Na década de 60, Gutiérrez Alea rodou uma comédia em Cuba chamada A morte de um burocrata. O filme virou um clássico cubano, mas poderia ser um clássico de qualquer país. A história:
Morre um trabalhador exemplar, que tinha inventado uma máquina de construir bustos do José Marti – permitindo assim que toda cidade e prédio público tivessem uma estátua do herói revolucionário (note-se a ironia).
Com sua morte, sua esposa vai dar entrada na burocracia para receber a pensão de viúva. Só que a carteira de trabalho, item essencial para o processo, foi enterrada junto com o sujeito. O sobrinho dela começa uma peripécia kafkiana para conseguir desenterrar o tio. Só a Justiça pode pedir exumação do corpo. Só que ele não quer a exumação, só quer o documento. Ele rouba o caixão do tio, mas depois não consegue enterrar ele de novo: para enterrá-lo, precisaria do documento que permite a exumação, mostrando assim que ele tinha sido desenterrado. Enfim, deu pra entender já.
Achei incrível que já em 60 houvesse esse tipo de crítica à burocracia cubana. Algumas cenas do filme são antológicas, tipo quando o cara está no prédio onde precisa pegar o documento, é mandado de guichê em guichê o dia todo, e tem uma faixa enorme no salão do prédio: “Departamento de Aceleração de Processos: 1° Lugar no Campeonato de Pingue-Pongue”.