mnmlist: ELIZA, CHATTERBOTS E A ENTREVISTA INFINITA

É de 1966 o primeiro chatterbot – um robô capaz de manter uma conversa escrita com um ser humano. Naquela época, “Joseph Weizenbaum, um professor de ciência da computação do MIT, criou um programa de computador chamado ELIZA capaz de manter uma conversação respondendo, com palavras impressas, a sentenças digitadas. (…) A persona resultante, Eliza, parecia-se com um terapeuta que devolve as inquietações do paciente como um eco, sem interpretá-las”.

Quem fala sobre Eliza é Janet Murray, no livro Hamlet no Holodeck, para explicar as possibilidades narrativas do computador ao criar personagens virtuais. Eliza existe hoje na internet e qualquer um pode conversar com ela, apesar de não ser muito agradável – ela foi a primeira; é bastante limitada e sem graça.

Existem hoje, entretanto, dezenas de outros chatterbots na rede, alguns bastante impressionantes – para não dizer assustadores –, como Jabberwacky ou George, uma variação de Jabberwacky que aprendeu respostas conversando com usuários da internet. São experiências incríveis de inteligência artificial, ainda que nenhuma delas tenha passado no teste Touring. É um teste onde humanos conversam com humanos e máquinas, sem saber qual é qual, e devem apontar quem é humano e quem é o computador. Se errarem, o programa vence: é uma inteligência artificial capaz de enganar um humano.

Independente de estarmos perto ou longe de criarmos um programa que passe no teste Touring, já existem empresas que vendem inclusive a criação de “personalidades artificiais”. Você poderia, por exemplo, passar horas e horas, durante dias, semanas ou meses, conversando com um programa, que “aprenderia” com suas respostas. Depois desse tempo a sua própria personalidade está cadastrada nesse banco de dados. Quando alguém entrar nesse chat, seria como se estivesse conversando com você, quando na verdade está conversando com um banco de dados. Isso não é o futuro – isso já existe.

Imaginemos, portanto. Qual seria o uso possível para o jornalismo? Estava lendo a entrevista de Ignácio Ramonet com Fidel Castro, publicada em livro. Essa é apenas uma entre infinitas entrevistas possíveis. Mais que isso: quantas vezes uma entrevista não toma um rumo que você não esperava, no mau sentido? Por que o jornalista não continuou naquele assunto?

Uma figura como Fidel Castro, por exemplo, talvez fosse um ótimo exemplo, já que escreveu e falou tanto, sobre tantos assuntos, e construiu uma personalidade pública bastante conhecida, até. Colocássemos uma equipe cadastrando todas as respostas que Fidel já deu em entrevistas, sobre todos os assuntos – inclusive assuntos pessoais –, teríamos muito provavelmente uma ótima versão de Fidel em chatterbot.

Em vez de oferecer uma entrevista – e nada impede que essa entrevista não esteja lá –, cada um poderia fazer as perguntas que quisesse ao cubano. As repostas seriam respostas reais. Não se trata, aliás, de equipar uma máquina com um conjunto de frases. O psicanalista Kenneth Colby aperfeiçoou Eliza e criou PARRY, um cyberindivíduo que não apenas tinha respostas prontas, mas um modelo de vida interior. Ou seja, como diz Janet Murray: “Colby deu a sua criatura um sistema de crenças (…) e um modelo de estado de espírito incluindo raiva, medo e desconfiança. Ele instruiu Parry a construir um modelo de seu entrevistador, com base em cada uma das questões feitas, e a decidir se a intenção de seu interlocutor era malevolente, benevolente ou neutra.”

Acho que muita gente adoraria conversar com Fidel e com centenas de outros personagens históricos, mesmo que eles fossem apenas uma representação deles. Aliás, filosoficamente pensando: qual é o entrevistado que não é apenas uma representação de si mesmo?

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