Posted on Feb 11, 2008

DIÁRIOS DE HAVANA V – DOCUMENTÁRIO X ROTEIRO NA EICTV

Devo dizer que o curso de roteiro aqui na Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba é mais tranqüilo do que o de documentário. Os alunos de documentário quase não tiveram tempo para conhecer Havana, tanto que estavam produzindo.

Basicamente, o curso de roteiro é mais teórico. Temos que entregar, ao final, um roteiro pronto de curta metragem, ou um argumento para um longa, mas em geral aprende-se a estrutura narrativa e depois verifica-se sua aplicação nos mais diversos filmes, das mais diversas épocas – inclusive documentários.

Já no curso de documentário eles tiveram uma passagem rápida por teoria e história do documentário, e depois saíram para fazer o deles. A parte boa é que se sai daqui com um documentário pronto. A parte ruim é que é obrigatório que o tema seja desenvolvido numa pequena cidade aqui perto, Baracoa.

Alguns encontraram histórias interessantes, como um grupo que vai fazer sobre as pombas. Não qualquer uma, mas as que eram – e são, na verdade – usadas pelo pessoal que sai da ilha de balsa. Levam dois pombos-correio: um deles soltam no meio da viagem, para avisar a família que está tudo bem. O outro soltam quando desembarcam nos EUA, para avisar que chegaram.

Soube também do grupo que tentou fazer um doc de um sujeito que pintava sua casa com frases, contava mil histórias, mas não disse nada na hora de gravar. Não é culpa do sujeito, lógico – existem várias técnicas para que isso não ocorra, porque o medo da câmera é absolutamente normal. Ou o medo, ou a vontade de falar sem parar, ambas atitudes pouco naturais e indesejáveis. O Cinema Verité, depois, levou ao extremo a tentativa de fazer desaparecer a câmera, gravando tanto tempo o personagem do documentário que uma hora ele se esquecia que a equipe estava lá. Como diz a popular frase cubana, “não é fácil”. Mas dá pra fazer.

É possível fazer filmes, documentários e narrativas sem que sejam relatos – com uma estrutura narrativa específica, capaz de tornar interessante a história. Mas a não ser que você seja o Fellini, quase sempre é muito mais interessante seguir o manual.

Posted on Feb 8, 2008

DIÁRIOS DE HAVANA IV

Cuba não conseguiu desenvolver o homem novo, mas conseguiu desenvolver o homem solidário.

Conversando com Yuli, uma cubana que estuda roteiro comigo aqui na Escola Internacional de Cinema e TV, ela me conta que ela e a irmã, juntas, não tem dez calças. Me conta que houve um tempo em que ela tinha três calças, e deu uma para uma amiga que não tinha nenhuma.

O Che ficaria feliz, imagino. Contam que certa vez, quando ele descobriu que sua esposa tinha dois pares de sapatos, ficou puto. Como ela podia se dar ao luxo, enquanto milhares de campesinos não tinham o que calçar? Fez ela dar o outro par.

Uma mexicana que estava ouvindo a história da Yuli ficou envergonhada e meio deprimida. Contou que tinha um armário do tamanho da parede da sala onde estávamos, cheio de roupa.

É como escutei certa vez, não lembro onde. Acho que dá para defender que um homem tenha dez ou vinte vezes mais camisas que outro homem. Mas não dá pra defender que ele tenha 50, 100 ou 200 vezes mais.

Posted on Feb 8, 2008

DIÁRIOS DE HAVANA III

Mais uma coisa que eu não sabia: Cuba é o único país do mundo onde não há denúncias registradas pela Anistia Internacional de violência e repressão policial. Se for verdade mesmo, podem-se fazer várias leituras a respeito, mas a que mais me parece acertada, estando aqui, é que há uma outra relação das pessoas com a polícia – no sentido de que se trata de uma polícia comunitária.

Não sabia também que Cuba tem um sistema de defesa subterrâneo, onde estão os tanques e aviões. Nem que as estradas foram construídas já projetadas para servir também como pista de pouso e decolagem.

Nem sabia que a família de um criminoso, quando ele vai preso, continua recebendo o salário que ele recebia quando estava solto. Aqui, todos recebem um salário mínimo (que não sei de quanto é, mas acho que a média salarial da ilha está por volta de 20 dólares ao mês – comida, educação e saúde é providenciada pelo Estado).

Mais uma, pra terminar. As comunicacoes aqui na ilha sao tao ruins porque Cuba nao pode usar nenhum satélite que tenha componentes feitos nos EUA – vejam até onde chega o bloqueio… Assim, usa um espaco de banda muito pequeno, que prejudica tanto telefone quanto internet. Dizem que a Venezuela pretende passar um cabo pelo oceano até aqui, mas até lá, a coisa é feia…

Até onde conversei com as pessoas, e até onde sei, não existe, de fato, miséria. Também não existe luxo – não como o conhecemos. Há divisão de classes, sim, mas nem se compara com o que existe fora daqui. Há corrupção, também, mas num nível bem menor, aparentemente, do que querem nos fazer crer – e perto do que existe no Brasil, ou em quase todos os outros países, o que existe aqui parece brincadeira de criança.

Onde é melhor, aqui ou aí? A resposta certamente é diferente para cada um, dependendo principalmente da vida que se leva no capitalismo: a qual classe você pertence?

Posted on Feb 8, 2008

DIÁRIOS DE HAVANA II – A MORTE DE UM BUROCRATA

Na década de 60, Gutiérrez Alea rodou uma comédia em Cuba chamada A morte de um burocrata. O filme virou um clássico cubano, mas poderia ser um clássico de qualquer país. A história:

Morre um trabalhador exemplar, que tinha inventado uma máquina de construir bustos do José Marti – permitindo assim que toda cidade e prédio público tivessem uma estátua do herói revolucionário (note-se a ironia).

Com sua morte, sua esposa vai dar entrada na burocracia para receber a pensão de viúva. Só que a carteira de trabalho, item essencial para o processo, foi enterrada junto com o sujeito. O sobrinho dela começa uma peripécia kafkiana para conseguir desenterrar o tio. Só a Justiça pode pedir exumação do corpo. Só que ele não quer a exumação, só quer o documento. Ele rouba o caixão do tio, mas depois não consegue enterrar ele de novo: para enterrá-lo, precisaria do documento que permite a exumação, mostrando assim que ele tinha sido desenterrado. Enfim, deu pra entender já.

Achei incrível que já em 60 houvesse esse tipo de crítica à burocracia cubana. Algumas cenas do filme são antológicas, tipo quando o cara está no prédio onde precisa pegar o documento, é mandado de guichê em guichê o dia todo, e tem uma faixa enorme no salão do prédio: “Departamento de Aceleração de Processos: 1° Lugar no Campeonato de Pingue-Pongue”.

Posted on Feb 5, 2008

DIÁRIOS DE HAVANA I

Foi-se a primeira das quatros semanas que ficarei em Cuba. Estive aqui em janeiro de 2001, sete anos atrás. Daquela vez, vim com muitas dúvidas, e voltei ao Brasil com mais dúvidas ainda. Valeu a pena a revolução socialista? Saúde e educação para todos justifica não ter uma série de outras coisas?

Hoje vejo que essas talvez não sejam as perguntas corretas. Ninguém se questiona se valeu a pena o capitalismo, por exemplo, ou se a ilusão de que todos podem ter uma vida de anúncio de margarina justifica que tanta gente morra de fome. Valeu a pena o regime capitalista? As repostas dessas perguntas ainda não estão dadas, e talvez passem alguns séculos para se ter uma idéia mais clara, se chegarmos até lá.

Uma conversa aqui que me ajudou bastante foi com Juan Madrid, um espanhol de 61 anos que escreveu mais de 40 livros, roteiros de filmes, documentários. A primeira vez que ele esteve por aqui foi na década de 70, e hoje dá aulas na Escola Internacional de Cinema e TV. Disse algumas coisas bastante interessantes.

Por exemplo, que Cuba conseguiu desenvolver um ser humano mais solidário. Eu diria mais, até. Diria que Cuba conseguiu manter uma sociedade onde o homem não tem medo do outro homem – doença desenvolvida pela desigualdade, e agora pelo terror de Estado, que nos leva a crer que todos ao nosso redor são criminosos ou terroristas. O medo do próximo, em Cuba, não existe.

Juan Madrid diz que, para começar qualquer reflexão sobre Cuba, é preciso ter em mente que este é um país em guerra. Não uma guerra de homens, aviões e tanques (se bem que Cuba é o único país do mundo a ter o espaço aéreo violado diariamente pelos EUA, que sobrevoam para transmitir programas de rádio), mas uma guerra econômica. O bloqueio econômico que teve início a quase 50 anos, que quase destruiu a economia da ilha, não é um assunto simples.

Há a opinião em algumas partes de que as coisas irão piorar, com a morte de Fidel. Os Estados Unidos teriam um plano de desestabilização para ser colocado em prática. Enviariam “barcos de solidariedade” ao povo cubano, cheios de crianças. Cuba não teria como impedir a entrada dos navios, com a mídia internacional acompanhando tudo. Ao chegarem, desembarcariam também agentes infiltrados. Seria uma “invasão branca”, se é que existe o termo. Há muitos outros planos que aguardam o sinal verde.

Posted on Feb 3, 2008

O CONFLITO COMO BASE DOS RELATOS

Ao estudar aqui em Cuba a estrutura básica de um roteiro, fica cada vez mais claro como documentários bem feitos devem também seguir a forma de um relato: situação inicial, onde se apresentam os personagens e seu mundo; um evento detonante, onde surge um conflito; um segundo ato, anticlímax e clímax.

Essa é uma simplificação bastante grosseira, mas me parece que – como diz Juán Madrid – todos os relatos seguem essa estrutura. Ou não são relatos, mas ensaios, artigos, reportagens ou qualquer outra coisa.

Agora, as reportagens de novo jornalismo, e bons documentários, usam também a técnica do relato. As ferramentas da narrativa ficcional para criar um relato interessante. Isso, somado às possibilidades do ambiente digital, para fazer jornalismo, ainda está para ser feito.

Posted on Feb 3, 2008

QUATRO PROPRIEDADES DO AMBIENTE DIGITAL

Estou lendo aqui um livro fundamental para narrativas digitais, que está em todas as bibliografias sobre o tema: Hamlet no Holodeck, de Janet H. Murray. Professora de literatura do MIT, sabe do que fala. O livro tem dez anos já, mas tem muita coisa interessante, o que só prova o nível dos estudos do MIT.

Ela diz que qualquer ambiente digital interessante deve conter quatro propriedades essenciais:

- Ambientes digitais devem ser procedimentais Com isso, ela quer dizer que devem ser baseados em regras, processos. “O computador deve ser um atraente veículo para contar histórias (…) se as regras puderem ser criadas de uma maneira tão acessível quanto as anotações musicais o são para um compositor”. Ou seja: é preciso pensar em todas as possibilidades de navegação, para que não gere nenhum erro durante a navegação. Imaginar todos os passos e possíveis clicks do usuário, por exemplo. E pensar num roteiro que possa seguir a lógica de uma programação.

- Ambientes digitais devem ser participativos Ação e reação intuitiva. Não é um filme, nem um livro. Quando se clica em alguma parte, há reação. Quando se escreve, quando se organiza uma comunidade virtual. Quanto mais participação, melhor.

- Ambientes digitais devem ser espaciais A representação de espaços navegáveis, seja pelo modelo Second Life (que não existia quando ela escreveu o livro), video-games, ou mesmo o conceito de navegação por hiperlinks, melhora qualquer ambiente virtual

- Ambientes virtuais são enciclopédicos Esse é o meio de maior capacidade de armazenamento jamais inventado. Produzir conteúdo o suficiente para qualquer narrativa, de maneira que seja quase impossível explorar todas as possibilidades, é um grande desafio.