vez publicada uma matéria, reportagem, notícia, o processo acaba aí. Pelo contrário: é aí que começa o processo todo. Mas até então, para os jornalistas, publicar era um ponto final no trabalho. Não é mais. Precisam dar conta do desencadeamento da conversa pública que é gerada a partir desta informação que eles mesmos publicaram… Isso não me parece ruim. Por que seria? Temos que repensar uma rotina jornalística, e isso é ótimo!

O jornalismo, e por isso está em crise, de uns tempos para cá virou “piloto automático”. Não se pensa para fazer jornalismo.

As empresas não pensam. Por exemplo, A Folha de S. Paulo acabou de lançar uma nova versão do Guia da Folha – oh! Agora sem as limitações do papel! Ótimo, mas ao que parece a equipe não entendeu que, por ser online, podem incluir, por exemplo, Literatura nas opções de lazer e cultura da cidade. Há vários saraus acontecendo em São Paulo, movimentos novos de poesia e literatura em geral, e uma das maiores empresas de comunicação do país não aproveita um novo projeto online para dar conta de mais este público – sim, público consumidor. E aí o que acontece? Este público vai se informar nos blogs referência sobre o assunto. E aí, por que eu preciso ver esse site se ele não me interessa, supondo que eu sou este público potencial não conteplado? Não vou ver, não vou dar audiência, não me interessa absolutamente.

E aliás, um projeto desses não contempla também – veja bem, não estou defendendo que não deva haver hierarquia e apuração profissional, é por isso que o Guia é uma referência – uma seção participativa (e moderada por jornalistas) na qual poderíamos ter mais acesso às experiência de outros que podem compartilhar informações efetivas. Por quê? Porque não pensa em Jornalismo no século XXI, mas pensam Jornalismo como no século XIX.

Como você define e como você vê a convergência de mídias no jornalismo?

A convergência é um tema complexo. Até agora pesquisas e estudos apontam quatro níveis de convergência:

  • Integrated production – Produção Integrada
  • Multiskilled professionals – Jornalista Polivalente
  • Multiplataform delivery – Entrega multiplataforma / sob demanda
  • Active audience – Audiência ativa

Isto está no artigo “Four dimensions of Journalistic Convergence: A preliminary approach to current media trends at Spain”, disponível online. São conceitos que nós, pesquisadores da área, estamos usando atualmente.

Há a questão das redações integradas (impresso que junta com Tv, rádio, internet – várias combinações), que é um tema e uma área de estudo; a questão da formação e da atuação do jornalista multimídia/polivalente, que é outra área de estudo; a entrega de conteúdos em várias plataformas, celular, internet, TV, impresso – outra conseqüência e demanda de uma produção de conteúdos multimídia; e a questão da audiência ativa, também está dentro desta área de pesquisa da convergência.

Além disso, Salaverría, já citado, já escreveu sobre as “quatro dimentões”: empresarial, tecnológico, profissional e comunicativo”. A referência está aqui.

A convergência entre mídias, que pode gerar novas linguagens digitais aplicáveis ao jornalismo, pode surgir a partir da integração de diferentes mídias em uma redação.

Um outro grande problema dos meios hoje é pensar em “media centric” e não na “audience centric”.

Uma empresa não pode mais pensar em produtos, mas em informação. A Folha não faz só jornal, ela produz informação. Mas pensam como se estivessem fazendo papel e não internet. Precisam pensar mais na audiência, ela que mantém os meios. Senão, bem se vê onde estamos: numa crise das empresas de comunicação que vendem menos em todo mundo. Por que será? Será porque não pensam nos seus consumidores?