Posted on Jun 25, 2008

HACKERS CUBANOS

Poucos sabem que um dos maiores investimentos de Cuba atualmente é na formação de hackers. A Universidad de las Ciencias Informáticas é uma espécie de Universidade de São Paulo (USP) de um curso só. São mais de 10 mil estudantes espalhados em dezenas de prédios numa área cercada de 270 hectares. São cinco anos de estudo e em 2007 foi formada a primeira turma: 1.334 graduados. Um dos prédios de salas de aula funciona totalmente em software livre.

A história da UCI remonta à história da tecnologia em Cuba. Vários dos prédios mais antigos eram usados pela URSS, durante a guerra fria, para decodificar mensagens inimigas – leia-se dos EUA. Pouco antes da queda do muro de Berlin, do fim da união soviética e da crise cubana, em 1987, surgiu o Programa Jovem Club de Informática, em 600 escolas no país, que ensinava a mexer em computador. Até então o computador era aquele trambolho esquisito que não fazia muita coisa.

Em 1990, enquanto o mundo começava a descobrir o mundo pela internet discada, chega o primeiro e-mail em Cuba. Só em 1992 acontece o primeiro acesso à internet, pelo programa Jovem Club. Uma década de crise se seguiu, chamada de período especial – sem os subsídios soviéticos, sem indústria desenvolvida, sem apoio internacional, com um bloqueio econômico imposto pelos EUA.

Em 1998 Cuba decide se abrir para o turismo e começa a recuperação econômica. Desde 2001 o acesso à internet pelo Jovem Club é grátis. “O Jovem Club é o nosso cibercafé, com a diferença que é grátis”, diz o assessor do reitor da UCI, Tomás López Jiménez. Mas existe outra grande diferença: a  internet do Jovem Club, na verdade, só acessa a intranet da ilha. Veremos mais adiante o que é a intranet.

A internet comunista é assunto polêmico. Cuba é sempre citada ao lado da China como um dos países que pratica a censura. Pouco ou nada se escuta das razões de Cuba – o outro lado, como dizem, não costuma ter muito espaço.

O professor de Teleinformática (ou internet) da UCI, Yohandri Ril Gil, dá o outro lado: o governo dos EUA bloqueia o acesso à internet da ilha. O bloqueio econômico impede que as companhias telefônicas negociem um acesso maior com o governo cubano, sob pena de sofrerem sansões. Em 1996, resultado de um movimento de uma ONG e da OEA, o Congresso americano aprovou um provedor de internet para Cuba (ADSL). “O que nós fazemos aqui é trabalhar para que esse padacito de banda seja de interesse social. Procuramos um modelo diferente de uso da internet do modelo neoliberal”.

Eles explicam que não poderiam liberar o acesso geral e irrestrito porque, primeiro, não são todos os que podem ter computador. Se apenas aqueles que têm [acesso a um PC] usarem a pequena banda da ilha para acessar pornografia, por exemplo, estariam dificultando o uso da rede por aqueles que precisam, como médicos, jornalistas e comerciantes. “Por isso não permitimos que as pessoas tenham acesso individual, a não ser em casos específicos. Porque o acesso de um pode prejudicar o acesso de todos.”

Mas o que há na intranet de Cuba? Uma busca no Google.com.cu por .cu mostra tudo. Não entenda mal: todo site cubano tem a terminação .cu, assim como os sites brasileiros são .br. Além dos sites, todo cidadão tem direito a um email cubano, oferecido pelo governo. “Quando [o tamanho da banda] é limitado, tem que otimizar. Por isso temos três tipos de acesso: o acesso ao e-mail (um servidor de e-mail), acesso à intranet e acesso pleno”, justifica o professor de internet. O governo alega que se abrisse os servidores para o Gmail, por exemplo, o tráfego sem controle de informação pesada acabaria com a banda da ilha. Os dissidentes dizem que é claro que o governo diz isso, mas que na verdade o que querem é controlar a informação.

Segundo a UCI, hoje existem mais de 300 mil contas de intranet, mais de 700 mil contas de correio e 700 mil computadores na ilha, contando os pessoais, de escolas, empresas, etc. Cuba tem 11 milhões de habitantes, e Havana, sozinha, dois milhões. “Mas quando se diz que em Cuba há um certo número de contas de intranet, não se sabe ao certo quantas são, porque as pessoas são solidárias. Compartilham o acesso, emprestam para os vizinhos usarem com a senha deles. Não dá para saber se é preciso multiplicar o número de contas por dois, três ou quatro.”

Se os EUA liberassem o acesso pleno, se Cuba pudesse ter banda larga, liberaria o acesso irrestrito para todas as pessoas? Alguns garantem que sim, outros têm certeza que não. Cuba tem um backbone nacional e mil quilômetros de fibra ótica esperando um possível cabo submarino que seria  construído em 2009 desde a Venezuela. Aí veremos.

Até 1995, todas as centrais telefônicas cubanas eram da década de 30. Nessa época, a densidade telefônica – linhas fixas por 100 habitantes – era de 5. Antes de liberarem a compra de celulares era 10%. Querem chegar a 25% ou 35% nos próximos anos. No Brasil, em 2002 já era de quase 30 telefones fixos por 100 habitantes.

Cuba tem 100% de ensino de computação. “Ensinar que existe um computador no qual é possível escutar música, fazer edição multimídia, escrever, seja no Windows ou no Linux, é algo que poucos países no mundo podem dizer que oferecem a todos”, vangloria-se o assessor do reitor. “Toda escola de Cuba tem uma TV com vídeo e um computador. Mesmo escolas distantes tem isso. Muitas têm intranet.”

Na UCI é diferente. Os alunos do primeiro ano têm acesso à intranet, e os dos outros, do segundo ao quinto, tem acesso pleno. Mas todos têm uma cota de Mb, que vai de 100 Mb/mês até 850Mb/mês, mais ou menos. “Isso tudo para não congestionar a rede”, justifica o professor.

Eles garantem que Cuba está tentando encontrar um jeito diferente de usar a rede mundial de computadores. “Não usamos a internet como uma ferramenta de acesso a coisas boas e ruins. Fazemos um uso útil da rede. Para ter acesso pleno, por exemplo, o aluno da UCI precisa se comprometer a não acessar sites de pornografia, promover o spam ou visitar sites terroristas. É um código de ética. Há sansões, de leves a mais pesadas, para quem quebra o código.”

Sendo uma universidade de ciências da informática, num país com o qual a Microsoft, a Adobe, a Sun e várias outras empresas não negociam, como ensinar os estudantes a usar programas básicos como o Windows, o PhotoShop e o Java? “Não nos vendem programas (por causa do bloqueio), então precisamos crackear. Até queríamos pagar as licenças, mas não podemos”, zomba o assessor do reitor.

Assim como os mecânicos de Cuba fazem milagres para rodar aqueles velhos Buicks com peças inventadas, tiradas até de liquidificadores, os programadores cubanos estão aprendendo a criar códigos num ambiente totalmente insalubre, sem peças, crackeando até os mais básicos programas e desenvolvendo sobre barreiras sólidas de um bloqueio norte-americano. Que ninguém se surpreenda se em alguns anos os maiores hackers do mundo forem cubanos.

ERRATA: o artigo foi modificado para corrigir o cargo e a grafia do nome de Tomás López Jiménez

Posted on Jun 18, 2008

VOCÊ DIZ O QUE QUER VER: A INTERNET MONTA O VÍDEO

Depois de ver o MoodStream, do banco de imagens Getty, decidi compartilhar aqui uma idéia que tive, mesmo sob o risco de que alguém a leia e a realize antes de mim.

O MoodStream é um programa online em que você “regula” alguns controles conforme o seu humor. Escolhe, por exemplo, se quer ver imagens mais quentes ou mais frias, mais engraçadas ou mais tristes, em preto e branco ou coloridas, etc. Feito isso, clica num botão e o programa busca fotos, vídeos e músicas no banco de dados da Getty Images. E te apresenta um videoclip personalizado, na hora. (A foto acima veio de uma montagem que fiz.)

As possibilidades para  o jornalismo, por exemplo, são várias. Você pode produzir um documentário sobre imigração japonesa, entrevistar dezenas de pessoas e classificar os vídeos com palavras-chave. Depois, o usuário escolhe: quero ver apenas os trechos que falam sobre “segunda guerra mundial”, num vídeo de 10 minutos. O programa monta o mini-documentário e te apresenta, na hora.

Já tenho uma idéia para um roteiro nesse modelo. Se alguém quiser realizar isso, seja na programação ou no financiamento, favor me escrever. Senão, vou usar para sempre esse post pra dizer que tive a idéia primeiro.

O que não vai me servir pra nada, claro.

Via GJol

Posted on Jun 17, 2008

AMBULANTES NO TREM: TCC MULTIMÍDIA

Um grupo de cinco estudantes do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi fez uma reportagem multimídia como poucas redações brasileiras são capazes de fazer. Apresentado como trabalho de conclusão de curso (TCC) – já aprovado -, é uma grande investigação sobre os ambulantes que trabalham nos trens de São Paulo.

Com a palavra, Fausto Sposito, um dos jornalistas:

No início, a idéia era fazer um documentário sobre os vendedores ambulantes, mas logo percebemos que 95% dos Trabalhos de Conclusão de Curso eram documentário ou livro-reportagem. Daí, surgiu a idéia de fazer uma Grande Reportagem Multimídia, ou Web-documentário, não sabemos direito ainda.

Nos 6 primeiros meses, fizemos um pré-projeto, com um levantamento teórico do tema e do produto. Buscamos textos de diversos autores (André Deak, Ramon Salaverria, Pollyana Ferrari, etc…) para embasar o produto.

Sob a orientação do professor Fabio Cardoso, da Universidade Anhembi Morumbi, estudamos muita coisa sobre discursos multimídia e narrativas não-lineares. Era preciso evitar jogar um monte de conteúdo que não dialogasse entre si. Nos baseamos nos especiais do jornal argentino Clarin e nas Grandes Reportagens da Agência Brasil.

Nos 6 meses seguintes, nosso grupo, composto por 5 pessoas, partiu para as linhas da CPTM. Procuramos atuar como repórteres multimídia. Cada um com sua máquina fotográfica, registrando imagens mais subjetivas, um responsável pela filmagem, outro responsável pela captação de áudio e os demais coletando informações para a produção dos textos. Editamos vídeos e áudios, tratamos fotos, tudo em equipamento amador. “Contratamos” o colega Alessandro Piemonte, do curso de design, para a programação em Flash, mas acompanhamos todo o processo de criação artística da matéria.

Na banca, o professor André de Abreu fez diversos elogios, mas levantou pontos pertinentes, como a falta de crédito e o o excesso de pop-ups, que deverão ser corrigidos ainda esta semana. Desde a banca, na última quarta-feira, a repercussão tem sido positiva, mas ainda queremos acrescentar conteúdos relevantes que acabaram não entrando pela falta de tempo (fotos no mapa informativo, mais fotos na galeria, etc…).

A apresentação está muitíssimo bem feita, mas, como Fausto me pediu, aponto alguns probleminhas:

- O principal é que a navegação não é completamente intuitiva, e só numa segunda entrada é que fui perceber que há uma quantidade enorme de informação em outros vagões do trem. Eu pensei que tudo estava ali, na abertura, mas ao mover o mouse nos cantos da tela percebi que havia muito mais. Umas flechas de cada lado da tela resolvem isso.

-  Ainda há muito texto, daria ainda para editar bastante.

- o player escolhido para o fala povo é interessante, mas confunde. É preciso avisar que está sendo carregado o buffer, senão parece que está com defeito.

A turma está de parabéns, ainda é raro ver trabalhos assim no Brasil. Espero que com a entrada dessa nova geração no mercado, isso seja cada vez mais comum nas redações.

Posted on Jun 13, 2008

MISTURA EXPLOSIVA: TSE, INTERNET E ELEIÇÕES

Até este exato momento, o Technorati registrava apenas 39 resultados em blogs para a busca Resolução nº 22.718. Mas isso deve mudar bastante, porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou esses dias a resolução que disciplina o uso da internet na campanha eleitoral deste ano – justamente a de número 22.718.

O Global Voices acompanhou alguns blos que comentaram a discussão para explicar o problema: Juízes confundem YouTube com U2

[O] juiz blogueiro, George Marmelstein, assistiu à sessão do TSE em Brasília pessoalmente. Veja abaixo suas impressões:

Na medida em que eu ia vendo as argumentações apresentadas, ficava cada vez mais surpreso ante o despreparo dos ministros para entenderem o que é a internet. Parecia – e essa impressão foi muito forte – que eles não sabiam do que estavam falando. Para se ter uma idéia, Youtube virou U2.

No entanto, merece destaque o posicionamento do Min. Carlos Ayres Brito nesse assunto. Ele disse algo que eu já defendi: em matéria de liberdade de expressão, o Judiciário não deveria tentar regulamentar a internet sem saber do que se trata. Querer igualar a internet com as demais mídias é um grave equívoco. A internet, ao contrário da imprensa tradicional, não tem dona e a informação é livre e gratuita.

No final das contas, a solução foi uma amostra clara de que eles não sabiam direito o que estavam decidindo naquele momento. Ficou decidido que à medida em que os problemas surgissem, a solução seria dada caso a caso. Tanto melhor para os advogados e tanto pior para os eleitores, que ficam com uma espada de Dâmocles em suas cabeças sem saber direito o que podem e o que não podem fazer.

A Justiça já fez vítimas – Pedro Doria foi obrigado a retirar um banner de apoio ao Gabeira (para entender, vale ler O Biscoito Fino). É bom ficar de olho, porque esse debate vai começar a pegar fogo e a Justiça está armada com galões de gasolina.

Posted on Jun 6, 2008

MAPA GLBT – GOOGLE MAPS PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

Essa é uma parte da tela de abertura do mapa apresentado na 1ª Conferência Nacional GLBT. É o trabalho em que estive envolvido no último mês, e é apenas uma amostra do potencial do georreferenciamento nas mais diversas áreas.

Aí estão cadastradas centenas de ações do governo voltadas para esse público e associações que estão espalhadas pelo país. Essas centenas são também apenas uma pequena parte das milhares de ações e associações existentes. Um mapa com todas elas cadastradas permitiria um olhar geográfico para a aplicação das políticas públicas: onde faltam associações? Onde o Estado se faz menos presente?

O cadastramento de todas as associações também permitiria que esse público encontrasse facilmente organizações próximas a onde moram. Poderia-se também, num outro momento, apontar onde os crimes de ódio são mais comuns, onde mais homossexuais são assassinados. Tudo isso auxiliaria o governo a promover os direitos humanos de uma forma bastante transparente, dando certeza ao cidadão de que as verbas são destinadas a locais que realmente precisam delas.

O Google Maps popularizou o uso dos mapas – e eu já tinha até escrito sobre os usos cada vez mais criativos (mas depois, ainda soube de uma rede de farmácias que oferece a loja mais perto do seu CEP). Mas não são só empresas que podem se beneficiar do uso de mapas (num mundo onde o celular/GPS será cada vez mais comum). O governo, se prestar atenção nas possibilidades abertas, também pode fazer muita coisa interessante (e o Mapa GLBT é um exemplo).

PS: O IPSO, que fez junto comigo esse mapa GLBT, já fez outros trabalhos interessantes para o Ministério da Cultura: o mapa dos pontos de cultura, por exemplo.

Posted on Jun 3, 2008

HISTÓRIA DAS COISAS: DOCUMENTÁRIO INTERATIVO

Até hoje eu dizia que não conhecia, no mundo todo, uma experiência de documentário interativo online tão avançada quanto a experiência do Nação Palmares, que fizemos na Agência Brasil e que apresentei aqui há alguns meses. Agora terei que mudar o discurso.

Conheci hoje o Story of Stuff, um vídeo bastante complexo, onde se pode clicar em elementos da tela e acessar outros vídeos ou textos com mais informação a respeito. Muitíssimo bem feito. Curiosamente, o tema é o mesmo que trabalhamos no primeiro teste de vídeos interativos, há mais de um ano: consumo consciente. Diz o site deles:

From its extraction through sale, use and disposal, all the stuff in our lives affects communities at home and abroad, yet most of this is hidden from view. The Story of Stuff is a 20-minute, fast-paced, fact-filled look at the underside of our production and consumption patterns. The Story of Stuff exposes the connections between a huge number of environmental and social issues, and calls us together to create a more sustainable and just world. It’ll teach you something, it’ll make you laugh, and it just may change the way you look at all the stuff in your life forever.

O projeto é financiado pela Tides Foundation e por um grupo que defende a produção e o consumo sustentável. Segundo o site, mais de 2 milhões já assistiram. Foi executado por uma equipe de umas 20 pessoas, da empresa Free Range Studios – e já ganhou um prêmio nos EUA, da South By Southwest (SXSW) Interactive Conference, como melhor website educacional. A Free Range é a mesma empresa que fez os famosos The Meatrix e Grocery Store Wars.

O hipervídeo é interessante como experiência, mas é ainda menos revolucionário que o hipertexto. Basicamente, porque ao clicar num objeto do vídeo, a fala do apresentador é interrompida, e ao retornar ao vídeo principal, não dá para lembrar as primeiras palavras da frase, prejudicando o entendimento. No hipertexto, basta ler as frases anteriores e o contexto está de volta. No vídeo não é assim.

Talvez se encontre uma maneira simples de usar o hipervídeo – e essa é a experiência mais avançada que já tive notícia. Certamente com a chegada da TV digital e o avanço da banda larga na internet veremos e faremos muito mais coisas assim.

Veja mais:
Making of de Nação Palmares
A origem deste post: Intermezzo