Tive um encontro com o conselho editorial da Revista Consenso (a internet aqui é bem ruim, não consigo colocar links, mas sugiro a busca e a leitura). Yoani Sanchez, um dos membros do conselho, mantém um blog em espanhol que é traduzido para o inglês e para o alemão. Fala sobre o dia a dia dela, e nos contou algumas coisas bastante interessantes sobre como se reuniram para começar a revista, que só existe na internet.
Segundo eles, é probida a venda de impressoras aos cubanos, mesmo as de computadores. E eles acham que se rodassem a revista em papel seriam enquadrados na abrangente lei que define como crime qualquer manifestação anti-revolucionária. Por isso decidiram pelo site.
Perguntei se isso realmente ocorria, se poderiam sofrer alguma represália, e me contaram sobre os meetings de repúdio, ou mítin de repúdio. São manifestações populares – dizem eles que são organizadas pelo governo ou pelo partido comunista – que teriam começado quando a ilha abriu as portas para quem quisesse sair, década de 80, quando foram embora 125 mil cubanos.
Para poder embarcar para os EUA, um cubano precisava de um documento de baixa de seu emprego, para que se tivesse algum tipo de controle. Quando o sujeito ia buscar o documento, os colegas de trabalho vaiavam. Depois contaram que ficou mais violento e houve brigas, jogavam paus e pedras, gente até morreu. Faziam vigílias na casa da pessoa. Isso ficou conhecido como meeting de repúdio.
Depois da saída em massa, os meetings continuaram, dizem, dessa vez contra os dissidentes. O pessoal da revista conta que em 2005 organizaram contra a secretária do grupo um desses encontros. Ela, alvo da manifestação, diz que durante quatro dias várias pessoas fizeram uma vigília no prédio onde mora. “Guardas ficaram na porta impedindo qualquer pessoa de subir. Bateram no meu marido. Me marido perdeu o emprego. A denúncia não foi aceita na polícia”, contou. Tudo isso porque ficaram sabendo da revista, e pensavam que eram da CIA, recebiam dinheiro dos EUA, publicavam mentiras, eram contra-revolucionários.
Me considero bastante cético, e não sei se inventaram isso. Eram sete pessoas, todas corroboraram a mesma história. Não sei se recebem dinheiro da CIA, se são dissidentes profissionais, e acho difícil descobrir isso. Mas vou fazer mais perguntas por aí. A senhora que me contou isso tinha idade para ser minha avó, e seu marido me mostrou uma cicatriz na cabeça.
Eles acham que isso não ocorreria nos dias de hoje que o governo está diferente. Me parece que a simples existência deles e do site deles é uma prova de que há mais tolerância hoje do que houve em outros tempos.
Mesmo assim, se for verdade essa história, é um absurdo injustificável.
CORREÇÃO: Creio ter interpretado de maneira errada o plano norte-americano que me contaram. Com a morte de Fidel, os EUA enviariam barcos com crianças, mas não necessariamente agentes infiltrados. As crianças seriam os netos de cubanos, nascidos nos EUA, e mostrariam ao mundo – e, principalmente, aos cubanos – a diferença entre a vida “numa democracia” e num “regime ditatorial”. Geraria insatisfação interna, aumentando as insatisfações entre os cubanos, gerando manifestações civis. ¿Será?
[...] Estive em Cuba em 2008, e entrevistei a blogueira Yoani Sánchez. Finalmente publico o vídeo resultante do encontro, filmado na casa dela. Fiz na época um post sobre. [...]
[...] o vídeo resultante do encontro, filmado na casa dela pelo Alexandre Praça, que estava comigo. Fiz na época um post sobre essa [...]