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ENTREVISTA: SERGIO LEO

March 10th, 2008  |  Published in JORNALISMO, ENTREVISTAS

Jorge Rocha me pediu umas perguntas para enviar junto com as dele para o Sergio Leo, “repórter especial do Valor que cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul. Trabalhava no Segundo Caderno d’O Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001″.

Publico aqui alguns trechos da entrevista que fizemos com ele sobre a cobertura internacional brasileira. A íntegra está no blog do JR.

André Deak - Há alguns anos entrevistei os editores de política internacional da Folha de S. Paulo, de O Estado de S. Paulo e da Veja, sobre a cobertura que faziam (ou não faziam) sobre os zapatistas do México. Na época, chegaram a dizer que não era um movimento sério, “ficavam lá tocando violão, não são como as Farc”. A que você atribui o total desconhecimento da realidade latino-americana desses editores?

SL - Existe um enorme comodismo nos grandes jornais, somado à avaliação equivocada de que o leitor brasileiro não se interessa por temas internacionais. Isso faz com que, como costumam se queixar os editores da área, as editorias dedicadas aos temas mundiais tenham poucos repórteres, os orçamentos para coberturas internacionais sejam limitados, dediquem-se poucas páginas a essas editorias e sejam poucos os correspondentes dos jornais no exterior; e a esmagadora maioria do material publicado nas editorias Internacional ou Mundo sejam de agências internacionais que, logicamente, refletem os interesses de seus centros geradores. Por isso ouvimos tanto falar do Oriente Médio e tão pouco dos países africanos de língua portuguesa, por exemplo. Temos mais detalhes sobre as eleições dos EUA do que tivemos sobre a da Argentina, ou teremos sobre as do Paraguai, que também nos interessam muito.

André Deak - Você acompanhou viagens dos presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula. Nessas viagens é comum formar-se uma panelinha de jornalistas, um perguntando para o outro qual é a notícia, qual é a fala mais importante, para todos darem igual. Isso porque se um deles dá outro enfoque, existe a chance do editor dar um esporro: “Você tá aí e não viu isso?!”. Além da falta de preparo, quais são outros problemas de quem cobre política internacional?

SL - O risco de andar com passo diferente no batalhão é total, e muita gente, por isso, adota o comportamento de manada. Isso é particularmente comum nas salas de imprensa, entre setoristas. A cobertura de presidentes, seja no Brasil ou no exterior, é pior, porque os jornais se aferraram a um tipo de noticiário superficial, de frases de efeito, que, muitas vezes descontextualiza a informação, ou passa ao largo da verdadeira notícia. Felizmente, na minha experiência nos jornais em que trabalhei, e, especialmente, no Valor, raras vezes me senti cobrado por noticiar algo diferente dos outros jornais, e, quando isso aconteceu, pude ter uma conversa com o editor mostrando o porquê da minha opção por outros assuntos. Aprendi nessas coberturas que o importante não é saber o que os outros vão noticiar no dia seguinte para dar igual. O interessante é sacar o que os outros jornalistas consideram a principal notícia para, se for o caso, mencionar isso na matéria, e mostrar ao leitor por que seu jornal não considerou isso o principal fato a ser noticiado. Afinal, se algum aspecto da viagem chamou a atenção de muitos jornalistas é porque tem alguma importãncia; nem que seja importante porque os jornalistas estão interpretando erradamente o fato. Mas, se numa cobertura, você ficar muito preocupado com o que os outros vão fazer, é melhor desistir de viajar, para evitar uma úlcera.

Jorge Rocha - Nessa entrevista, Deak é o entrevistador equilibrado e eu sou o irreprimível. Assim, posso fazer uma afirmação peremptória: todo e qualquer jornalista que lida com cobertura política, não importando o porte ou localização do veículo de comunicação onde trabalha, está terminalmente próximo demais de antros de tentações. Você está nesse inferno de Dante desde 1983. Como consegue se desvencilhar e escapar incólume ?

SL - Já fui convidado para ser assessor de imprensa de petistas e tucanos, já me ofereceram comprar carros com belos descontos, já me sugeriram free-lancers com trabalho ridículo e remuneração de encher os olhos. Não topei; o principal é manter um código de ética rígido, e coerente. Pode-se ganhar bom salário como jornalista, especialmente em Brasília, sem entrar em conchavos ou abrir mão dos escrúpulos. Mais delicada é a questão da relação pessoal, na busca da notícia. As fontes adoram o jornalista doméstico, aquele que reproduz tudo sem questionar ou, melhor, compartilha de intimidades. Mas também respeitam muito o profissional que consegue construir uma reputação de imparcial, de jornalista que transmite todos os lados de uma questão, sem distorcer. Meu melhor exemplo disso é a Marta Salomon, da Folha, que fez matérias muito críticas no governo Fernando Henrique Cardoso e no governo Lula, e, no entanto, é solicitadíssima e respeitadíssima pelas fontes do governo. Como sou casado com ela, embora em regime de separação de notícias, às vezes vejo o cuidado que ela tem em checar dados, números, declarações. Raramente aceitamos convites para almoço ou jantar, embora eu considere válida essa maneira de obter informações (faço uma avaliação de custo-benefício mesmo, prefiro almoçar com meus filhos). Claro que a intimidade é uma boa maneira de obter informações exclusivas, mas descobri, em Brasília, que é preciso manter limites nessa proximidade com as fontes, até porque, se você fica muito íntimo do poder, corre o risco de ter um monte de informações que não pode publicar para não trair o amigo. Para quem não deseja cargo público nem participar de esquemas do Poder, é o pior dos mundos.

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