Pollyana Ferrari é autora do livro Jornalimo Digital (2004), que se tornou referência em muitas faculdades. Depois de ter passado por várias redações, hoje tem uma empresa de consultoria Web, a polipress, é professora da PUC-SP, tanto na graduação como na pós-graduação e pesquisadora em hipermídia.
Pergunta: Em 1998, quase 10 anos atrás, você estava na Época quando houve o primeiro crossover de mídias no Brasil, com a capa “Leia e Ouça”. Dez anos depois, como o crossover evoluiu? O que poderia ser feito hoje nessa área para melhorar o jornalismo?
Resp: Tudo. Quando lembro do “Leia e Ouça”, um marco da Web no Brasil, fico pensando como o Jornalismo Online de revista, por exemplo, regrediu. É a falta total de conhecimento do meio, do ciberespaço, o que faz com que esses veículos ainda possuam os mesmos questionamentos de 98. Se olharmos apenas para o mercado brasileiro, perceberemos alguns movimentos como o da Globo.com, que vem digitalizando todo seu acervo e oferecendo conteúdo hipermidiático no G1. Mas, de modo geral ainda é modesto. As redes sociais explodindo no planeta e nós ainda oferecemos a mesma notícia da Reuters em praticamente todos os portais. O leitor percebe e em dois cliques muda de endereço, pois na Internet ninguém é fiel a um endereço apenas.
Pergunta: Você publicou em 2004 o livro Jornalismo Digital. O que considera que, de lá pra cá, ficou desatualizado no livro? Há algo que existe hoje que precisaria necessariamente estar lá?
Resp: Fico muito feliz que Jornalismo Digital tenha virado referência e tenha sido adotado em todos os cursos de jornalismo do país. Já participei de mais de 100 monografias e teses sobre Jornalismo. É muito gratificante para uma jornalista/pesquisadora como eu ver que posso ajudar a mudar o conceito de Jornalismo digital neste país. Puxa, diria que a Web amadureceu, a blogosfera explodiu — isso não tínhamos em 2004. As redes sociais — tema do meu doutorado — praticamente estavam nascendo com o crescimento do Google e Orkut.
Pergunta: A Reuters fará uma experiência de cobertura com um repórter munido de um celular N95 (que faz vídeos com qualidade de DVD e fotos em 5MgPixels), microfone e carregador de bateria movido a energia solar. A BBC já fez experiências similares, com o chamado “backpacking reporter”, o repórter multimídia. Quais os ganhos e quais as perdas nessa situação?
Resp: No quesito ganhos, o leitor cada vez mais pode se sentir imerso na reportagem, participando dela, opinando. Não vejo perdas, mas sim trabalho dobrado para o repórter, cada vez mais cobrado por habilidades que sequer eram pensadas no dia-a-dia jornalístico há 5 anos.
Pergunta: Jornalista multimídia tem que ter salário multimídia?
Resp: Deveria, mas ainda o que vemos são desbravadores do digital que trabalham por vontade de conhecer o novo. Que se apaixonam pela Web [quase picados por um vírus] e nunca mais largam. Mas economicamente ainda não são valorizados como deveriam.
Pergunta: Hoje em dia, ter um blog é uma experiência importante para um jornalista?
Resp: Acho uma experiência fundamental. Não só para treinar a linguagem, mas para criar o hábito diário de se reciclar, navegar. Pois o primeiro passo para entender a blogosfera é navegar muito. Blogueiro realmente incorpora o bordão 24×7. Sete dias por semana, 24 horas ligado.
Pergunta: Você diz em seu livro que o caminho para jornalistas que saem das faculdades é longo se quiserem encontrar trabalho nas mídias digitais. Cita a necessidade de saber contextualizar e hierarquizar a notícia, ser um heavy user. Que tipo de programas deveria saber usar um jornalista?
Resp: A lista é enorme: do velho HTML ainda fundamental e básico, conceitos de flash, saber o que significa chuva de tags, RSS, redes sociais, pontão de cultura, blogosfera, XML, PHP, Linux; saber a diferença entre usar o firefox e todas suas maravilhosas abas, e o velho Explorer, perceber que o Orkut mudou radicalmente em matéria de arquitetura da informação. Usar RSS no dia-a-dia, participar de listas de discussão entendendo o código de conduta de uma lista. Enfim, mudar a chave mental, ser não-linear. Não basta ir fazer um curso de design web no Senac e achar que aprendeu tudo. Não tenha medo do novo, mudar dói, mas faz um bem incrível. Adorei a frase de Michael Lent, da 10´minutos, na revista Pix deste mês, quando ele diz: “Re- start [...] que recomeço é sempre uma oportunidade bacana pra gente perceber que está vivo e experimentar coisas novas. Seja lá onde isso for dar”.
Pergunta: As redações já estão exigindo jornalistas multimídia? Em quais operações?
Resp: Redações online, todas. Um repórter do G1 que escreve, insere foto, links e edita a matéria com o notebook no colo do taxi, voltando da entrevista, precisa ser multimídia [e não enjoar em carros, hehe].
Pergunta: Conteúdo produzido pelo cidadão: onde começa e onde termina o jornalismo? Como o jornalismo pode se apropriar das facilidades de produção de conteúdo?
Resp: Gosto muito de citar um termo da Ana Brambilla, “cidadão repórter”, onde ela comenta que é superimportante que o cidadão repórter tenha sua atividade profissional, até mesmo para ter propriedade para abordar um assunto de seu pleno domínio em uma reportagem. É aquela história de médicos escrevendo sobre um novo tratamento para o câncer, professores falando de educação, arquitetos comentando questões de urbanismo… além, é claro, de todos transformando seu cotidiano em notícia. Não vejo problema nisso, mas o papel do Jornalista, o editor da notícia, continua o mesmo e vai continuar. Não vejo esta ameaça, que apavora centenas de colegas.