DIÁRIOS DE HAVANA – FIDEL
February 21st, 2008 | Published in JORNALISMO | 7 Comments
Foi só no dia seguinte ao anúncio de Fidel de que não pretendia mais assumir nenhum cargo no governo que percebi o impacto que isso causou no mundo. Até porque, em Cuba, o impacto foi mínimo. Isso já era mais do que esperado.
Eu e outro amigo jornalista ficamos discutindo se seria o caso de chamar isso de momento histórico ou não. É assim que os jornais pelo mundo estão construindo o imaginário coletivo e a própria história. Mas nos parece, afinal, apenas mais um elemento de um processo histórico, e não algo capaz de afetar a vida de um cubano comum, nem um giro na política nacional. Não se trata da queda do muro de Berlim nem a Perestroika. O socialismo de Cuba, por mais que muitos gostariam que isso fosse verdade, não depende de Fidel.
É interessante, por exemplo, ver a construção semântica da imprensa. Reli o texto de Fidel e li os jornais do dia seguinte, a procurar se havia a palavra renúncia. Não. Fidel já não estava no poder (o que não quer dizer que não tinha poder, mas já não participava, certamente, de muitas decisões do governo). Ao utilizar a palavra renúncia, a impressão que se cria é a de que ele estava na cadeira de presidente – formal ou informalmente – e abandonou o cargo. Nada mais falso.
Tenho a impressão de que os jornais haviam preparado um extenso material especial para a morte de Fidel. Isso é prática comum nas redações – alguém famoso anuncia que está doente e já montam galerias de fotos, biografia, separam telefones de gente que possa dar entrevistas. Só que o Fidel, que sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinato, não é fácil. Atrapalhou os planos dos jornalistas. Com esse material preparado, os jornais aproveitaram o primeiro factóide – a “renúncia” – para soltar esses especiais, dando ao fato um tamanho desproporcional ao seu significado.
Daqui de dentro, a mensagem me pareceu uma estratégia astuta de Fidel – e apenas isso. Ele sai de cena de uma maneira suave, sem crise, sem mágoa, sem drama. Deixa praticamente livre o espaço para Raul Castro ser eleito no dia 24, sem nenhum constrangimento de que ele não seja reconduzido. Também prepara, psicologicamente, o povo cubano para o que está por vir – aí sim, um momento impactante para a vida do cidadão. Cidadão que, nem sempre se identifica como comunista, mas se sente fidelista.
Fidel é cativante, mesmo para aqueles que não gostam dele. Me disseram que o povo cubano ficou comovido por três vezes a respeito de Fidel: quando passou mal num discurso e desmaiou (não tinha comido nem dormido, e depois voltou para terminar o discurso); quando quebrou a perna; e quando se soube de sua doença. Fidel é um ser mitológico. Sua morte não será a queda do muro de Berlim, nem o fim do socialismo em Cuba. E agora será menos simbólica e causará menos impacto político do que se ele estivesse no cenário do poder. E ele sabe disso.


February 21st, 2008 at 3:34 pm (#)
André,
A palavra renúncia esteve em todos os grandes jornais brasileiros. Alguns meios de comunicação de esquerda, mais desatentos, também deram continuidade a essa tentativa golpista(?). Não tenha dúvida que essa é uma luta político-ideológica.
February 21st, 2008 at 4:29 pm (#)
André,
Realmente, a saída de Fidel Castro da liderança nacional foi elaborada estrategicamente. Acredito que, dos bastidores, ele ajudará na administração do país, seria uma forma de dar continuidade aos seus ideais. Caso contrário, se fosse pela morte, as mudanças poderia se concretizar.
February 21st, 2008 at 4:31 pm (#)
André, tenho a mesma opinião que você quanto a desengavetamento precoce do material preparado antes para a morte do Fidel. Acho que pouca coisa muda enquanto ele estiver vivo.
Se possível, nos dê mais relatos da percepção do povo cubano.
February 21st, 2008 at 8:44 pm (#)
merece virar um spam esse texto, precisa publicar!
February 21st, 2008 at 10:00 pm (#)
um txt com a sensatez habitual. qdo tu vai parar com isso, hein ?
February 21st, 2008 at 10:19 pm (#)
Texto lindo, André.
Ótimo retrato do fato. De quem está no olho da coisa. abraço
February 22nd, 2008 at 1:34 pm (#)
André,
muita coisa neste texto vc conhece, mas como lembrei de vc e de suas postagens, estou colocando aqui:
Mídia esconde o bloqueio a Cuba
Excitada com a decisão de Fidel Castro de deixar a presidência do Conselho de Estado de Cuba, a mídia hegemônica tem adotado uma pauta esquizofrênica. Num ritual macabro, ela promove o “obituário precoce” do líder revolucionário, como que torcendo por sua morte; ao mesmo tempo, ela faz especulações sobre a chamada “transição” na ilha, apostando na introdução da “economia de mercado” e da democracia burguesa.
por ALTAMIRO BORGES*
Do ponto de vista jornalístico, pouco se aproveita. São mais opiniões ideologizadas do que informações. Tanto que a mídia procura esconder os efeitos nefastos do criminoso bloqueio econômico a Cuba, que completa 46 anos neste mês de fevereiro.
Em fevereiro de 1962, o presidente John Kennedy, do Partido Democrata, baixou o decreto 3.447 impondo o “embargo total” à ilha rebelde. Na prática, a medida tornou oficial o cerco deflagrado logo após o histórico triunfo da revolução, em janeiro de 1959. De lá para cá, todos os governos dos EUA só radicalizaram tais medidas – a exemplo da Lei Torricelli (1992) e da Helms-Burton (1996). Com a sua doutrina da guerra infinita contra o “eixo do mal”, o torturador George Bush endureceu o bloqueio e patrocinou várias operações terroristas contra o regime cubano. Todas estas ações atentam contra o Direito Internacional e desrespeitam recorrentes decisões da ONU.
“Política de genocídio”
O desumano bloqueio a Cuba causa enormes sacrifícios a este heróico povo e merece a repulsa indignada dos setores progressistas da humanidade – o que não inclui a mídia venal! Segundo o Relatório Anual sobre o Bloqueio, até 2005 o prejuízo econômico direto já ultrapassava US$ 82 bilhões, com uma média anual de perdas de 1.782 milhões de dólares. “Essa cifra total não inclui os mais de US$ 54 bilhões imputáveis aos danos diretos ocasionados pelas sabotagens e ações terroristas estimuladas, organizadas e financiadas pelos EUA, nem o valor dos produtos deixados de produzir ou os prejuízos derivados das onerosas condições creditícias impostas a Cuba”.
Na avaliação do governo cubano, o longo bloqueio representa “uma política de genocídio, em virtude do artigo II da Convenção de Genebra para a prevenção e sanção do crime de genocídio, de 9 de dezembro de 1948. Não há norma do direito internacional que justifique o bloqueio em tempo de paz. Nesse sentido, a ilha é alvo da guerra econômica”. Em decorrência destas medidas arbitrárias, Cuba não pode exportar nenhum produto para os EUA e nem receber turistas deste país. Também não tem acesso a créditos e nem pode usar o dólar em suas transações comerciais. Os navios e aviões cubanos são terminantemente proibidos de ingressar na “pátria da liberdade”.
Agressão extraterritorial
Visando asfixiar economicamente a ilha, a política de cerco dos EUA tem caráter extraterritorial. Ela impede importações de firmas ianques instaladas em outros países e sanciona investimentos estrangeiros em Cuba. A Lei Torricelli suspendeu as importações procedentes de subsidiárias estadunidenses em outros países, que chegavam, em 1991, a US$ 718 milhões. Prova desta ação desumana do “império do mal”, a maior parte destas importações, cerca de 90%, era constituída por alimentos e medicamentos. A lei também fixou que um navio de outro país que atraque em Cuba só pode ingressar nos EUA depois de seis meses e mediante uma permissão especial.
Já a Lei Helms-Burton estabeleceu sanções para os “atuais e potenciais” investidores em Cuba. O país é obrigado a pagar adiantada qualquer importação, sem a possibilidade de obter créditos financeiros, inclusive dos bancos privados. Além disso, a venda e o transporte de mercadorias só podem ser realizados através da obtenção de licenças especiais a cada operação. Cuba não pode utilizar sua própria frota mercante para realizar esse transporte, sendo forçada a recorrer a navios estrangeiros. Essas restrições arbitrárias atingiram duramente a importação de produtos médicos, inclusive com a proibição da venda de equipamentos com tecnologia avançada.
Cortejo macabro dos gusanos
Apesar deste desumano e brutal cerco, o heróico povo cubano resistiu e resiste no seu projeto de construção de uma pátria livre, soberana e socialista. Mesmo após a débâcle do bloco soviético, que agravou os danos econômicos, a ilha rebelde se manteve na sua trilha revolucionária. Vários fatores ajudam a explicar esse feito glorioso: as históricas conquistas sociais da revolução; o forte sentimento antiimperialista do povo cubano, retroalimentado pelas ações terroristas dos EUA; a ampla rede de organizações revolucionárias; e o indiscutível carisma de Fidel Castro.
Este último fator é que explica a enorme excitação recente do governo, da burguesia e da máfia cubana dos gusanos (vermes) nos EUA. Desde meados de 2006, quando Fidel Castro teve que ser hospitalizado, que os anticomunistas realizam festas macabras nas ruas de Litle Havana, em Miami. Este instinto assassino sempre esteve presente nas ações terroristas contra o presidente cubano e mesmo nas declarações de reacionários ianques. Numa entrevista ao jornal Miami Herald, a senadora republicana Ileana Lehtinen chegou a sugerir que se acelerasse a morte do líder revolucionário. “Há centenas de formas de se matar o enfermo Fidel Castro”. Agora, com o anúncio da pretensa “renúncia”, a direita mundial e sua mídia venal voltam a ficar ouriçadas.
*Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).