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ENTREVISTA PARA O JORGE ROCHA

September 14th, 2007  |  Published in JORNALISMO, INFOGRAFIA, MULTIMIDIA, ENTREVISTAS  |  4 Comments

O Jorge Rocha, do blog Jornalismo Morreu, fez uma entrevista comigo por e-mail, que reproduzo aqui também.

Jorge Rocha: Em um artigo publicado no Observatório da Imprensa, você fala sobre a utilização de um sentido informacional hipermidiático aplicado ao jornalismo e cita, como potencial exemplo, o Second Life. Mas, seguindo o senso comum, metaversos são vistos - com mais força recentemente - como modelos hype de negócios ou ambientes de exacerbação de futilidade on-line. Você acredita mesmo numa concatenação “convergência digital + espaço público midiatizado + pensamento prático jornalístico”?

André Deak: Supondo que ambientes de metaverso como o Second Life são “espaços 3D virtuais totalmente imersivos”, como conceitua o José Murilo Junior, as possibilidades para o jornalismo são várias. A educação, há muito, tem testado a efetividade de jogos educativos interativos no computador (é verdade que na maioria chatos, pelo que me lembro do que vi nos anos 80 e início dos 90: ajude a escova a chegar no dente, essas coisas). A evolução mais recente dos jogos os torna experiências cada vez mais interessantes. Muitos já descobriram nos video-games ferramentas poderosas para contar histórias - veja o caso do Hezbollah, ue desenvolveu um jogo de guerra em primeira pessoa (ao estilo Counter Strike) para mostrar como foram as batalhas contra Israel, do ponto de vista deles. O jornalismo poderia, portanto, se apropriar da interatividade desenvolvida nas últimas duas décadas pelos video-games para contar histórias, especialmente aquelas que possam envolver algum tipo de imersão. Como funciona o lobby no Congresso? Você poderia entrar num ambiente virtual do Congresso e verificar o lobby sendo feito. Por que não entrar nos gabinetes virtuais e conversar com os avatares de deputados e senadores reais? E quem sabe ter a resposta dos próprios parlamentares, aliás. Mas não só isso: visitas a museus, a batalhas históricas, a cenários dos mais diversos. As possibilidades são infinitas. Claro, isso não será para hoje nem para amanhã - apesar de algumas experiências dessas no campo do jornalismo já existirem. Mas poderá ser desenvolvido à medida em que as ferramentas de criação de ambientes virtuais se tornem mais acessíveis.

O bom e velho jornalismo está morrendo. Você é muito gentil com carcaças nauseabundas. Na verdade, o jornalismo morreu. Forma, prática, credibilidade, trato com a informação … a lista é grande. Ou você acha possível algo como um zombie journalism?

Taí. Eu chamaria muito do que existe hoje de zombie journalism. Noventa por cento dos que saem das faculdades de jornalismo são zumbis, que se encontram depois com os outros zumbis que infestam as redações. Fazem o que sempre fizeram, sem questionar o modelo, sem sequer entendê-lo. Mesmo o conceito mercadológico que move o jornalismo comercial não é compreendido pelos repórteres que entram lá e apertam parafusos todos os dias. Há um livro ótimo, O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcom, que vale citar: “Todo jornalista que não é muito estúpido ou cheio de si para perceber o que acontece no mundo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. O contexto não é bem esse que estamos falando - é um livro sobre ética -, mas a frase é boa. Com uma forma antiga, uma prática deteriorada (quando não desonesta mesmo), credibilidade próxima à dos políticos e dos advogados, vivemos de fato tempos de zombie journalism. Quando digo que o bom e velho jornalismo está morrendo, é uma provocação, especialmente aos praticantes do velho jornalismo. Por velho, entendo o jornalismo mono-mídia, que não dialoga com o leitor/telespectador/usuário, não-aberto às novas formas de comunicação. Mas podemos nos questionar: As novas tecnologias irão matar o jornalismo? Os velhos oligopólios já mataram? Esses sem dúvida são golpes que modificam a profissão e introduzem novos atores, mas, como já se disse, o jornalismo não se define por uma técnica, mas por uma ética. Sou otimista. Creio que veremos algo bom surgir. Trabalhamos para isso, aliás: terminar de matar o velho e fazer nascer logo o novo.

Entre 2002 e 2003, você fez parte do EmCrise, grupo que trabalhava produção jornalística coletiva, primando por uma tônica profissional incisiva nas reportagens. O que falta para um webjornalista hoje, agora, nesse exato momento, entender como aplicar as potencialidades do meio de comunicação digital na apuração, produção e publicação de reportagens?

Além do que sempre faltou - conteúdo e crítica -, falta a pílula vermelha. Enxergar que é possível contar histórias não mais apenas a partir de uma narrativa linear, na plataforma que melhor servir aos interesses da história. Entender que, como bem disse Dan Gillmor, “meus leitores sabem mais do que eu”. Perceber que os leitores não são adversários que só entram em contato para reclamar, mas colegas, que podem muito bem guiar e participar da pauta, da apuração, da produção e até da edição, pelo que estamos vendo por aí. Uma pesquisa recente do grupo colombiano El Tiempo, feita com 70 redações online da América Latina, perguntou aos editores o que mais faltava no treinamento dos jornalistas da web. O que 70% respondeu foi que falta entendimento de produção multimídia. As redações são organizadas em guetos, os próprios jornalistas se apresentam como “de texto”, “de vídeo”, “de rádio”. Claro que sempre haverá quem é melhor em certa plataforma, mas ninguém mais poderá ignorar como se produz em todas elas. Como disse o argentino Julian Gallo num artigo finalista do prêmio FNPI de jornalismo multimídia: um adolescente hoje já sabe mais, em se tratando da utilização de diversas mídias para contar histórias, do que muitos jornalistas…

“Imprimir suas notícias em guardanapos. Os guardanapos nunca sairão de moda; Inventar novas e melhores promoções, como ‘assine nosso jornal e ganhe automaticamente um porsche’; Contratar a Gisele Bundchen e o Rodrigo Santoro para vender assinaturas de porta em porta”. Com essas sugestões você ganhou o livro “Os jornais podem desaparecer ?”, do Philipe Meyer, numa promoção do Jornalistas da Web. Já pensou em se candidatar a um cargo de futurista?

Creio que as sugestões que dei para evitar o desaparecimento dos jornais não será adotada, apesar de achar que funcionariam bem. De qualquer forma, não vejo muito futuro para futuristas - veja o caso da Mãe Dinah, relegada agora ao passado. O Michael Rogers, futurista do NYT, faz um trabalho interessante, de viajar o mundo para perceber as tendências tecnológicas, preparando a redação para entregar a informação “na hora, no lugar e no formato desejado pelos leitores”. Várias empresas, especialmente as de moda, têm “cool hunters”, o caçador de tendências, para lançar produtos antenados com o hype do momento - antes, aliás, de virar hype mesmo, ajudando a virar hype. William Gibson, o futurista que imaginou o universo ciberpunk, conta uma boa história sobre essa profissão no livro Pattern Recognition. O que o Rogers faz é basicamente descobrir quais as tendências de comunicação nos próximos cinco anos - imaginar o que substituirá o Iphone, por exemplo. Agora, se quisessem me contratar para viajar o mundo descobrindo tendências tecnológicas para o jornalismo eu não ia achar ruim não.


Responses

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  1. Dalva Ximenes says:

    September 15th, 2007 at 1:45 pm (#)

    André,
    que orgulho estou sentindo de vc.!!!!
    Parabéns, tema muito bem abordado.
    Dalva - SP

  2. Iara says:

    September 15th, 2007 at 1:52 pm (#)

    André, seu blog está cada vez melhor! Parabéns!

  3. Jorge Rocha says:

    September 15th, 2007 at 5:56 pm (#)

    tendo um bom entrevistado a entrevista so pode mesmo render. e vc ja esta nos planos de expansao dom imperio. um grande abraço, chapa.

  4. Rodrigo Savazoni says:

    September 16th, 2007 at 9:31 pm (#)

    Fala mano,
    Ótima entrevista, vai um post lá para o meu blog, chamando para a sua falação

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