DIÁRIOS DE HAVANA – TURISTAS
Estive esses últimos dias em Cuba num bar de jazz chamado Zorra y Cuervo, bastante conhecido, perto do hotel Havana Libre e da sorveteria Coppelia. Custa como 10 dólares para entrar – metade do que ganha um cubano comum no mês. Só tem turistas.
Como estava cheio, sentou-se na mesa onde eu estava um músico canadense. Assim que soube que eu era jornalista, começou a falar de política.
- As pessoas aqui me parecem apáticas, não? Acho que ninguém gosta de falar de política.
- Olha, não estou bem certo disso…, respondi, polidamente.
Acrescentei que de todos os lugares em que estive (mais de dez países da Europa, toda a América do Sul, México, Estados Unidos e China), me parece que em Cuba é onde as pessoas mais falam de política. Com fervor, inclusive.
Ponderei que talvez, como ele não falasse espanhol, as pessoas não se sentiam à vontade para conversar com ele. Mas ele me garantiu que não, porque o Canadá apoiou a revolução. Uhm. Ok, então.
Num dado momento ele vira e me pergunta:
- Tell me something. What do you think: is he alive?
Não deu pra segurar: comecei a rir, a rir muito. Ele achou que eu não tinha entendido:
- Fidel. Fidel Castro. Você acha que ele está vivo? Porque só o Chávez encontra ele, e essas gravações podem ser de arquivo…
Dá para entender porque muitos cubanos têm raiva dos turistas. Vêm pra cá, não entendem nada, não querem entender nada, acham que podem comprar tudo com dinheiro e voltam para os seus países falando mal de Cuba – tão anti-higiênica, tão demodé, as casas caindo aos pedaços, um horror.
Entendo o turismo em Cuba como uma prostituição forçada. O bloqueio dos EUA e o período especial, quando chegou ao fim a URSS, levou o país a dificuldades tremendas. A saída encontrada foi abrir a ilha para o turismo, e com isso estão conseguindo se reerguer. Mas os turistas, viejos verdes (como chamam aqueles velhos asquerosos), jovens ricos, fazem mal à ilha. Talvez tanto quanto os seus dólares ajudaram a ilha a se reerguer…










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