mnmlist: MAKING OF NAÇÃO PALMARES

Como foi pensado, produzido e publicado o documentário interativo Nação Palmares.


Esses retratos foram tirados pelo fotógrafo Wilson Dias, da Agência Brasil, no dia em que os quilombolas estiveram no Congresso. O uso das imagens é livre, desde que citada a fonte (Wilson Dias/ABr). [Essas imagens não foram usadas no especial]

1. A concepção
Eu e Rodrigo Savazoni queríamos há algum tempo explorar melhor a experiência com o hipervídeo que tínhamos realizado com a reportagem Consumo Consciente. Naquela ocasião, apesar do bom trabalho de programação e arte da nossa equipe (Mário Marco e Yasodara Córdova), o conteúdo ficou prejudicado pela falta de uma coordenação multimídia sobre todo o projeto. Os vídeos, por exemplo, ficaram a cargo da TV Nacional, o que prejudicou uma linguagem unificada e complementar para a narrativa. Ou seja: tínhamos uma bela embalagem para reportagens medianas e confusas. Quando surgiu a oportunidade do editor especial Spensy Pimentel ir ao Espírito Santo para a comunidade quilombola de Linharinho, imaginamos que poderia ser uma nova chance para fazer melhor. Ainda mais porque não iria apenas ele, mas toda uma equipe multimídia: ele como repórter, Valter Campanato como fotógrafo e Robson Moura como cinegrafista.

Ao mesmo tempo, dois outros projetos corriam paralelos, também sobre quilombolas. A Radiobrás conseguiu contratar uma cooperativa do Rio Grande do Sul, o Coletivo Catarse, para fazer uma reportagem sobre a primeira comunidade quilombola urbana a ter o título de suas terras reconhecido. Poderíamos usar o material no especial (o que acabou ocorrendo). Também o Núcleo de Documentários da Radiobrás faria um trabalho sobre o tema (que, por ter sido finalizado em cima do fechamento do especial, acabou ficando de fora. Usamos apenas duas imagens para cobrir um off).

Munidos com microfone de lapela e direcional, Spensy e cinegrafista foram a campo pegar os depoimentos. Como já planejávamos um vídeo central, com muitos outros vídeos em uma narrativa secundária, pediram a todos os entrevistados que, ao final, fizessem uma breve apresentação e um resumo do que falaram. Algo como “Meu nome é Tal, sou quilombola/fazendeiro/, defendo tal coisa”. Assim, usaríamos no vídeo principal cerca de 30 segundos de sonoras e poderíamos abrir um hipervídeo com a “íntegra” do depoimento, para quem se interessasse pelos detalhes do que dizia a pessoa.




2. O roteiro
Com base no que foi registrado lá em Linharinho, Spensy fez um primeiro esboço de roteiro para organizarmos a edição. Enquanto isso, digitalizamos todas as 12 fitas das câmeras mini DV (cerca de 6 horas).

A editora Juliana Nunes fez uma primeira avaliação do roteiro, sugerindo algumas alterações, com menos foco no caso do Espírito Santo e mais na situação nacional dos quilombolas. O roteiro foi então reescrito algumas vezes, e finalmente chegamos àquele que foi editado.

Fizemos um esboço do roteiro do especial na rede – para a arte e a programação poderem começar o trabalho. Dois problemas centrais: sem a arte aplicada à edição final do vídeo, a “embalagem” do especial na rede não poderia ter nenhuma arte, sob o risco de contrastar com aquela do vídeo. Também a programação precisava da versão final editada do vídeo para poder inserir os links de hipervídeos. Ou seja: o roteiro precisava conter o tempo de entrada e saída de cada hiperlink, mas isso só seria feito no final da edição (por exemplo: aos 2’16” aparece na tela o ícone indicando que pode haver interação, e desaparece aos 2’28”).

3. A edição
Passei duas tardes na TV Brasil – Canal Integración, onde amigos me ensinaram as noções básicas para realizar a edição no Premiere. Confesso que tentei instalar o Cinelerra (software livre de edição de vídeo), mas os programadores não conseguiram.

Começamos a corrida para ter o vídeo principal finalizado, para entregar para a arte e a programação. Comecei a editar tudo no meu lap-top, para poder trabalhar de madrugada em casa. Logo, minha HD estava cheia, e comecei a usar os 30 Gb do meu Ipod como segunda HD. Algumas madrugas em claro depois, havia uma primeira versão para ser vista e criticada.

No meio da edição, o Congresso realiza uma audiência pública onde comparecem centenas de quilombolas. Tudo isso poderia – deveria – estar dentro do vídeo. Pedimos retratos fechados das pessoas que estavam no Congresso naquele dia, e Wilson Dias fez um ótimo trabalho. Quase todas as fotos no vídeo são dele. Como não tínhamos uma do presidente da Fundação Palmares, Zulu Araújo, usamos duas de arquivo. A primeira (abaixo) do chefe da fotografia, Marcello Casal Jr., e a segunda do José Cruz.


Presidente da Fundação Palmares, Zulu Araújo (Marcello Casal Jr./ABr)

Não conseguimos pegar a discussão no Congresso, que durou o dia todo, mas o site da Câmara oferece uma gravação em MP3 de todas as sessões que ocorrem lá dentro. Escutamos (eu e a editora Daniele Almeida) toda a sessão e destacamos os melhores trechos. Na edição, cobri as sonoras com imagens estáticas – as fotos. Em outros dois casos (além do Zulu Araújo) não tínhamos imagens de quem falava. No primeiro (Cledis Souza, quilombola), cobrimos com os retratos feitos pelo Wilson, e no segundo (o antropólogo), cobrimos com vídeos de arquivo relacionados ao que ele dizia. Como todo o arquivo da TV Nacional está em fitas Betamax, tivemos que digitalizar tudo no único computador da empresa que é capaz de fazer isso – na central de geração de imagens, uma sala 5 x 3 entupida de equipamentos e fios, de onde se administram as transmissões ao vivo do presidente, os seminários dos ministros, onde chegam via FTP as imagens internacionais e por onde passam todas as imagens que vão ao ar na TV Nacional. Essa é a TV pública.

Spensy providenciou as músicas que escolhemos para os BGs. (sons de fundo, chamados de background). Fizemos ainda três experiências com narração, uma do próprio repórter, para garantir. Mas queríamos vozes negras na narração, então pedimos a dois locutores da TV Nacional, uma mulher e um homem. Acabamos usando a do Fausto José, que nos pareceu a mais “contadora de histórias”, sem traços marcantes da narrativa comum do jornalismo, aquele estilão “Jornal Nacional”.

4. Finalização e publicação
No final do processo, nós três – eu, Rodrigo e Spensy – nos desligamos da Agência Brasil. Pouco antes, eu e Rodrigo deixamos algumas sugestões sobre como realizar a arte final e ajustes finais da programação. De fora, avaliando o produto final, ainda fizemos algumas observações, e a história foi ao ar. Foi preciso criar um novo template para abrigar um especial em flash naquelas dimensões, até então não usadas. O Francisco, que desenvolveu quase todo o site da Agência Brasil em software livre, fez essas alterações necessárias nos acréscimos do segundo tempo.

Foram cerca de três semanas trabalhando direto nesse projeto, mais de oito horas por dia (alguns dias muito mais), e isso só depois do material todo de vídeo ter sido recebido. Trabalho para fins de semana inclusive. A contar desde que a idéia surgiu, talvez foram uns dois meses de trabalho contínuo, três meses intermitentes, sempre tocando projetos paralelos na redação, como infografias mais simples, edições de texto e pepinos em geral.

Se eu não estiver enganado, é a primeira experiência no mundo de web-documentário interativo com hipervídeo, ou seja: um documentário o qual se pode interagir clicando na tela, durante a transmissão, e ter acesso a outros conteúdos, todos eles relacionados. Mas todos, também, ofertados sob demanda, caso o usuário prefira assistir somente trechos. Pode não ter ficado uma obra-prima, mas é uma colaboração nossa para as novas formas de narrar no jornalismo. Afinal, explorar novas linguagens também é um dos papéis de uma empresa pública, certo?

Abaixo, o documentário, sem interatividade, publicado no Google Video.

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