Feb 5, 2008

DIÁRIOS DE HAVANA I

Foi-se a primeira das quatros semanas que ficarei em Cuba. Estive aqui em janeiro de 2001, sete anos atrás. Daquela vez, vim com muitas dúvidas, e voltei ao Brasil com mais dúvidas ainda. Valeu a pena a revolução socialista? Saúde e educação para todos justifica não ter uma série de outras coisas?

Hoje vejo que essas talvez não sejam as perguntas corretas. Ninguém se questiona se valeu a pena o capitalismo, por exemplo, ou se a ilusão de que todos podem ter uma vida de anúncio de margarina justifica que tanta gente morra de fome. Valeu a pena o regime capitalista? As repostas dessas perguntas ainda não estão dadas, e talvez passem alguns séculos para se ter uma idéia mais clara, se chegarmos até lá.

Uma conversa aqui que me ajudou bastante foi com Juan Madrid, um espanhol de 61 anos que escreveu mais de 40 livros, roteiros de filmes, documentários. A primeira vez que ele esteve por aqui foi na década de 70, e hoje dá aulas na Escola Internacional de Cinema e TV. Disse algumas coisas bastante interessantes.

Por exemplo, que Cuba conseguiu desenvolver um ser humano mais solidário. Eu diria mais, até. Diria que Cuba conseguiu manter uma sociedade onde o homem não tem medo do outro homem – doença desenvolvida pela desigualdade, e agora pelo terror de Estado, que nos leva a crer que todos ao nosso redor são criminosos ou terroristas. O medo do próximo, em Cuba, não existe.

Juan Madrid diz que, para começar qualquer reflexão sobre Cuba, é preciso ter em mente que este é um país em guerra. Não uma guerra de homens, aviões e tanques (se bem que Cuba é o único país do mundo a ter o espaço aéreo violado diariamente pelos EUA, que sobrevoam para transmitir programas de rádio), mas uma guerra econômica. O bloqueio econômico que teve início a quase 50 anos, que quase destruiu a economia da ilha, não é um assunto simples.

Há a opinião em algumas partes de que as coisas irão piorar, com a morte de Fidel. Os Estados Unidos teriam um plano de desestabilização para ser colocado em prática. Enviariam “barcos de solidariedade” ao povo cubano, cheios de crianças. Cuba não teria como impedir a entrada dos navios, com a mídia internacional acompanhando tudo. Ao chegarem, desembarcariam também agentes infiltrados. Seria uma “invasão branca”, se é que existe o termo. Há muitos outros planos que aguardam o sinal verde.

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3 Comments

  • Pedro Penido says:

    Caro André,

    Estou gostando dos seus relatos sobre Cuba. Fascinante narrativa que só faz honrar um país com história tão interessante e guerreiro intrépido de uma guerra tão injusta.

    Parabéns!

  • André, continue publicando seus relatos sobre Cuba, é uma ilha que me fascina, que conheço a partir de Che e Fidel somente, mas consciente de que preciso viver aí um tempo. Seu texto está muito interessante!

    Grande abraço e parabéns!

  • Caro André,

    Seu relato é de extrema importânca, neste momento , algumas dúvidas foram súpridas através dele.
    Parabéns.
    E Fidel plantou a solidariedade , escreveu dia 02 sobre o Gustav e no texto ele diz:

    ” O imperialismo desenvolvido terminará matando a todos os que tentem penetrar sem licença dentro de seu território para se transformar em escravos assalariados e consumir algo. Já o estão fazendo. O chauvinismo e o egoísmo que o sistema cria é muito grande. O sabemos e continuaremos desenvolvendo a solidariedade, o nosso maior recurso dentro e fora da Pátria.”

    Viva a Fidel e a história o absolverá das calunias!

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