// June 16th, 2007 // 1 Comment » // JORNALISMO
Imagine o seguinte: você conhece uma garota linda, e no primeiro encontro consegue levar ela para um motel. Chega lá, todo empolgado, ela começa a tirar a roupa, bem devagar. Parece um sonho. De repente, sai um cara do armário:
- Essa merece Bis, hein!
Ele te mostra a caixinha do biscoito de chocolate e vai embora. Você leva um susto, se recupera, e continua. Mais adiante, atenção total na garota, ela vai tirando o sutiã, super sensual, vai mostrando as partes devagarinho, você não se agüentando, querendo ver mais, ela faz que vai mostrar e… Te mostra uma Coca-Cola! Aí aparece outro cara:
- Por essa você não esperava, hein! Coca-Cola Zero, gostosa de verdade! E vai embora.
O ensaio da Luana Piovani para a Trip de junho me fez sentir mais ou menos assim. No meio das fotos – e até nas próprias fotos –, produtos. O único conteúdo anunciado na capa da revista é “Luana Piovani nua aos 30! Clicada por J. R. Duran”. Quem conhece os dois sabe que só pode ser coisa boa. O editor da capa escolheu, arriscada e talvez sabiamente, não dar pistas sobre todo o resto do conteúdo oferecido para não manchar com letras a imagem da Luana na capa. Basta dizer que tem Luana. Nua. Quem quiser que compre. Eu comprei. Só que, chegando lá, primeiro, nua nua, mesmo, não tem. Mas isso não é o pior: a publicidade invadiu o conteúdo. Sem avisar, se intrometeu em tudo. Aparentemente, não há mais limite. Ou, quem sabe, a próxima vítima será a capa (que para os jornais diários já virou oferta comercial há muito tempo).
Há algum tempo eu não comprava a revista, não sei desde quando isso vem acontecendo. Havia, antes, no jornalismo em geral, algumas regras sobre a separação clara entre o que se convencionou chamar de Igreja e Estado: de um lado, publicidade, do outro, jornalismo. Um não entra onde o outro está. Nem se falam. Nem se conhecem.
Parece que os muros construídos para separar esses limites foram virando pontes. Onde começa e onde termina? Imagino que um anúncio bem no meio do ensaio deve render um bom dinheiro. Mas e o leitor? Compra gata e é obrigado a olhar lebre. O máximo do sadismo é o pôster central da Trip. Uma daquelas fotos de três páginas, dobradas, que quando você abre para ver… é a Luana segurando uma Coca-Cola! E atrás, um calendário da Coca-Cola! Sacrilégio.
Fico imaginando como são negociadas essas coisas.
- Vamos fazer um ensaio com a Luana!
- Sensacional! Mas tem que ser um ensaio animal! Vamos chamar um pusta fotógrafo!
- O Duran!
- Isso!
Aí levam a idéia para o publisher. (Será que ele é a ponte entre a Igreja e o Estado?)
- Hum, podemos ganhar um bom dinheiro com isso…
Ele procura o setor comercial.
- Olha, vamos fazer um ensaio com a Luana. Que que podemos fazer?
- Tem um esquema novo aí, vamos vender o anúncio dentro do ensaio.
- Mas não vai atrapalhar o conteúdo?
- Nada, e com esse dinheiro a gente faz uma edição de luxo, com papel especial.
- Legal, legal.
Aí tem o ensaio.
- Isso Luana. Tira a parte de cima agora. Linda, isso. Faz biquinho. Agora segura a Coca-Cola.