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ENTREVISTA: MARINA MOTOMURA

April 3rd, 2008  |  Published in JORNALISMO, INFOGRAFIA, DICAS DE SITES, MULTIMIDIA, ENTREVISTAS  |  3 Comments

Marina é editora-assistente da revista Mundo Estranho, umas das publicações que mais utiliza infografias na editora Abril e que levou prêmios por isso. Ela fala sobre o trabalho da equipe, a cultura da redação e dos jornalistas e, claro, infografia. Indicou dois endereços no Flickr, um onde salvou alguns dos infográficos feitos e/ou editados por ela, outro da editora de arte, com mais imagens.

Como é o seu trabalho na Mundo Estranho? Como foi parar aí e onde estava antes?
Sou editora-assistente da revista: edito textos dos repórteres, mas também escrevo alguns. Nossa rotina é semelhante à de qualquer revista mensal: temos reunião de pauta com os repórteres em uma semana, e, dependendo da complexidade da pauta, reunião de infográfico na semana seguinte. Na terceira semana, recebo os textos, e na quarta semana fechamos. Antes de ser contratada, eu já colaborava como freelancer para várias revistas da Abril, onde comecei através de contatos que eu tinha com amigos que vieram trabalhar aqui. Também já trabalhei na Folha, UOL e iG — mas não com infografia em nenhum deles.

Quantas pessoas trabalham com infografia na Mundo Estranho? Quem faz o quê?
Podemos dizer que todos da Mundo Estranho — os dois editores e o redator- chefe de texto, e as três pessoas da arte (2 designers e 1 editora de arte) — trabalham com infografia. Nas 76 páginas que temos, pelo menos umas 15 são infogradas todos os meses. O “quem faz o quê” não é muito fixo. Na reunião de pauta, participam também os designers. Isso é importante porque nem sempre os repórteres pensam visualmente a pauta. Esse “pensar visualmente” é pensar em como mostrar o assunto que está sendo abordado de maneira que o produto final seja realmente um infográfico, e não um penduricalho. Assim, na primeira reunião, os editores de texto orientam os repórteres sobre que aspectos devem ser aprofundados/melhorados na apuração, e os designers já começam a pensar que tipo de linguaguem (mais realista ou mais leve, por exemplo) deve seguir a ilustração da matéria. Na semana seguinte, na reunião de info, participam, além do repórter, do designer e do editor, também o ilustrador. O repórter geralmente traz referências visuais (pesquisadas em sites, livros, outras revistas…) sobre a pauta. Por exemplo, na edição de abril da ME que chega agora às bancas, editei uma pauta sobre aparelhos ortodônticos. Na reunião, o repórter trouxe fotos e até um videozinho que ele mesmo fez com sua câmera digital para ajudar a mostrar como eles funcionam. Outro repórter, que fez uma matéria sobre como funciona o chuveiro elétrico, desmontou o próprio chuveiro de casa e fotografou para ajudar a mostrá-lo por dentro.

(…) na edição de abril da ME que chega agora às bancas, editei uma pauta sobre aparelhos ortodônticos. Na reunião, o repórter trouxe fotos e até um videozinho que ele mesmo fez com sua câmera digital para ajudar a mostrar como eles funcionam. Outro repórter, que fez uma matéria sobre como funciona o chuveiro elétrico, desmontou o próprio chuveiro de casa e fotografou para ajudar a mostrá-lo por dentro.

As infografias são pensadas ao mesmo tempo para internet e para papel? Como se dá o processo de criação para as infografias interativas?
Isso varia de pauta para pauta. Temos uma seção no site de infográficos animados, que, na maioria, são criados especialmente para a web, nem chegam a ter versão impressa. Um exemplo recente é o info sobre o canal do Panamá. Mas há também adaptações do conteúdo impresso em um info interativo para o site, como houve na reportagem sobre as pessoas mais estranhas do mundo. Na revista, fizemos uma “ficha técnica” das pessoas estranhas, e explicamos, sob o ponto de vista científico, o que as fazia ser assim. No site, acrescentamos vídeos (do YouTube mesmo) que mostram que essas pessoas são reais, para quem ainda duvidava. A diferença dos infos pensados direto para o site é que eles geralmente são mais multimídia que os impressos adaptados. Nos infos do site, temos narração de um locutor, o que dispensa os bloquinhos de texto, por exemplo. Aqui, vale dizer que, além das 6 pessoas que citei que cuidam da revista, há mais três que cuidam do site: 1 de texto, 1 webdesigner e 1 webmaster. Mas ficamos todos na mesma redação, integrados.

Qual é o nível de interatividade pretendido com as infografias de vocês? E até onde poderíamos chegar?
Essa pergunta se refere aos infos do site, né? Humm, não sei se dá para cravar o “nível de interatividade”, mas seguimos no site o mesmo princípio dos infos da revista impressa: nada do que está ali no info, seja do texto (ou locução) ou da ilustração está ali por acaso. Cada pedaço da ilustração traz uma informação, que é complementada pelo texto. Cada vez que você clicar em algo, vai aparecer uma informação, e não um enfeitezinho. Acho que podemos dizer que nossos infos são bonitinhos, mas nunca ordinários.

Você disse que a integração texto-arte é uma das diretrizes da revista. Muitos jornalistas vêem a arte como ilustração, não como informação (e mesmo as fotografias em jornais muitas vezes são usadas assim). Pedidos como “coloca uma moeda de um real no fundo da tabela da inflação” são comuns ainda? Como você vê a utilização da arte no jornalismo hoje em dia, é bem feito no geral?
Eu já trabalhei em jornal, revista e internet, e posso dizer que aqui, na Mundo Estranho (e nem digo que isso aconteça nas revistas em geral), é onde eu vejo essa integração acontecer de fato. Mas tenho que confessar que somos um tanto quanto privilegiados: somos uma revista mensal, o que nos dá margem para trabalhar com um planejamento e com uma precisão (muitas vezes, até o texto final, a reportagem passa por 3 ou 4 versões) que seriam considerados luxo no jornalismo diário dos jornais e no jornalismo minuto-a-minuto da internet. Por outro lado, também é importante frisar que trabalhar com infografia não é apenas questão de tempo — o tempo extra ajuda, mas não é fundamental. O que falta ainda é uma cultura de o repórter pensar que a arte (ou a foto, ou qualquer outro elemento visual) não é a moedinha de 1 real na tabela de inflação — ela tem que informar também. Ok, os jornais e os portais de internet podem e devem colocar belas imagens em suas capas para capturar o olhar do leitor. Mas, no interior das matérias, a arte e as fotos têm quer ter relevância jornalística.

O que falta ainda é uma cultura de o repórter pensar que a arte (ou a foto, ou qualquer outro elemento visual) não é a moedinha de 1 real na tabela de inflação — ela tem que informar também. Ok, os jornais e os portais de internet podem e devem colocar belas imagens em suas capas para capturar o olhar do leitor. Mas, no interior das matérias, a arte e as fotos têm quer ter relevância jornalística.

E, correndo o risco de chover no molhado, temos que lembrar que, com a internet, informação é o que não falta - blogs, microblogs, twitters, podcasts, fóruns e comunidades de relacionamento estão aí para entupir o leitor/internauta de dados. O que falta é entregar a informação da melhor maneira para o leitor. Para o público da Mundo Estranho, formado por adolescentes, a maioria do sexo masculino, essa maneira ainda é o infográfico. Informação nosso leitor consegue em qualquer lugar — ele tem internet à vontade, tv a cabo, celular. Mas em poucos lugares ele consegue informação bem apurada, “mastigada”, dividida em pequenos blocos de textos, aliada a uma ilustração que também informa, e que não está apenas enfeitando a página. E, quando os nossos leitores postam em nossa comunidade no orkut que a ME é a única coisa que eles lêem, fora os livros da escola, ficamos orgulhosos. (Se quiser, leia o que nossa editora de arte, Alessandra Kalko, escreveu sobre isso ao blog Visualmente: http://visualmente.blogspot.com/2008/02/especial-infografia-vai-salvar-o.html)

O jornalista não tem, na faculdade, nenhum tipo de conhecimento sobre a infografia - já reconhecida como um gênero, tão importante quanto a fotografia ou a reportagem, por exemplo. Há espaço para aprender direto no mercado?
Infelizmente, na faculdade eu só tinha uma leve idéia do que era infografia. Quando caí no mercado, é claro que penei ao fazer meus primeiros infográficos para a Superinteressante ou para a Mundo Estranho. Logo eu, que sempre gostei tanto de escrever, tive que ver meus textos reduzidos a bloquinhos de 300 toques cada! Mas essa percepção que o picotamento do texto era para o mal durou pouquíssimo. Com textos menores, e divididos por blocos de informação, eu ganho mais leitores: quem quiser ler só 1 ou 2 blocos, já aprendeu alguma coisa ali, sem ter que ler um pesado textão de 3500 toques sem respiro. Nas revistas em que trabalhei, encontrei, sim, espaço para aprender a fazer infográficos. A maioria delas é formada por gente jovem, que gosta de ensinar. Também estamos sempre trocando e-mails com referências de trabalhos que achamos legais, vendo portfólios e, de vez em quando, rolam uns workshops de infografia na Abril — pena que a presença do pessoal de texto ainda é ínfima nesses eventos.

Infografias, como outras linguagens, também podem ser bastante subjetivas (uma infografia que fizemos mostrava como era composto o salário dos parlamentares: era basicamente um gráfico pizza, mas em vez de uma pizza era um cofrinho em forma de porquinho. Uma das leituras possíveis era a de que estávamos chamando os parlamentares de porcos…). Como alcançar a objetividade num infográfico?
Sinceramente, não sei se a objetividade é desejável no nosso caso — mesmo no jornalismo em geral, acho que esse mito está perdendo força. Isso não significa que a gente se afaste da realidade. Pelo contrário, tentamos ser sempre o mais fiéis possível ao assunto retratado, mas sem deixar o humor de lado — na ME, os trocadilhos e piadas são nosso feijão-com-arroz, nem tolhemos a veia artística dos ilustradores. Mas se a preocupação com a objetividade for excessiva, corremos o risco de cair na pasteurização dos gráficos de inflação com moedinha de 1 real. Vejo como desejável, sim, a informação correta, bem apurada, mas traduzida em uma linguagem leve, bem-humorada, embalada com um belo visual. É claro que isso não precisa ser padrão para todos os veículos - um jornal de economia como o Valor não precisa, nem deve, seguir essa fórmula. Mas é essa mistura que funciona, por enquanto, para a Mundo Estranho.

A infografia tem mais público, ou atrai público para o site e para a revista? Por quê?
Vou citar novamente o que a Alessandra Kalko disse ao Visualmente: “Em 2007, ano em que muitas revistas viram seus números de venda caírem, a Mundo Estranho apresentou algum crescimento nas vendas. Nossos leitores são jovens de 12 a 20 anos, imersos em sites de relacionamento, tv e games que são apaixonados pela revista. Muitos deles afirmam que a Mundo Estranho é o único meio impresso que lêem por vontade própria, quando não o único. (…) A infografia tem um apelo gráfico forte e sedutor com esse leitor jovem.” Além disso, o infográfico apresenta uma abordagem nova para assuntos aparentemente sem-graça e/ou batidos. Na edição de abril, para citar outro exemplo, fizemos um “dossiê” sobre males/benefícios dos videogames. Mas, em vez de atropelar o leitor com milhares de estatísticas e estudos acadêmicos, a matéria mostra um personagem passando por várias fases de um “game”, traduzindo no texto o que as várias pesquisas queriam dizer. No site, vale o mesmo raciocínio. Nem sempre saímos na frente pelo ineditismo da informação, mas ela é mais atrativa porque é bem contada.

Que técnicas é preciso saber para trabalhar com infografias?
Se você é designer, é claro que precisa dominar o Photoshop e os programas de diagramação. Mas, para a gente que é de texto, o mais importante é pensar como o texto vai ser editado: quais informações são importantes e quais são dispensáveis para o leitor entender o assunto? Como dividir o texto em blocos temáticos, que, sozinhos, façam sentido, independente do resto? Onde vai cada bloco? Que referências visuais eu preciso dar ao pessoal da arte? Enfim, mais que cortar o texto, o editor tem que pensar no produto final e, sempre, sempre, se colocar no lugar do leitor.

LEIA TAMBÉM: o post Por que a infografia salvará o jornalismo, com trechos de um artigo da editora da Mundo Estranho, Alessandra Kalko

Responses

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  1. Marco Moreira says:

    April 3rd, 2008 at 7:31 pm (#)

    Realmente é muito bom ter alguém que pensa como a Marina em nossa redação. Essa entrevista foi essencial.

    Existe um info muito bacana que fiz na Mundo Estranho que se diferencia não pelo tipo de conteúdo (como os vídeos das pessoas estranhas), mas pela interatividade. É um info onde o usuário pode comparar o tamanho das estátuas.
    Este info também foi feito a partir de uma matéria de página simples da revista.

    No meu blog eu falo um pouco sobre ele:
    http://blog.magelstudio.com.br/2008/01/15/infografico-estatuas/

  2. João Barreto says:

    April 7th, 2008 at 2:28 pm (#)

    parabéns pela entrevista, André :)

  3. jeux flash casino says:

    July 16th, 2008 at 7:02 am (#)

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