mnmlist: ENTREVISTA: EDUARDO TESSLER

Eduardo Tessler é representante no Brasil da Innovation Media Consulting. A empresa norte-americana trabalha com consultorias em redações jornalísticas, e Tessler, especialmente, participou de alguns projetos de redações integradas (na Grécia, por exemplo). Abaixo, uma breve entrevista sobre o jornalismo multimídia integrado.

Qual redação está realizando a integração de mídias no Brasil?
Tessler:
No Brasil, praticamente ninguém. O Globo tem alguma interação entre jornal e online. O Estadão mudou o site recentemente, mas as redações continuam separadas. As empresas que poderiam ser inovadoras, como a RBS, são extremamente conservadoras. A RBS anunciou que irá criar outra redação para um outro produto [em vez de integrar as existentes].

Eles montam um site para ver o que acontece. Fazem um pacote de anúncios, do tipo: ganhe publicidade no site se comprar na TV… Não é assim que vão chegar nos patamares americanos. O Washington Post já tem mais de 20% da receita vindo do site. Do New Yorkt Times, mais de 30% da receita vem do site (mas eles tem muitos subprodutos, busca em arquivo, etc.)

Qual o grande erro desses caras? Enxergar multimidia como muitas mídias. Só que é complementar. Por exemplo: Começa a nota no site, dizendo que a informação termina no áudio. Dar a mesma notícia em vídeo e texto não tem o menor valor. Alguns jornais americanos fazem algo brilhante. Um deles, o Roanoke Times fez matérias de capa, não factuais, com complemento de vídeo no site. E tem slide show com as grandes imagens.

Há diferenças de linguagens na produção?
Tessler: A linguagem da internet não é vídeo de TV, é vídeo web, o que tem algumas diferenças. Há uma experiência ótima do Washington Post, filmes com fundo branco, em 2 minutos. Isso tudo prova que o jornalismo está vivo.

E a produção do repórter?
Tessler: Temos que matar a idéia do jornalista que sai com câmera, faz tudo. Não é cobrir a coletiva do Lula com mil aparelhos e fazer tudo igual como se fossem três repórteres (TV, rádio e texto). Não vamos também mandar um repórter de rádio para fazer vídeo. Tem que apostar na complementaridade, aí sim.

E fora do Brasil?
Tessler: The Daily Telegraph é careta e conservador, o jornal mais à direita da Inglaterra, e fez uma superredação. No NYT, os correspondentes já fazem correspondencia multimídia (o correspondente de Paris, por exemplo, faz muito isso. O enviado ao Iraque também fez). The Wall Street Journal acaba de unificar as redações, na linha do web-first.

Como foi a integração do Daily Telegraph?
Tessler: A maior estratégia é o maestro multimídia. É fundamental uma mini-estrutura, cujo maestro tenha na cabeça o que é essa complementaridade. Alguém com conhecimento básico de todas as mídias. E uma pessoa respaldada. A direção tem que acreditar. E tem que ser respeitado pelos colegas das redações. Esse comanda um grupo de duas, três pessoas, ligadas a uns cinco jovens. E eles contaminam as redações.

É preciso de um grupo de pauta, que se reune na véspera, para discutir a cobertura multimidia cinco estrelas – não é toda matéria que será multimídia. Não adianta querer que tudo vire multimídia, não dá. E tudo é auto-referenciado: a TV anuncia as fotos no site, o site anuncia as imagens da TV, etc.

Para encerrar, questão polêmica: jornalista multimídia tem que ter salário multimídia?
Tessler: Acho que não, o jornalista que não é multimídia está fora do mercado. O leitor é multimídia. Como eu quero ser monomídia? O melhor jornalista ganha mais, isso sim. Bônus sim, pelo compromentimento coletivo com a produção.

Tem um exemplo interessante sobre isso. Trabalhei no primeiro jornal computadorizado do Brasil, o Diário Catarinense, e lá existia essa mesma discussão: para usar o computador tenho que ganhar mais. O sindicato dizia que o cara era jornalista, e não analista de sistemas. Se fosse para aprender a usar o computador, teria que ganhar mais. Mas esse debate passa.

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