Archive for March, 2008

O BRASIL NO MALOFIEJ E AS DICAS DE ALBERTO CAIRO

// March 19th, 2008 // No Comments » // INFOGRAFIA, JORNALISMO

Lendo o Nupejoc (Núcleo de Pesquisa em Linguagens do Jornalismo Científico) achei várias coisas interessantes sobre o Malofiej, prêmio internacional para infografias.

Primeiro, li lá que “se continuamos com algum destaque entre os impressos, no online o panorama é outro. Nesta edição só ganhamos uma medalha, de bronze, com o Infográfico “Um ano de crise aérea no Brasil”, produzido pela equipe do Último Segundo.”

Fui lá olhar o info do Último Segundo e faço aqui minha avaliação: visualmente bastante interessante, mas segue o modelo de juntar num só lugar tudo o que foi produzido pelo veículo durante um período de tempo. Aquele tipo de estrutura que oferece linha do tempo, áudios, vídeos, fotos, frases interessantes, dicionário de termos da aviação e infográficos. Esses últimos dá para ver que deram trabalho para ser realizados, mas não se destacam pela qualidade ou pelo entendimento. Nada como aquele do El País que ficou famoso porque era melhor que todos os brasileiros…

Agora, o mais interessante é um texto do Alberto Cairo publicado no novo livro do Malofiej, “Interatividade, a nova fronteira da visualização da informação na imprensa” (em .pdf).

Cairo cita um gráfico do New York Times publicado em abril de 2007 sobre o mercado imobiliário. É melhor alugar ou comprar? é a proposta do infográfico, e o usuário preenche os dados para descobrir sua própria resposta. Isso é interatividade.

Outro exemplo que ele cita é o do El Mundo (acima). Quando o governo disse que iria construir apartamentos de 25 metros quadrados para jovens casais, a oposição disse que ninguém poderia viver em espaços tão apertados. O jornal fez um infográfico onde você podia mobiliar um apartamento desse tamanho da maneira que quisesse. Isso é interatividade.

“A curta história da visualização da informação na imprensa online é a história da oportunidade perdida. Ou, para sermos justos, da oportunidade nunca perseguida a sério até agora. Hoje, os gráficos jornalísticos online ainda são lineares, estáticos, devedores em excesso da forma de narrar da TV e do impresso. A breve história da infografia digital é a história de como não aproveitar um leque de possibilidades”, diz Cairo, um dos maiores especialistas do mundo.

Ele cita depois algumas iniciativas exemplares, como o ChicagoCrime.org, de Adrian Holovaty, onde qualquer pessoa pode escolher uma área da cidade e descobrir quantos crimes houve ali, por tipo de crime, e ter um mapa das estatísticas. Ou a página do metrô de Madri, onde o usuário escolhe estação de partida e chegada e o site, em flash, mostra qual o melhor trajeto e em quanto tempo deverá ser feito.

Cairo vai chegando exatamente no ponto em que acho mais interessante:

“Acrescentar interatividade, mesmo que em pequenas quantidades, implica assumir um novo paradigma: compreender os gráficos online como ferramentas de software, e não como apresentações estáticas; o leitor se transforma em usuário e a infografia em aplicação. Esta pequena mudança de esquema mental ajuda a entender melhor por onde avançar. Em um mundo onde o software está cada vez mais sofisticado e fácil de usar ao mesmo tempo, as espectativas de qualidade e de capacidade de controlar os programas do leitor/usuário aumentam. Como jornalistas, devemos satisfazer essas exigências”.

Eis que ele diz exatamente aquilo que eu gostaria de ter dito (bem, na verdade, eu já disse):

“Se existem portanto poucos exemplos de infografia realmente interativa em jornais e revistas, onde encontrar inspiração para o desenho de interfaces? Por que não nos videogames?

(…) Os jogos são ferramentas de aprendizagem muito poderosas. Goste ou não, os videogames como forma de cultura popular impregnaram outras formas de narrar (cinema, comics e literatura). Também têm influído positivamente – não apenas no estético – na forma em que certos gráficos se constróem.”

Acho que ele disse tudo.

EU, BLOG – POST DE UM ANO

// March 19th, 2008 // 6 Comments » // INFOGRAFIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Fez um ano, no dia 17 de março de 2008, que este blog surgiu.

Este não é o primeiro: foram muitos. O primeiro deles foi o blog EmCrise, ainda no ar, mas congelado pelo tempo. O EmCrise surgiu com o primeiro template do blogspot, era uma experiência do uso da ferramenta para praticar jornalismo coletivo – veja só, em 2002. Olhando uma seleção de posts do EmCrise, encontrei isso:

Blog é uma palavra surgida de web log, uma forma fácil de se fazer sites na internet que acabou virando sinônimo de diário virtual. A proposta do Blog EmCrise não é essa; queremos usar essa nova ferramenta para jogar na rede informação e debate, testar novas formas de jornalismo e levar mais longe as descobertas que fazemos todos os dias, as manipulações da imprensa, informações boicotadas e boas iniciativas independentes – além de tudo o mais que aparecer.

O Blog EmCrise é um laboratório de compartilhamento de perplexidades.

Tempos depois, ajudei a organizar outros tantos blogs, como Direitos de Resposta, que rendeu a mim e ao Savazoni uma ameaça de processo pelo grande ex-apresentador João Kléber; o blog Diário de uma Odisséia, onde o jornalista Flávio Dieguez foi para a Rússia acompanhar o astronauta brasileiro, e o PapoPan, um espaço onde 50 jovens de diversas comunidades da cidade do Rio de Janeiro publicaram notícias dos jogos Panamericanos em áudio, vídeo, texto e foto.

Por fim, montei o pontodeak.blogspot.com, para ver se decidia ou não levar a sério a experiência de um blog pessoal. Durou uns três meses. Em março de 2007 ele desapareceu e deu lugar a este aqui.

Não ganhei um tostão com este blog. Não acho que ele sirva para isso, mas não condeno quem tente ficar rico blogando (apenas sorrio com o canto da boca). O melhor de tudo em se ter um blog é poder entrar na rede de cabeça. Se, antes, o que não saía no jornal não existia, agora a rede cumpre esse papel. A grande vantagem deste blog foi ter, através dele, conhecido muita, mas muita gente com os mesmos interesses. Quando se diz que o jornalismo tornou-se uma conversa (from a lecture to a conversation), o blog é uma das grandes formas de se perceber isso. A rede está cheia de pessoas tendo idéias similares às nossas, senão as mesmas, inclusive. Juntas, essas pessoas podem realizar muito mais do que sozinhas.

Aqui vai meu agradecimento aos que passaram por aqui, especialmente àqueles que compartilharam idéias.


Aos números.

O balanço é mais que positivo, apesar dos números pequenos, se comparados com blogs bem mais novos – mas um saldo enorme, se não for visto como estatística, mas como leitores, leitores únicos no sentido literal da palavra. Em que tempos um sujeito poderia criar seu veículo de comunicação e alcançar, sem gastar um tostão, milhares de pessoas?

Fechamos o primeiro ano com 2.600 visitantes por mês, mais ou menos. Isso dá uma média de cem leitores por dia – ou seja: não é só mais minha mãe, nem só minha família, mas provavelmente alguns amigos meus também vêm aqui.

Nesses doze meses, passaram pelo blog, segundo o Google Analytics (de onde saiu esse gráfico), quase 15 mil pessoas.

Outros dados interessantes: pagerank 4 (já fui cinco um dia, mas a prova de que eles são sérios é que revisaram minha qualificação para baixo) e autoridade 87 no Technorati. Nas últimas semanas um fenômeno engraçado aconteceu: quando se digita “infografia” no google, este blog aparece como segundo resultado da busca. O primeiro é a Wikipedia.

O tráfego vem principalmente dos mecanismos de pesquisa (62%), depois sites de referência (25%) e tráfego direto (12%). As dez primeiras palavras-chave que trazem as pessoas até aqui foram, no último mês:

1. infografia
2. ronaldo, recuperação, nike
3. wiki+andre deak
4. google grid
5. documentários torrent
6. malofiej
7. noticias sobre cuba
8. andre deak
9. ashes and snow
10. andré deak

Fico feliz porque as pessoas que fizeram essas buscas e caíram aqui encontraram os conteúdos que procuravam – ou seja, não deve ter sido uma busca vã.

Estou preparando uma mudança no visual do blog, algo com três colunas. Quem vier verá.

INFOGRAFIA ONLINE DO NEW YORK TIMES LEVA PRÊMIO MALOFIEJ

// March 17th, 2008 // 1 Comment » // INFOGRAFIA, JORNALISMO

“Pelo segundo ano consecutivo, o prêmio máximo do Malofiej vai para um trabalho da internet. Os jurados da 16ª edição dos Premios Internacionales Malofiej de Infografía deram 10 medalhas de ouro, 50 de prata e 96 de bronze. A revista National Geographic levou o prêmio Miguel Urabayen de melhor mapa pelo trabalho ‘Lives still at risk’. As de ouro foram para The Guardian, National Geographic, Público, Expresso, The New York Times e Newsweek. Mais de 1.300 trabalhos de 124 veículos de 24 países participaram do concurso, considerado o ‘pulitzer’ da infografia”, diz o site do Malofiej.

A infografia do NYT que levou o primeiro lugar foi uma sobre o massacre em Virginia, abril de 2007.

Como todos os infográficos do New York Times, está muito bem feito, bem apurado, bem realizado, sem problemas de navegação. Mas me parece, ainda, aquela narrativa linear “clique-clique-clique”, ou seja, sem a possibilidade do leitor construir sua própria narrativa a partir de seu interesse.

Me parece realmente a melhor infografia do mundo – mas numa internet do século passado.
UPDATE: Veja a lista com todos os vencedores

CIRANDA DE MARÇO

// March 13th, 2008 // No Comments » // A REDE, JORNALISMO

Já começam as discussões na lista do Jornalistas da Web para decidir o tema da Ciranda de Textos de março, ainda sem data definida, mas que deve rolar lá pro final do mês. Quem ainda não sabe do que se trata ou tem dúvidas sobre como participar, clique aqui.

A coisa está crescendo. Virou até notícia:

“‘A Ciranda dissemina as idéias, provoca a partição, produção de texto e divulgação dos blogs’, afirma André Deak, que sugeriu a idéia na lista de discussão do Jornalistas da Web.

A primeira edição reuniu textos sobre jornalismo online, a segunda abordou o mercado de trabalho jornalístico. A cada mês um tema e um “host”, blogueiro responsável pelo guia de leitura, são escolhidos. O termo ‘ciranda’ se explica pela publicação dos artigos a cada mês em um blog.

‘A proposta de poder discutir jornalismo é extremamente importante. A discussão envolve acadêmicos e profissionais e a troca de experiências é grande’, avalia Ceila Santos, freelancer da área de TI e Telecom e fundadora do site Desabafo de mãe.”

GOVERNO DRIBLA OPOSIÇÃO E CRIA TV PÚBLICA

// March 12th, 2008 // 1 Comment » // JORNALISMO

A matéria do Marcos Chagas explica bem, ao fim e ao cabo, como foi que nasceu a TV pública brasileira. A briga só terminou de madrugada: matéria publicada quase às 3h. A oposição usou os mais diversos truques procedimentais para evitar que a Medida Provisória que cria a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) fosse votada – e caducaria se não fosse votada até o dia 21, e não seria, já que é sexta-feira santa e parlamentar é muito rígido com essas coisas: semana que tem feriado acaba antes.

Depois da oposição atrasar a votação de uma MP em seis horas, o governo, espertamente, numa manobra do líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), derrubou a outra MP que barrava a votação daquela que criava a EBC. Alegou que já existia uma semelhante na Câmara e abriu caminho para votar a EBC.

Aí, para a oposição, sobrou apenas um caminho: o de casa. Se retiraram do plenário, já que a MP seria votada mesmo. Sem a oposição, o governo aprovou a MP.

Luiz Weis comenta no OI: “Será educativo ver como os jornais de amanhã – os de hoje obviamente não puderam der nada sobre o assunto, por causa da hora – comentarão o desfecho da história. Se considerarem que o líder do governo passou uma rasteira na oposição, implodindo uma MP do próprio governo, terão de considerar o comportamento de igual padrão, com sinal contrário, que a oposição vinha tendo. Foi jogo pesado de parte a parte.”

ENTREVISTA: JUANTXO CRUZ

// March 10th, 2008 // No Comments » // ENTREVISTAS, INFOGRAFIA, JORNALISMO

“O jornalista Juantxo Cruz, autor de megainfografias – conhecidas também como murais gráficos –, concedeu uma entrevista sobre infografia para o blog Cuatro Tipos. A imagem deste post é um exemplo de uma megainfografia. Feita por Juantxo, ela foi publicada em 10 páginas duplas de um suplemento do El Mundo. Graduado em Ciências da Informação, pela Universidade de Navarra, o jornalista é responsável pelo setor de infografia do periódico espanhol El Mundo.”

Tudo isso eu copiei do Marcos Palácios, que me apresentou Juantxo pelo GJol. Fui lá ler a entrevista, e realmente impressiona.

Agora ele se dedica a essas megainfografias, que saem aos domingos. Na primeira (abaixo), foram necessários sete infografistas e dois documentaristas.

Essa infografia mostra o corpo humano em tamanho natural. Alberto Cairo fez uma resenha sobre ele em seu site, e entrevistou vários dos infografistas envolvidos. Fizeram tudo em três semanas. Com bom resultado: “El gráfico ha tenido una repercusión amplia. Se han recibido comentarios escritos e incluso llamadas de queja cuando El Magazine se retrasó una semana en la publicación de una de las entregas por problemas de paginación. Una prueba de que la audiencia está ansiosa por encontrar propuestas novedosas y estimulantes y, según Juantxo, de “la confianza que se tiene en la Infografia en El Mundo”.

Juantxo dá algumas dicas valiosas na entrevista:

“Depois de terminar, mostrar os gráficos a todo mundo em volta. Os gráficos sempre têm defeitos, pelo menos os meus, mas tento que as falhas não cheguem até a rotativa.”

“O que mais me ajudou na formação foram as relações pessoais. Conhecer Jesús Zorrilla, Juan Antonio Giner, George RorickJeff GoertzenRon Coddington,  Gerardo Ametxazurra, Ricardo Martínez,  Mario Tascón e outras centenas de pensadores visuais incríveis”

Onde estudaria para ser infografista?
“Numa universidade não massificada em que pudesse estudar com tranquilidade a carreira de Ciências da Informação. Procuraria a prática de jornalismo diário o quanto antes. Se algum estudante estiver nessa situação, me envie um currículo. (juantxo.cruz@elmundo.es).

PICTURES OF THE YEAR

// March 10th, 2008 // 1 Comment » // A REDE, CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Recebi agora o Boletim NaRua, que faz um acompanhamento do que anda rolando na web sobre multimídia (o Paulo faz um garimpo bem interessante). Ele fala do prêmio Pictures of the Year International, e fui lá olhar a lista dos premiados. MediaStorm levou 7 dos 26 prêmios oferecidos.

BEST MULTIMEDIA PROJECT

First Place, David Stephenson, Lexington Herald-Leader“A New Dawn?”

Second Place, MediaStorm.org -Executive Producer Brian Storm and Producer Chad A. Stevens — “Marlboro Marine”

Third, The Globe and Mail“The Boy in the Moon”

Award of Excellence, The Dallas Morning News“Bottomline”

Award of Excellence, Patrick Brown (Photographer) and Eric Maierson (Producer), Brian Storm, (Executive Producer) MediaStorm.org“Black Market”

Award of Excellence, Kari Collins — “Remember Me”

Award of Excellence, James Kenney — “The Women of Evangel”

ENTREVISTA: SERGIO LEO

// March 10th, 2008 // No Comments » // ENTREVISTAS, JORNALISMO

Jorge Rocha me pediu umas perguntas para enviar junto com as dele para o Sergio Leo, “repórter especial do Valor que cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul. Trabalhava no Segundo Caderno d’O Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001″.

Publico aqui alguns trechos da entrevista que fizemos com ele sobre a cobertura internacional brasileira. A íntegra está no blog do JR.

André Deak – Há alguns anos entrevistei os editores de política internacional da Folha de S. Paulo, de O Estado de S. Paulo e da Veja, sobre a cobertura que faziam (ou não faziam) sobre os zapatistas do México. Na época, chegaram a dizer que não era um movimento sério, “ficavam lá tocando violão, não são como as Farc”. A que você atribui o total desconhecimento da realidade latino-americana desses editores?

SL – Existe um enorme comodismo nos grandes jornais, somado à avaliação equivocada de que o leitor brasileiro não se interessa por temas internacionais. Isso faz com que, como costumam se queixar os editores da área, as editorias dedicadas aos temas mundiais tenham poucos repórteres, os orçamentos para coberturas internacionais sejam limitados, dediquem-se poucas páginas a essas editorias e sejam poucos os correspondentes dos jornais no exterior; e a esmagadora maioria do material publicado nas editorias Internacional ou Mundo sejam de agências internacionais que, logicamente, refletem os interesses de seus centros geradores. Por isso ouvimos tanto falar do Oriente Médio e tão pouco dos países africanos de língua portuguesa, por exemplo. Temos mais detalhes sobre as eleições dos EUA do que tivemos sobre a da Argentina, ou teremos sobre as do Paraguai, que também nos interessam muito.

André Deak – Você acompanhou viagens dos presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula. Nessas viagens é comum formar-se uma panelinha de jornalistas, um perguntando para o outro qual é a notícia, qual é a fala mais importante, para todos darem igual. Isso porque se um deles dá outro enfoque, existe a chance do editor dar um esporro: “Você tá aí e não viu isso?!”. Além da falta de preparo, quais são outros problemas de quem cobre política internacional?

SL - O risco de andar com passo diferente no batalhão é total, e muita gente, por isso, adota o comportamento de manada. Isso é particularmente comum nas salas de imprensa, entre setoristas. A cobertura de presidentes, seja no Brasil ou no exterior, é pior, porque os jornais se aferraram a um tipo de noticiário superficial, de frases de efeito, que, muitas vezes descontextualiza a informação, ou passa ao largo da verdadeira notícia. Felizmente, na minha experiência nos jornais em que trabalhei, e, especialmente, no Valor, raras vezes me senti cobrado por noticiar algo diferente dos outros jornais, e, quando isso aconteceu, pude ter uma conversa com o editor mostrando o porquê da minha opção por outros assuntos. Aprendi nessas coberturas que o importante não é saber o que os outros vão noticiar no dia seguinte para dar igual. O interessante é sacar o que os outros jornalistas consideram a principal notícia para, se for o caso, mencionar isso na matéria, e mostrar ao leitor por que seu jornal não considerou isso o principal fato a ser noticiado. Afinal, se algum aspecto da viagem chamou a atenção de muitos jornalistas é porque tem alguma importãncia; nem que seja importante porque os jornalistas estão interpretando erradamente o fato. Mas, se numa cobertura, você ficar muito preocupado com o que os outros vão fazer, é melhor desistir de viajar, para evitar uma úlcera.

Jorge Rocha – Nessa entrevista, Deak é o entrevistador equilibrado e eu sou o irreprimível. Assim, posso fazer uma afirmação peremptória: todo e qualquer jornalista que lida com cobertura política, não importando o porte ou localização do veículo de comunicação onde trabalha, está terminalmente próximo demais de antros de tentações. Você está nesse inferno de Dante desde 1983. Como consegue se desvencilhar e escapar incólume ?

SL - Já fui convidado para ser assessor de imprensa de petistas e tucanos, já me ofereceram comprar carros com belos descontos, já me sugeriram free-lancers com trabalho ridículo e remuneração de encher os olhos. Não topei; o principal é manter um código de ética rígido, e coerente. Pode-se ganhar bom salário como jornalista, especialmente em Brasília, sem entrar em conchavos ou abrir mão dos escrúpulos. Mais delicada é a questão da relação pessoal, na busca da notícia. As fontes adoram o jornalista doméstico, aquele que reproduz tudo sem questionar ou, melhor, compartilha de intimidades. Mas também respeitam muito o profissional que consegue construir uma reputação de imparcial, de jornalista que transmite todos os lados de uma questão, sem distorcer. Meu melhor exemplo disso é a Marta Salomon, da Folha, que fez matérias muito críticas no governo Fernando Henrique Cardoso e no governo Lula, e, no entanto, é solicitadíssima e respeitadíssima pelas fontes do governo. Como sou casado com ela, embora em regime de separação de notícias, às vezes vejo o cuidado que ela tem em checar dados, números, declarações. Raramente aceitamos convites para almoço ou jantar, embora eu considere válida essa maneira de obter informações (faço uma avaliação de custo-benefício mesmo, prefiro almoçar com meus filhos). Claro que a intimidade é uma boa maneira de obter informações exclusivas, mas descobri, em Brasília, que é preciso manter limites nessa proximidade com as fontes, até porque, se você fica muito íntimo do poder, corre o risco de ter um monte de informações que não pode publicar para não trair o amigo. Para quem não deseja cargo público nem participar de esquemas do Poder, é o pior dos mundos.

JORNALISMO DE VANGUARDA NA CURRENT TV

// March 9th, 2008 // No Comments » // CONVERGÊNCIA, JORNALISMO, MULTIMIDIA

Encontrei o Vanguard Journalism, programa da Current TV – uma emissora de televisão independente vencedora do Emmy Award criada por Al Gore. A Current é uma TV a cabo que transmite conteúdo produzido pelos usuários, e o modelo do Vanguard segue a mesma linha. É de uma qualidade impressionante.

É preciso, claro, estar dentro dos padrões de qualidade, de ética e de checagem exigida pela Current. Os vídeos enviados, se transmitidos pela rede a cabo, recebem pagamento. No Brasil, quem já copiou o modelo foi a editora Abril – inclusive, mais ou menos, o lay-out é parecido. Aqui chama FizTV.

Abaixo, o vídeo de apresentação, que me levou ao canal do Vanguard, publicado no Jornalistas da Web.

POR QUE A INFOGRAFIA SALVARÁ O JORNALISMO

// March 9th, 2008 // 2 Comments » // INFOGRAFIA, JORNALISMO

Estava fora, chego atrasado a essa discussão, que começou no mês passado e ganhou a rede. O polêmico texto de Javier Errea, presidente da SND-e (Society for News Design – Espanha), publicado no blog visualmente  com o mesmo título deste post, foi o estopim.

Publico abaixo uma tradução resumida.

Javier Errea

Por que a infografia salvará o jornalismo
(Javier Errea, tradução livre de André Deak)

“Consegue imaginar um artigo sem palavras? E uma crônica política em forma de quadrinhos?

Se você é dos que leva as mãos à cabeça porque considera que este tipo de jornalismo não é confiável nem sério, este texto não vai te interessar em nada. Sinto dizer que você contribui para o processo de acelerar o final dos jornais impressos. Se tem alguma dúvida, me dê uma oportunidade. E se te deixa curioso – porque é disso que se trata – me ajude a propagar a idéia.

Vivemos tempos conturbados no jornalismo. Ou melhor, na imprensa escrita. Existem poucas certezas e muito medo. O mal é que, ante isso, as empresas se empenham em tomar apenas medidas defensivas: por exemplo, a convergência da boca pra fora, para dissimular o corte de gastos, ou menus informativos absolutamente previsíveis.

Não gosto de apontar, falar é fácil. É preciso estar na sala de máquinas para saber o que é montar um jornal por dia. Mas estou convencido de que o rumo que segue nossa nave conduz diretamente ao iceberg do Titanic jornalístico.

Que fazer? Não tenho bola de cristal, mas considere que nas redações offline, principalmente, existe pouca autocrítca e bastante complacência: somos – pensam, pensamos – depositários do bom e velho jornalismo e esse nunca poderá morrer. Quando nos congressos e em livros se aborda a iminente morte dos jornais, não soam alarmes nas redações.

Só uma resposta que surja de baixo, uma resposta jornalística, de coragem, podesalvar os diários e torná-los valiosos, necessários e – por que não? – divertidos. Essa resposta é a infografia.

Atenção para a tese: só a infografia salvará os jornais.

A infografia oferece todas as ferramentas para acabar com a forma clássica de fazer jornalismo: Informação=título+texto+foto. Essa fórmula serviu durante muitos anos e acabou por uniformizar a maneira de contar a realidade, submetendo-a às estreitas margens da narrativa textual.

Você acha que é possível contar da mesma maneira uma guerra e um jogo de futebol? Não acha que o tom que deve ser usado para as duas realidades é completamente distinto, e que esta distinção não pode ser feita utilizando apenas palavras?

Os leitores fogem não apenas porque não contamos as histórias que querem, mas também porque não contamos como querem. Claro que para que a infografia possa contaminar a narrativa jornalística e ampliar seus horizontes quase ilimitadamente é preciso aceitar que a ortodoxia não existe. Desde a experiência de várias edições dos Premios Malofiej de Infografía, o conceito estreito se apoderou do gênero: muitos trabalhos foram criticados porque não estão de acordo com as normas clássicas. Escutei muitas vezes a frase mágica: Isso não é infografia. Quem pronunciava se imbuía de uma autoridade que desacreditava muitos colegos. Eu, inclusive.

Agora, vários jurados do Malofiej começam a reconhecer valores infográficos e comunicativos a trabalhos antes recusados. Até bem pouco tempo, era impensável que gráficos como os apresentados pelas revistas brasileiras da Editora Abril (Mundio Estranho, Saúde, Superinteresante…) vencessem algum prêmio. Hoje arrasam. A linha sóbria e ortodoxa de The New York Times não é a única válida. Não que o grande diário esteja equivocado, pelo contrário. Simplesmente mostra que existem muitas vias e que o ecletismo do mundo chegou à infografia.

Estudos como os da Universidade de Lund (Suécia) mostram que a infografia é o gênero que mais detêm um leitor na página. Pela sua natureza e características, os gráficos atraem a curiosidade dos leitores, que entendem bem essa linguagem fragmentada e tremendamente visual. Por que não aplicar então essa nova era da infografia à maneira de contar as notícias?

Alguns jornais são hoje conhecidos por destruir esquemas. Liberation, na França, depois o Correio Braziliense no Brasil, o The Independent no Reino Unido… Decidiram um dia empregar novas linguagens nas capas. Cifras, frases, fotos, gráficos, tabelas, diagramas, história em quadrinhos… Qualquer ferramente era válida. Entretanto, foram poucos os que permitiram que esse tsunami informativo invadisse as páginas internas não uma ou outra vez, mas sempre, como regra.”
—-

A discussão foi longe. Norberto Baruch, que mantém o blog Visualmente, responsável pelas Jornadas Universitarias sobre Diseño de Información, organizou ali toda o debate, com participação inclusive da editora da Alessandra Kalko, editora de arte de la revista Mundo Estranho, da Abril, há seis anos.

Diz ela:

Não sei se a infografia é a grande salvação do jornalismo impresso. Não vejo a infografia como a grande cura milagrosa para a queda das vendas, mas mais como um dos remédios que pode prolongar sua vida com melhor qualidade. O bom uso deste instrumento pode ajudar a manter os leitores fiéis de mais idade e atrair os leitores jovens que estão cada vez mais imersos num mundo eletrônico, de informações simultâneas e se afastando da leitura.

Em 2007, ano em que muitas revistas viram seus números de venda caírem a Mundo Estranho apresentou algum crescimento nas vendas. Nossos leitores são jovens de 12 a 20 anos, imersos em sites de relacionamento, tv e games que são apaixonados pela revista. Muitos deles afirmam que a Mundo Estranho é o único meio impresso que lêem por vontade própria, quando não o único.

(…)

acredito na infografia como a grande porta de entrada para o leitor jovem iniciar a leitura do jornal ou da revista que muitas vezes lhe parece hostil. Se ele gostar, se for prazeroso, ele voltará. Os infográficos bem feitos serão sempre amigáveis e sedutores. E se eles conquistarem um leitor e ele se fidelizar, mais uma vez ganhamos todos.
Se um dia a revista irá acabar para dar lugar ao nosso site, não sei. Em 2007, o número de leitores do nosso site foi duas vezes maior do que o da revista impressa. Mesmo assim, como já falei anteriormente, os números de venda da revista impressa apresentaram crescimento. É por isso que acredito que nem tudo está perdido para esta mídia…

Outra brasileira que comentou foi Renata Steffen, da Folha de S. Paulo. Mas quem faz uma boa defesa do gênero é a venezuelana Carmen Riera:

“Nele se convergem outros gêneros como investigação, fotografia e análise, integrados com o rigor da veracidade. Todos os dias quando abro meu jornal e vejo a foto da fachada de um banco, me pergunto se os leitores não agradeceriam mais se tivessem pelo menos uma hipótese sobre como foi que aconteceu o fato. Mesmo a TV e a internet precisam recorrer à infografia para mostrar como aconteceu.”