Fresca noite do segundo turno.
Um dia infernal, mas honesto. Vontade de beber, relaxar, acabou tudo.
…
Maldita cidade, tudo fechado. Compramos uma caixa de cerveja e fomos sentar embaixo dos coqueiros atrás do Congresso. Dava para ver uns bêbados na Praça dos Três Poderes e os gabinetes no Palácio do Planalto por onde passsaram tantos aloprados.
Eis que se ouve o som de violinos.
Dois violinos, dois violões e alguém dando pulinhos e batendo os calcanhares. Embaixo dos coqueiros atrás do Congresso. Se fosse um filme brasileiro, eu acharia ruim. Mas estava ótimo.
Agápê, um catador de latas (“de material reciclável”, como ele prefere), chama os músicos pra perto.
- Toca Belchior, pede.
Eles tocam Renato Russo, sem saber que nenhum de nós é da cidade. Tocam e vão embora.
- É Lula lá e Alckimin, repete HP, até entendermos a piada:
- É Lula lá e álcool-in-mim.
Todo mundo ri gostoso.
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PS: Lembrei dos relatos-relâmpago que fazíamos no blog coletivo do EmCrise. Mando aí embaixo outro daqueles.
João queria ajudar, mas não pôde.
Freqüentemente escutava gritos na vizinhança. Tiros até.
A polícia não vai – tem medo. O Estado não chega – tem medo.
Um dia esmurraram sua porta gritando em desespero que abrisse, que ajudasse.
Abrir significava a morte. Não abrir significava a morte.
João ficou doente com tanta desgraça; foi embora de Ipê-Amarelo.
Um simples homem não será capaz de mudar a rotina das favelas de Minas.
XXXX
Dois trompetes, um trombone, uma tuba e uma trompa cantavam sob as árvores da rua.
Os mais velhos sorriam de prazer. As crianças escutavam com curiosidade. Os pássaros apenas voavam.
Entre a correria e o som dos automóveis de São Paulo, cinco homens sopravam metais sem compromisso numa tarde de sol.
Era só mais um desses domingos do Sesc Pompéia.
XXX
“Não gosto de coxa de frango. Cometi um homicídio em que o rapaz morreu com uma coxa de frango na boca. Me traz lembranças ruins.”
Antes do almoço o preso José havia mostrado ao repórter a solitária. Estava destrancada.
“Quando alguém faz algo ruim, trazemos ele para essa cela forte, para ele pensar melhor”. Tentava esconder o sorriso quando puxou a pesada porta de ferro.
Havia uma imagem de Jesus Cristo pendurada na parede, um tapete, seis cadeiras sobre ele e uma bíblia aberta abaixo da cruz.
Era uma prisão diferente.