O BOM E VELHO JORNALISMO ESTÁ MORRENDO

// July 8th, 2007 // JORNALISMO, MULTIMIDIA

Durante muito tempo se convencionou dizer que havia apenas dois tipos de jornalismo: o bom e mau jornalismo. Entretanto, o bom e velho jornalismo, puro e simples, está cada vez menos simples e mais velho. As novas tecnologias já começam a obrigar – e até há pouco o verbo era possibilitar – mudanças na forma como as notícias são produzidas.

Recentemente, num seminário em São Paulo – o MediaOn – Michael Rogers, futurista do New York Times (uma espécie de estudioso de novas mídias) disse uma dessas verdades absolutas que poucos costumam perceber. Hoje em dia, disse ele, pode não ser comum que um jornalista seja capaz de produzir ou editar texto, foto, áudio e vídeo. Mas os jovens jornalistas já fazem isso. E são esses jovens que, em 20 anos, estarão nas chefias das redações do mundo.

O mesmo raciocínio – apesar de mais contundente – segue Julian Gallo, editor do blog Mirá e um dos finalistas do prêmio da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano 2007 com um texto publicado no La Nacion chamado “Um novo jornalismo“. Ele diz que “na essência, uma história publicada hoje na internet segue sendo produzida da mesma maneira que se fazia historicamente nos meios impressos. O autor faz o importante (escreve) e outras pessoas se dedicam a ampliar ou enriquecer o texto com desenhos e conteúdos. Esta forma de trabalho concebe um autor com um só talento: escrever. Assim, se impõe que outro alguém fará a diagramação, outro fará fotos, outro escolherá as fotos, outro fará vídeos e áudios para que outro edite para que, finalmente, um técnico coloque tudo junto. Uma estrutura desse tipo confere a um jornalista menos habilidades do que tem um adolescente de 16 anos que faz seu blog”.

É claro que ser capaz de produzir em várias mídias não quer dizer que o jornalista será obrigado a produzir em várias mídias. Américo Martins, editor-executivo para as Américas do serviço mundial da BBC, diz que houve um tempo, há alguns anos, em que se imaginava que isso seria comum, mas as redações descobriram que é impossível mandar um jornalista para o campo com uma “maleta multimídia” e esperar que ele mande textos em tempo real, grave uma áudio-reportagem e ainda apareça no noticiário da noite, na TV, com uma reportagem contextualizada. A idéia de que um jornalista fará o trabalho diário de três (rádio, online e TV) já se mostrou inviável. Entretanto, o próprio Américo lembra que a BBC enviou um “multi-homem” para cobrir a guerra no Líbano e teve um bom resultado. Eles apenas não cobraram matérias diárias – o enviado fazia entradas diárias apenas no rádio e online, mas gravava para a TV em intervalos de alguns dias.

No Brasil, a experiência do repórter multimídia ainda está no início. A Agência Brasil é das poucas redações cujos mesmos repórteres produzem tanto para as rádios da empresa quanto para o online, em tempo real. As dificuldades não são poucas – mas o resultado é que temos uma equipe de repórteres perfeitamente capacitada para executar pautas diárias em ambos veículos (e alguns poucos fazem inclusive TV – não diariamente, claro).

O resultado de repórteres capacitados para várias mídias é benéfico em vários níveis. Uma operação jornalística multimídia pode oferecer uma história no melhor formato possível, seja ele qual for. Pode-se, por exemplo, gerar um tipo de reportagem que é a soma de vídeo, áudio, texto, foto e infografia, oferecendo ao cidadão a compreensão mais completa possível de um assunto – como tentamos fazer com a reportagem especial sobre o Rio Madeira. Mas o verdadeiro desafio é criar não apenas a soma das plataformas, mas a fusão delas. Isso significa criar um tipo de reportagem que não é mais simplesmente vídeo, texto ou áudio, mas a mistura disso tudo. O uso do recurso conhecido como hipervídeo é uma das experiências que fizemos nesse sentido, na reportagem sobre consumo consciente. (E quem quiser ler sobre esse processo pode acessar esse texto aqui)

E já há quem exija mais, pelo menos para testar alguns limites. A BBC terminou no início de julho o que chamou de “experiência turca“. Enviou o jornalista britânico freelancer Ben Hammersley para cobrir as eleições legislativas da Turquia. Além de gravar para a BBC World e BBC News 24, ele fez um teste utilizando ferramentas da web 2.0, colocando suas impressões no seu blog, Flickr, YouTube, del.icio.us e Twitter. “A idéia é expandir a reportagem e possivelmente alcançar novas audiências de novas maneiras”, diz o editor Richard Sambrook. Ainda Sambrook: “Não é algo que todo repórter da BBC pode ou deve fazer. Bem é particularmente experiente no uso da internet e sites sociais desse tipo”.

A BBC considerou interessante testar o limite do repórter, verificar o quanto ele é capaz de oferecer além de reportagens comuns. Todas as notas, métodos, entrevistas e problemas da apuração foram colocadas online. No YouTube, você descobre como um mal-contato num cabo do satélite quase acabou com toda a transmissão. “Esperamos que isso abra uma janela sobre como as reportagens internacionais são feitas. Não é perfeito, mas quebra o molde tradicional dos correspondentes internacionais”, diz o editor.

O modelo homem-multimídia pode não ser o ideal, mas o antigo modelo de reportagem está acabando. Para citar outro exemplo: a Agência Brasil decidiu fazer a cobertura do Seminário Internacional de Diversidade Cultural em um blog, e não somente com reportagens tradicionais. A avaliação geral é que o resultado foi muito melhor.

Tendo esse novo passo em vista, muitas dos grandes grupos de comunicação estão unificando inclusive fisicamente suas redações. Jornais como o Daily Telegraph – exemplo mundial de integração multiplataforma – se organizam agora para receber e produzir notícias, independente do veículo. Você não tem mais os jornalistas da TV ou os jornalistas do rádio, você tem jornalistas.

Arthur Sulzberger, dono do New York Times, disse em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, algo que elucida um pouco o futuro do qual estamos falando. Perguntaram a ele se, com a constante erosão da imprensa escrita, ele achava que em cinco anos o New York Times ainda seria publicado.

“Não sei, mas sabe o quê? Eu não me importo”, disse. Ele explicou que está focado na melhor maneira de fazer a transição para a internet. O Times já tem mais assinantes online (1,5 milhão por dia) do que assinantes do jornal impresso (1,1 milhão). Sulzberger disse que o New York Times começou uma longa e dura jornada que irá terminar no dia em que a empresa decidir parar de imprimir jornais. E então o ciclo estará completo.

Muitos se recusam a enxergar, mas é fato: a velha mídia e a velha maneira de fazer jornalismo está morrendo. Cabe a nós ajudá-la a morrer mais rápido, ou sermos enterrados juntos.

PS: esse texto foi feito a pedido do Jornalistas da Web. Está neste momento na fila de edição do Overmundo, também. E deve sair saiu no Observatório da Imprensa na terça-feira (10).

Blog Widget by LinkWithin

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

6 Responses to “O BOM E VELHO JORNALISMO ESTÁ MORRENDO”

  1. RMax says:

    Vim do Overmundo. Coloquei um link para o doc que vc me recomendou e para o seu blog por la. Tentei baixar o livro que vc recomendou na secao prateleira, mas nao consegui. Abraco

  2. admin says:

    Roberto, valeu – não tinha visto o que o livro tá com erro na seção prateleira. Vou consertar e colocar lá mais alguns documentos sobre multimídia.

  3. “Assistimos a uma desmediatização. É um fenômeno que se observa com os blogs, Internet. As pessoas praticam entre si uma auto-informação, conquistam a democracia, que se exerce, evidentemente, em detrimento de uma corporação, de uma maneira que tem seu calendário, seus usos, suas fraquezas. Eu não penso, portanto, que isso seja o fim do jornalismo. Vai reaparecer o jornalista questionador, o jornalista especialista, aquele que reúne a memória à atualidade (…) O jornalista não está destronado. Ele encara uma forte concorrência que nasce da pressão democrática, instrumentalizada pelas novas médias. A imprensa está desafiada a se requalificar profissionalmente.”

  4. Isabela Vieira says:

    O “multimídia” realmente será um avanço na forma tradicional de fazer jornalismo e, logo, divulgar informação. Porém, será. Hoje, não existem dentro das redações pessoas capacitadas para produzir em várias mídias e nem uma estrutura adequada para receber o material. Me surpreende que os maiores defensores desse novo modelo, mas não são capazes de dentro de suas próprias empresas, proporem a implementação do projeto.

    Na empresa onde trabalho, que ao contrário de muitas, não pôde demitir seus funcionários mais antigos, observo muitos sem familiaridade com os meios eletrônicos. No entanto, em vez de serem incentivados são cotidianamente humilhadas e cobrados por um serviço que não sabem fazer. Lá, a cobrança veio antes de se oferecer o mínimo: educação – atualização para o serviço que prestam. E, com isso, motivação.

    Sem uma redação atualizada, com os recursos tecnológicos adequados, o multimídia será apenas “o amanhã” – uma linda proposta de democratização da comunicação, informação e construção conjunta de conteúdo. É preciso que toda a estrutura do sistema, desde a pauta até os repórteres (o que inclui também os técnicos de estúdio, cinegrafistas, designers – sem eles não existe “tempo real”) passem por uma “atualização”. Assim, os profissionais vão entender não só a importância do projeto multimídia frente as novas realidades como poderão realizá-lo com capacidade.

    Como acabou de me dizer um colega, um dos maiores repórteres de rádio deste país, para pôr em prática “essa tal de multimídia temos que voltar a trabalhar em equipe”. Sem isso, somente daqui há dez anos a implantação do modelo poderá ser um sucesso. Lá, as redações vão estar cheias, “de adolescentes de 16 anos”, que hoje blogam, fotologam, editam, recortam e colam. Hoje, a exigência da realização de tantas funções é apenas uma maneira de explorar (e adoentar) trabalhadores que não estão preparados.

    Como a prática tem sido implantada em algumas redações, com antecipação dos processos, a única coisa que podemos esperar é um grande tombo.

    Para não dizer que não falei de flores, o descontentamento com o multimídia não é uma questão de remuneração. O descanso, o horário de lazer de muitas pessoas pode não ter preço.

  5. admin says:

    Isabela,

    Não acho que não existam dentro das redações pessoas capacitadas para fazer jornalismo multimídia. São minoria, ainda, mas existem. Aqui na Radiobrás, por exemplo, há um punhado de repórteres e editores perfeitamente capazes de trabalhar em diversas mídias – como já provaram, em diversas ocasiões. Todos tem, claro, mais aptidão para uma determinada mídia, mas podem, já, produzir em várias delas.

    Aqui, inclusive, foi formulada uma proposta de integração multimídia para toda a estrutura, não apenas para os repórteres (apresentada ao Comitê de Funcionários recentemente). Um dos problemas colocados para a direção da empresa, desde o início, foi justamente o treinamento para o multimídia. A Reuters, a BBC, são empresas que investem forte no treinamento, e esse é um dos pontos principais para o sucesso de qualquer tipo de integração. Aqui não foi feito no início, por vários motivos, mas é o que precisa ser feito, sem dúvida.

    Agora, se por um lado, a falta de estrutura e de treinamento terminou em falta de motivação, também é bom lembrar que a Radiobrás é uma empresa pública, com alguns (poucos? muitos?) típicos funcionários públicos, numa típica estrutura pública em decomposição. Como disse alguém que comentou esse texto no Overmundo, a Radiobrás é um mamute que usa um blog. Uma estrutura velha querendo fazer o novo. A intenção foi, sim, tencionar a estrutura ao máximo, para que os problemas ficassem evidentes – a única tática que permitiria resolver os problemas. Como tudo no serviço público – ou na gestão pública -, os problemas só são observados depois da crise. Façamos a crise chegar logo, portanto. Se for nos levar ao tombo, que a queda ensine alguma coisa – e acelere o processo de treinamento, remuneração e construção de estruturas adequadas.

    Agora, trabalhar de maneira multimídia não pode significar trabalhar mais – mas apenas trabalhar diferente. Nenhuma redação que se preze pode imaginar que um repórter/editor multimídia trabalhe diariamente 12 ou 14 horas por dia, para várias mídias. Que trabalhe oito, como fazem as pessoas normais. Mas que, nessas oito horas, seja capaz de ter um olhar multimídia para a pauta que cobre.

  6. navarro says:

    você está precisando ir trabalhar usando os cabeções que eu deixei aí na sua… jogar a bola para sua cachorra ir buscar não está lhe fazendo bem, tão pouco alimentar esse monstro que te consome!

Leave a Reply